Instantes em sépia, com capa de muitas cores (2)


Maria Dulce Fernandes,

Agosto já não cheira a Agosto.

O odor que paira no ar traz uma mistura de pó, fumo de escape, lixo, plástico quente, beatas ressequidas, cozinhados gordurentos e transpiração.

Agosto começava em Nandufe com o perfume das estevas, das azedeiras e da hortelã. Cheirava a verde pelas veredas estreitinhas e húmidas que iam da casa até ao rio , passando pelo tanque das lavadeiras onde o cheiro a azul e branco acompanhava o caminho por meio das silvas até à grande balsa feita com madeiras velhas e quatro bidons vermelhos de ferrugem, a cuja passagem os alfaiates moviam apressadamente as patas para fugir de onde o espelho abria em par. O ar era morno e doce , os olhos brilhavam acima dos pomos rosados e o tempo tinha milhares de minutos alegres e preguiçosos.

Agosto acabava em Alvor, com o cheiro a mar, a sal e a sorvete de morango. Os robalos pulavam na lota, o carvão crepitava com fumo almiscarado . O sol quente doirava a pele lentamente , naquele compasso arrastado das tardes de calmaria que convidavam à leitura e à modorra. O mar estava invariavelmente frio com dias de caldo verde, em que a temperatura da água convidava ao demolhe prolongado. Inesquecível o perfume do óleo de coco misturado com azul transparente e límpido.
Já não consigo encontrar o Agosto, nem nos aromas, nem na cor ou no sabor .

Agosto envelheceu mal. Tornou-se obeso, salobro, desagradável até. Agosto sucumbiu aos vícios humanos e embruteceu.

0 comentários em “Instantes em sépia, com capa de muitas cores (2)”

    1. https://www.youtube.com/watch?v=I6ryBrtQtgM

      A time to be reaping, a time to be sowing
      The green leaves of summer are calling me home
      It was good to be young then in the season of plenty
      When the catfish were jumping as high as the sky.

      A time just for planting, a time just for plowing
      A time to be courting a girl of your own
      T’was so good to be young then, to be close to the earth
      And to stand by your wife, at the moment of birth.

      A time to be reaping, a time to be sowing
      A time just for living, a place for to die.
      T’was so good to be young then, to be close to the earth
      Now the green leaves of Summer are calling me home

      T’was so good to be young then, to be close to the earth,
      Now the green leaves of Summer are calling me home.

      The Brothers Four – The Green Leaves Of Summer

      lucklucky

  1. Em harmonia com a natureza e os seus semelhantes.
    Em vez de semelhantes teria preferido Terreanos ,
    mas a palavra não existe. 😊

  2. Demasia gente. E, o homem em vez de preservar a natureza aniquila-a. Está tudo ao contrário.
    Acabaram-se os odores ao “azul” que estavam na memória…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *