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A NOITE E A MADRUGADA (1950)
Autor: Fernando Namora
Realizador: Artur Ramos (1985)
Um dos melhores romances de Namora, ambientado entre contrabandistas da Beira Baixa por alturas da guerra civil de Espanha, gerou um filme formatado pela estética neo-realista, já muito fora de época, com actores citadinos (mal) transpostos para o campo. Melhor ficarmo-nos pelo livro.

Ainda o hei-de ler. Apesar de tudo que se diz de Fernando Namora, gosto-lhe da prosa simples.
Quem diz mal certamente não leu nenhum livro dele.
O primeiro livro que li foi Domingo à tarde. Gostei bastante.
Muito bom, esse livro. De 1961, ano fértil para a literatura portuguesa.
Também o ano de ‘Angústia para o Jantar’ (Sttau Monteiro), ‘Bonecos de Luz’ (Romeu Correia), ‘Barranco de Cegos’ (Alves Redol), ‘O Signo da Ira’ (Orlando da Costa).
Talvez, mas só li o de Sttau Monteiro, Angústia para o jantar. E também gostei:).
Gosto muito de tudo o que escreveu. Uma escrita, que todos compreendem, e que é um retrato do país.
Sim, Namora tem vários livros fundamentais para percebermos como era Portugal naquele tempo.
Este é um deles.
Haverá alguma escola de actores especiais para filmes não citadinos, ou, melhor, nunca por cá se poderão fazer filmes com argumentos provincianos por só haver actores citadinos?
Se puseres alfacinhas de gema a fazerem de camponeses pobres da Beira Baixa, a asneira descobre-se em poucos minutos. A partir daí a estética “realista” vai pelo cano. E o filme “sério” torna-se uma palhaçada.
Essa de “só haver actores citadinos” é um dislate típico da arrogância “lesboeta”. Velha de séculos.
Esta réplica não saiu assinada mas é minha.
Não quer dizer só filmes citadinos, quer dizer por a maioria dos actores ser citadina, só poderiam ser feitos filmes citadinos, pergunto ?
E, mesmo assim, como fazer filmes citadinos com argumentos sobre os anos 20 com os actores a falarem (sotaque) à forma actual ?
Não defendas o indefensável.
Os sotaques trabalham-se: a voz, a expressão vocal, o aparelho fonético e a pronúncia são matérias essenciais na representação.
Achas que o Paulo Gracindo, natural do Rio de Janeiro, teria interpretado com tanto brilhantismo os papéis de Odorico Paraguaçu ou do coronel Ramiro Bastos com sotaque carioca?
Se interpretas um rural da década de 30 na raia beirã tens de falar à moda dele, com o vocabulário que ele usava (e que o romance de Namora bem reproduz). Se quem interpreta essa personagem como se estivesse numa aula de dicção do Conservatório de Lisboa não chega a ser credível: torna-se simplesmente ridículo.
Sobretudo tratando-se de um filme que faz questão em proclamar-se arauto da estética “realista”, como é o caso.
Noutra cena deste filme, um tipo descalço, sem dinheiro sequer para usar alpergatas, deita-se na rua. Vemos pela primeira vez as solas dos pés do fulano: limpinhas e branquinhas da silva, parece que o tipo saíra um minuto antes do duche.
Estética “realista”? Uma ova.
Ok.
Então o filme está mal realizado, não tem nada com o serem artistas citadinos.
Pois, há falhas clamorosas de realização. Dei apenas um exemplo, mas há muitos outros. Na cena capital, à beira do fim, que é uma cena de “acção” que culmina num homicídio, soa tudo tão a falso, percebe-se tão bem que nada daquilo é sequer verosímil, que o drama torna-se comédia (involuntária).
Há uma agressão física, em que se se percebe nitidamente que o agressor não agride. Depois, um plano de corte e o agredido logo aparece cadáver, estendido no chão, com tinta vermelha na cara.
Simplesmente ridículo. Não admira que o filme tenha sido um rotundo fracasso. E em nada contribui para encaminhar leitores para a obra de Namora, o que é pena.
Sobre o autor do livro que refere, Fernando Namora, uma outra história deliciosa envolvendo outros dois escritores e também um livro que deu origem a filme.
Dois escritores? Não. Talvez um e meio.
Se me permite: qc4o
https://www.youtube.com/watch?v=QwJXJJ3
Pois, António: a velha questão do “plágio”.
O que é plágio? Escritores sempre foram acusados de plagiar – em Portugal, de Eça a Miguel Sousa Tavares.
O autor d’ A Cidade e as Serras viu-se toda a vida acusado de ter “plagiado” Zola quando escreveu O Crime do Padre Amaro. E sempre negou categoricamente tê-lo feito.
O que é originalidade em literatura?
Onde termina a influência e começa o plágio – não a homenagem, involuntária ou não, mas a cópia despudorada?
Um autor defende-se com uma obra, não adiantando isolar-lhe uns quantos parágrafos em centenas de milhares. É com essa obra que enfrenta o teste da posteridade.