Instantes em sépia com capa de muitas cores (11)


Maria Dulce Fernandes,

Ser belo

borboletas-na-barriga.jpg

                                                                                                                           

 

A beleza não é essencial à vista, diz o escritor, mas também é certo que o povo é sábio quando afirma que os olhos também comem… aliás as primeiras impressões, nem sempre são as mais correctas , mas são as que se encontram em primeiro lugar no pódium das considerações que tecemos durante a fugaz lonjura dos dias da nossas vidas.

 

Os teóricos do caos falam do efeito borboleta como o princípio de um encandear de situações que poderá levar à aniquilação total e de como a  fragilidade de uma simples variável adaptada a sistemas dinâmicos e complexos pode influenciar as não-linearidades do conhecimento.

 

Falo do efeito borboleta como um instável mas constante procurar pela exaltação do sublime, numa transformação do grotesco no belo, na apoteose da leve magnificência de um ser efémero que só deixa a suave marca da sua infinita beleza,  num mimetismo polifórmico num mar flutuante de cor.

 

Qualquer um é a lagarta que tece o casulo e se resguarda , que espera pacientemente na crisálida que da pupa  aconteça o imago, que aguarda resignadamente a lenta metamorfose, para num apoteótico clímax de fascínio, mostrar ao mundo o  encanto e a majestade em todo o seu esplendor.

 

É com borboletas no estômago e alegria na alma que nos deslumbramos com a grandiosidade do frágil encanto. Prende-se-nos o olhar e a respiração, sentimo-nos sufocar e deixamo-nos ir,  desvanecendo com os sentidos, enquanto uma voz do fundo dos tempos nos ecoa e aturde, como um alfinete embebido em éter ” Quid pro quo, Clarice, quid pro quo”.

 

 ( Foto da internet)

0 comentários em “Instantes em sépia com capa de muitas cores (11)”

  1. Se olharmos com atenção durante três segundos para os olhos de alguém que se conhece pela primeira vez, a verdade dos seus sentimentos prevalece antes de se desvanecerem.
    Olhos, delatores da alma.
    Num lampejo de um segundo ou dois, de entre a multidão que a afogava, uma rapariga viu.
    – Sabes, Maria, – disse-lhe a irmã quando ela chegou a casa. – Veio um rapaz morar para a casa ao lado.
    – Sei. E se ele for solteiro vou casar com ele.
    – Vais casar?! Como sabes se ele quer?
    – Sei. Gosta de mim.
    – Como sabes isso, Maria?
    – Gosta. Vi nos seus olhos.

    Tão verdade.
    Meu amor, minha vida. Amei-te quando te vi, e nos teus olhos eternamente me perdi.

    1. Tão bonito, Corvo, o que (quase) nos conta aqui.
      Não quer desenvolver?
      Mas diga-me, o Corvo existe mesmo ou é uma personagem de um romance que está a escrever?
      É que se existe mesmo, caramba, caraças, deve ter tido várias fadas (e até o próprio Merlin) a abençoá-lo no dia em que nasceu.
      ⚘
      Maria

        1. Quem sabe, Dulce?
          Esperamos que ele nos conte ou perguntamos à Lady Guinevere?
          Uma coisa é certa: o Corvo é um cavalheiro com as Ladies, será que também é um Cavaleiro da Távola Redonda?
          ⚘
          Maria

      1. Foi mesmo verdade; Maria. Foi exactamente assim.
        Contudo, essa menina, essa mulher, serviram-me os seu sentimentos de inspiração para a Isabel do meu primeiro romance.
        Existiu, mas já não existe. Deus foi mau e disse-me que ela já não era minha.

        Cinco segundos antes.
        Os olhos que já não iluminam, a voz sumida lentamente esvaindo-se.
        – As minhas filhas.
        – Ficam bem, Maria; ficam bem.
        O derradeiro beijo já não o sentiu.

        Tirou-ma sim, mas nunca ma roubou.

  2. Belíssimo texto, Dulce.
    Eu sou daquelas que acredita na verdade de um primeiro olhar; já pensei ter-me enganado e, passado um tempo, vi que afinal a impressão inicial é que estava correcta.
    Não confio em pessoas que desviam o olhar…
    ⚘
    Maria

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *