O Inverno e o descontentamento

Mais um dia que amanhece chuvoso e triste. Este Inverno tem chorado todas as mágoas da sua vida e da vida de outros invernos que antes dele se limitaram a ser cortantemente frios e ventosos.
Pela janela embaciada, aceno à minha mulherzinha que caminha debaixo de chuva apertando o passo, como se fosse possível com a sua aceleração escapar ao aguaceiro. Obrigações de estudante que toma sempre muito a sério. Este será o último ano, queira Deus e estude ela.
Lembro-me dos meus tempos de lente aplicada. Nunca fui uma estudante portentosa como o Mano, que era raro estudar muito, aprendia por osmose, ria eu. Bons resultados comigo era diferente, obrigava a muitas horas de estudo, muitos apontamentos, muitos livros. Só os estrangeirismos me pareciam naturalmente fáceis, sendo óbvia a escolha de área.
Confesso que fiquei desapontada quando vi a professora de Inglês. Baixa, magra e esquálida, com uma cabeça levemente desproporcionada onde pontuavam uns enormes e atentos olhos escuros, a Professora Rosário não correspondia minimamente à minha ideia duma professora de línguas. Pior foi ouvir-lhe o tom tão pouco britânico com que fazia questão de se pronunciar, sempre em inglês. Detestei-a no momento em que nos “anglofonou” os nomes própriops e nos chamava aquelas coisas sem sentido algum.
Detestei a sua maneira de ensinar, os testes que deu, as dezenas de livros que nos obrigou a ler na língua materna do autor, a sua rigidez e intransigência, os poemas que tínhamos que decorar diariamente… francamente acho que detestei aqueles cinco anos de Inglês que tive com ela, tediosos, sufocantes, cargosos, exigentes.
Passadas décadas desde a minha última aula com a Professora Rosário, olhando em retrospectiva tudo o que contrariada com ela aprendi, recordo a sua imagem com um sorriso e a imensa gratidão de alguém que ainda sabe de cor a Nurse’s Song de William Blake e tantos outros poemas e citações de tantas dezenas de autores, à força de os recitar vezes sem conta (algumas a título de reprimenda por alguma impertinência – como conversar na durante a aula ).
Agradeço-lhe tudo o que me ensinou sem eu ter consciência de que queria aprender, porque, diferentemente de outras matérias, de outras aulas, de outros mestres, esta foi luz que nunca se apagou do meu conhecimento.

Gostei. A propósito.
Qual irá ser o idioma predominante nesta (débil) União Europeia?.
A língua inglêsa está a ser puerilmente ostracizada pelas “elites de Bruxelas”.
Percebe-se. Alemães e franceses tentam puxar a brasa à sua sardinha.
A diplomacia e os eurocratas adoram o francês. Os alemães desistiram?.
Sem diminuir outras culturas, a verdade é que o Reino Unido sustenta uma língua historicamente marcante a nível europeu e mundial. O peso dos EUA ajuda.
Por outro lado a utilização prática das “línguas inglêsas” está, hoje em dia, enraizada. É comum. A língua franca. Serviços na área da Finança e Comércio. Comunicações internacionais, aviação, tráfego maritimo, equipamento, livros técnicos.
As industrias do Lazer. Infindável.
Irá o fanatismo simplório, artificialmente, retirar William Blake das escolas de esta dita “União Europeia”?. Pobre União.
O alemão o o francês têm muita gramática, muitas declinações, muitos tempos primitivos.
Não são de fácil aprendizagem. São também línguas que requerem prática constante.
Depois o inglês ainda é considerado a língua internacional da ciência, da 7ª arte, do digital audio visual, e se formos considerar em termos de população, o espanhol é a 2ª língua mais falada no mundo.
Não acredito que a Europa venha a ser fundamentalista a esse ponto.