Agosto já não cheira a Agosto.
O odor que paira no ar traz uma mistura de pó, fumo de escape, lixo, plástico quente, beatas ressequidas, cozinhados gordurentos e transpiração.
Agosto começava em Nandufe com o perfume das estevas, das azedeiras e da hortelã. Cheirava a verde pelas veredas estreitinhas e húmidas que iam da casa até ao rio , passando pelo tanque das lavadeiras onde o cheiro a azul e branco acompanhava o caminho por meio das silvas até à grande balsa feita com madeiras velhas e quatro bidons vermelhos de ferrugem, a cuja passagem os alfaiates moviam apressadamente as patas para fugir de onde o espelho abria em par. O ar era morno e doce , os olhos brilhavam acima dos pomos rosados e o tempo tinha milhares de minutos alegres e preguiçosos.
Agosto acabava em Alvor, com o cheiro a mar, a sal e a sorvete de morango. Os robalos pulavam na lota, o carvão crepitava com fumo almiscarado . O sol quente doirava a pele lentamente , naquele compasso arrastado das tardes de calmaria que convidavam à leitura e à modorra. O mar estava invariavelmente frio com dias de caldo verde, em que a temperatura da água convidava ao demolhe prolongado. Inesquecível o perfume do óleo de coco misturado com azul transparente e límpido.
Já não consigo encontrar o Agosto, nem nos aromas, nem na cor ou no sabor .
Agosto envelheceu mal. Tornou-se obeso, salobro, desagradável até. Agosto sucumbiu aos vícios humanos e embruteceu.

Ao longe eu ouvia: 7k0
https://www.youtube.com/watch?v=MRQm7Yt7
https://www.youtube.com/watch?v=I6ryBrtQ tgM
A time to be reaping, a time to be sowing
The green leaves of summer are calling me home
It was good to be young then in the season of plenty
When the catfish were jumping as high as the sky.
A time just for planting, a time just for plowing
A time to be courting a girl of your own
T’was so good to be young then, to be close to the earth
And to stand by your wife, at the moment of birth.
A time to be reaping, a time to be sowing
A time just for living, a place for to die.
T’was so good to be young then, to be close to the earth
Now the green leaves of Summer are calling me home
T’was so good to be young then, to be close to the earth,
Now the green leaves of Summer are calling me home.
The Brothers Four – The Green Leaves Of Summer
lucklucky
Gosto muito. Embala como o Verão.
Devia ser por essa altura, sim
Em harmonia com a natureza e os seus semelhantes.
Em vez de semelhantes teria preferido Terreanos ,
mas a palavra não existe. 😊
Existe terráqueos, do ponto de qualquer E.T.
Nāo simpatizo com essa palavra
Realmente faz lembrar qualquer coisa anfíbia
Demasia gente. E, o homem em vez de preservar a natureza aniquila-a. Está tudo ao contrário.
Acabaram-se os odores ao “azul” que estavam na memória…
É tristemente certo o que diz. te-a-montanha-mais-alta-do-mundo-esta-ch eia-de-lixo-e-ate-cadaveres-uma-equipa-p ropos-se-a-limpa-la/?fbclid=IwAR1CfLFHjg VHPHp0Mzgkm_vFnt-m03ML2wQ8NS3iMCJrDCRPg5 s52MV2osU
Hoje li esta notícia e comentei que somos piores do que porcos
https://observador.pt/2019/05/03/everes
“demasiada gente”
Mentira. A maior parte do planeta não tem pessoas.
lucklucky
Basta um pequeno agente infeccioso para dizimar o verde, o azul, os perfumes, as cores…
Em Agostos por eu ouviria ao sul e ao sol.
https://youtu.be/VtXl8xAPAtA?list=PL3PhW T10BW3VDM5IcVodrdUpVIhU8f7Z-
A.Vieira
Mais talvez o Help! o Hard Day’s Night, o Rubber Soul… são memórias mesmo muito pré-históricas