Há dias fechei um puzzle das minhas memórias de infância. Lembro-me de ser bastante pequeno e ir com os meus pais votar. Naquele dia, e este é o pormenor mais detalhado da minha memória, lembro-me da nossa sombra no chão empedrado à frente das escadas do adro viradas para a Rua da Ameixoeirinha, a caminhar em direção à escola primária. Lembro-me que os meus pais me levavam pela mão, um de cada lado e eu no meio. Talvez tenhamos andado mais vezes assim, mas só me lembro de caminhar de mão dada com os dois, nessa disposição, nesse dia.
Esta é uma memória longínqua e anterior às memórias da minha escola primária. Estava sol, deixamos o carro à frente do salão Paroquial e seguimos a pé até à escola. Íamos votar. Para mim era apenas mais um domingo em que depois de irmos visitar os meus avós, fazíamos uma paragem antes de regressar a casa. Será que é uma memória sugerida? Acho que não.
Fechei o puzzle das minhas memórias quando entendi que essas terão sido também as primeiras eleições em que os meus pais participaram. Havia ali uma excitação pela coisa de ir votar. Olhando para esses tempos é normal que essas tenham sido as eleições para à Assembleia Constituinte, que fundou a nossa democracia e o nosso regime. Sem ter consciência disso, foram também as minhas primeiras eleições.
Votar tornou-se para a minha geração algo normal. Mas se nos dermos ao trabalho de nos observarmos por fora, olhando para o que se passa em dezenas de outros países, as eleições livres e justas constituem quase um milagre. Votando, conseguimos que quem está no poder saia de lá pacificamente, e isso não é coisa pouca.
Vale a pena ir votar. Mesmo quando os nossos governantes nos falham, o que infelizmente é frequente, podemos levantar o queixo e afirmar que fizemos a nossa parte. Amanhã, não tenham medo do vírus e vão votar. É muito mais importante, e tão pouco arriscado como ir ao supermercado comprar ração para o gato.
Votem em quem entenderem, com liberdade e consciência.
Eu vou votar no Tiago Mayan, pois graças a ele temos uma alternativa decente ao socialismo.

Eu lá estarei. Tudo visto, acho que o(s) meu(s) gato(s) vale(m) mais, muito mais, dos que os políticos que nos vão pastoreando. Abençoado Eça!
Costa
Amanhã devia ser considerado decretado dia de Luto Nacional por tempo indeterminado…