Inquietações


Diogo Novo,

No Jornal da Noite de ontem, a SIC apresentou a cabeça de lista do Livre em Lisboa como “mulher, afrodescendente e gaga”. São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas. Mas este é o novo normal. A política nacional – e não só – parece içar os seus candidatos com base em atributos e especificidades de uma irrelevância olímpica.

Ao reduzirem os candidatos a caricaturas, partidos e comunicação social contribuem para os males da democracia. E, claro, depois andam às aranhas para perscrutar as causas da abstenção e do crescimento eleitoral de retóricas simplistas.

40 comentários em “Inquietações”

  1. “Ao reduzirem os candidatos a caricaturas, partidos e comunicação social contribuem para os males da democracia.”

    Sem dúvida, mas apostava um dedinho à maneira dos yakuza que o próprio partido a escolheu por causa disso — e provavelmente a promoveu no comunicado de imprensa com esses epítetos ridículos. E isso é infinitamente mais estúpido.

    Se eu fosse uma mulher ou fosse gago e me chamassem mulher ou gago era-me perfeitamente indiferente. Agora se fosse africano e me anunciassem ao mundo como afrodescendente (ainda por cima sem hífen) provavelmente ficava furioso.

    Mas enfim, aquele partido já é em si próprio imbecil portanto olha qsf.

    1. Se a moda da caricatura pega, as próximas eleições serão ganhas pelo partido que apresentar um candidato anão, coxo, amblíope, de ascendência costa-ricense, médico e trapezista, além de integrado em todas as siglas possíveis de orientação sexual e identidade de género. Já a sua competência para o exercício da função de deputado será, como deve ser, um assunto lateral.

        1. Segundo julgo saber, a língua portuguesa admite vários gentílicos para indicar a naturalidade de alguém oriundo da Costa Rica. Optei pelo que mais se assemelha ao gentílico do idioma próprio (‘costarricence’). Mas posso estar enganado, António.

    2. ” não integram um candidato coxo e anão?” A resposta é não. Mas integram muitos atrasados mentais que também é uma característica muito favorável para se militar no Livre.

        1. Eu estava a pensar no gajo dos Radiohead, no Miguel Strogoff, sei lá, no Camões. No Panoramix, até! (esta é pró Vorph)

          Tudo gente grandiosa e célebre.

  2. Há um partido que tem como cabeça de lista uma mulher obesa com 135 quilos. Num debate com o candidato de outro partido, um rapaz jovem e elegante (63 quilos) ela esmagou-o.

      1. Isto qualquer dia é como aqueles programas, tipo The Voice, em que na sua apresentação o candidato mostra o seus medianos dotes vocais e as suas supremas tragédias pessoais. (avó com cancro, pai preso, nasceu com um micropénis, ou sofre de ejaculação precoce – se por malvada coincidência o pacote vier junto o jurado carrega logo no botão dourado)

  3. Jornalismo Marxista tem de assinalar os pontos e a posição relativa nas Classes da Victimologia Marxista.

    Ela teve 3 pontos.

    —
    O Jornalismo está a destruir a democracia e pior a liberdade ao fechar todos em grupos raciais, sexuais de onde não podem sair sob pena de danação social.
    O objectivo para o Jornalismo Marxista é claro fazer as pessoas pensarem só de uma maneira. Controlar a “plantação”.

    lucklucky

  4. Além de inóquas revelam muita falta de chá. De delicadeza para com o candidato que se apresenta. A falta de qualidade que grassa nos media é uma ameaça ao nosso bom humor – pelo menos; é que são erros de palmatória e ficam sem castigo até porque as chefias nem devem dar por eles. Ninguém é corrigido, senão pelo telespectador. Mas exigir a qualidade dos media é direito de nós todos.

  5. “São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas.”

    Ó Diogo, os actuais partidos com representação parlamentar têm como líderes António Costa, Rui Rio, André Silva, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins. Competência? Se os portugueses se preocupassem com a competência dos candidatos que elegem a 6 de Outubro teríamos a festa do voto em branco…

    Regressando ao teu texto: pelo menos duas das três características que consideras inócuas podem não o ser para parte do eleitorado. Considerando a nossa história e a nossa população, não deixa de ser notória a ausência de afro-descendentes na nossa vida política, pelo que uma candidata afro-descendente poderá levar eleitores ao voto apenas por se identificarem e se reverem nela. E apesar de ter havido alguns progressos na visibilidade das mulheres na política, pode-se argumentar que ainda haverá um longo caminho a percorrer nesse sentido.

    Será errado votar em alguém por critérios de identificação étnica, de género ou sexual? Num mundo perfeito, talvez. Mas o nosso mundo não é perfeito, e isso não me parece mais errado do que votar no mesmo partido de sempre só porque sim, como se se tratasse de um Benfica – Sporting.

          1. Mas o ponto não era esse. O factor étnico não será o principal para *todos* os eleitores desse perfil étnico, mas *poderá* ser para alguns. Em última análise, é um critério como outro qualquer.

            No resto, perante candidatos como os que temos por cá vir-se falar em competência parece-me bizarro. Temos António Costa como primeiro-ministro, não temos?

      1. Não são racistas, não têm nada contra a minoria laranja :)))

        Há muitos latinos e de outras cores que foram para o EUA precisamente para fugirem da sua cultura.

        E outros que vêem o que a Esquerda faz aos seus. Para começar os Asiáticos discriminados nas admissões Universitárias só porque são melhores que os outros.

        Talvez um dos votou em Trump acabou de receber 0.5M de $ de indemnização de uma escola que são antros que Orwell reconheceria muitas vezes.

        A teacher in Minnesota who had complained about racial quotas in school discipline has been awarded over half a million dollars in a settlement. Aaron Benner, who’s black, alleged retaliation by the St Paul Public Schools in the form of four “personnel investigations” following his criticism of discipline policies… Benner said, “We are crippling black students with racial equity plans that do a disservice. We should not be telling minority students they will not be disciplined the same as other students when their behaviour is unacceptable and sometimes even violent.”

        https://www.thecollegefix.com/minnesota-teacher-gets-over-500k-settlement-after-exposing-racial-discipline-quotas/

        Claro que quem paga os 0.5M$ é o “Zé”, nunca chega aos bolsos dos próprios.

        lucklucky

    1. Portanto, João, uma vez que a competência não tem primazia na lógica eleitoral e na liderança dos partidos, o melhor é aplicar a máxima “perdido por cem, perdido por mil” e assumir de braços abertos a normalização dos candidatos-caricatura. É isso? Não estou de acordo e suspeito que tu também não.

      As três características são, de facto, irrelevantes para avaliar a competência e a experiência da candidata para a titularidade de um cargo público. Coisa diferente é saber se são eficazes para captar votos – admito que sim, mas esse não é o meu ponto.

      Ser afrodescendente (assumo o termo para facilitar o debate) não a torna mais qualificada para perceber as necessidades e para resolver os problemas dos afrodescendentes portugueses. Se assim fosse, só um agricultor poderia ajudar os agricultores, só um doente poderia ajudar os doentes, só um militar poderia ajudar os militares, e assim sucessivamente. A composição dos governos seria uma coisa engraçada (além de populista e de uma ineficiência sem rival).

      Perguntas se será errado votar em alguém por critérios de identificação étnica, de género ou sexual. Respondo-te que não, como é evidente. Cada um vota de acordo com os critérios que bem entender, muitos dos quais imperscrutáveis. Mas subordinar a competência para o exercício de cargos públicos a características folclóricas é dar um passo grande e firme em direcção ao abismo.

      1. Depende, Diogo; julgo que somos capazes de ter opiniões diversas sobre a definição de “candidato-caricatura”. Para mim, caricatura é ouvir o António Costa a tentar falar português. Ou ouvir o Rui Rio a falar sobre justiça ou jornalistas. Ou ouvir a Catarina Martins a falar de barragens.

        Destacar a etnia ou o género de um candidato não me parece ser uma caricatura; é tentar apelar a perfis demográficos particulares. Não, ser mulher e afrodescendente não qualifica automaticamente alguém a resolver os problemas das mulheres e dos afrodescendentes. Mas, vamos lá ver, também não a desqualifica automaticamente. E mais: estabelece uma identificação, e essa identificação é relevante para muitas pessoas, sobretudo se essas pessoas sentirem que os candidatos “do costume” não as representam, nem nas políticas que defendem nem no percurso de vida que trazem.

        Sim, a candidata do Livre – partido no qual não tenciono votar – poderá não ser especialmente qualificada para representar as mulheres ou os afro-descendentes (não faço ideia se o será). Mas para eleitores indecisos que sejam afro-descendentes ou mulheres, estas duas características podem ser decisivas num boletim cheio das caras do costume.

        Na esmagadora maioria dos casos, a competência e os percursos académicos e profissionais não têm de facto qualquer relevância quer para a liderança dos partidos quer para as candidaturas a eleições – como, aliás, se tem notado há já muitos anos (é ver quem nos governou neste século, por exemplo). Diria que a maior parte dos eleitores – os cidadãos que ainda se dão ao trabalho de ir às urnas – há muito que vota por critérios puramente tribais: votam no PS ou no PSD (ou noutro qualquer) como torcem pelo Benfica ou pelo Sporting. Sim, é uma visão cínica da realidade, mas não me parece que valha a pena estarmos com grandes lirismos: as coisas são como são, e não como gostaríamos que fossem.

        Ou, dito de outra forma, no abismo já nós estamos.

        1. O sentido que dou a ‘candidato-caricatura’ é o de resumir um indivíduo a características físicas/biológicas destituídas de importância para avaliar a sua competência para o exercício de cargos públicos. Talvez mais importante, é ver os próprios candidatos e os partidos que os apoiam a destacar essas características, transformando-as numa espécie de cartão de visita (que não só identifica o candidato como justifica a sua candidatura).

          Costa, Rio, Cristas, Sousa e Martins não o fizeram. Nenhum se encostou a aspectos de natureza física para fazer valer candidaturas. Costa podia tê-lo feito, mas nunca admitiu ser reduzido à melanina ou a ascendências. Com mais ou menos verdade, Costa sempre puxou por méritos e talentos (experiência, capacidade de diálogo, capacidade de liderança, etc) para se afirmar. Não é que tenha ocultado a sua cor da pele nem as suas raízes goesas; simplesmente não permitiu (e bem) ser reduzido a elas.

          No caso em apreço tivemos precisamente o contrário: alguém que se apresenta como “mulher, afrodescendente e gaga” no contexto de luta eleitoral, como isso dissesse alguma coisa sobre a capacidade que tem para exercer um determinado cargo. E há um ângulo mais gravoso: ao seguir este caminho, isto é, ao centrar o debate sobre a sua candidatura nestas três características, a candidata e o partido que a apoia dificultam o trabalho de escrutínio – porque tudo o que interessa saber é que a candidata é “mulher, afrodescendente e gaga”.

          Como te digo, João, concordo contigo quando dizes que características como a etnia ou o sexo (as pessoas têm sexo, as palavras género) podem ser eficazes para captar votos. Concordo igualmente que o estado de degenerescência política já nos colocou numa situação de ‘flirt’ com o abismo. Mas isso não autoriza que se normalize este desvio retórico e doutrinal na apresentação e justificação de candidaturas.

          Até agora, todos os candidatos puxavam por experiências profissionais, académicas, pessoais e políticas para se justificarem perante os eleitores (mesmo que com muitos artifícios à mistura). Sentiam a obrigação de mostrar serviço, capacidades e valores. Agora basta ser do sexo X, da cor Y e da ascendência Z, no pressuposto que essas características certificam capacidades. É absurdo.

          1. “O sentido que dou a ‘candidato-caricatura’ é o de resumir um indivíduo a características físicas/biológicas destituídas de importância para avaliar a sua competência para o exercício de cargos públicos.”

            Mas essas características físicas e biológicas podem ser relevantes num contexto mais alargado – se a candidatura da Joacine Katar Moreira der primazia a questões de direitos sociais, então o género e a etnia dela terão inegavelmente importância (mesmo que na prática o exercício se possa revelar redutor – recorde-se o caso do Miguel Vale de Almeida, ou até mesmo do André Silva, que não parece ter grande contributo a dar para temas que não envolvam animais domésticos). E, uma vez mais, se a características em questão não a qualificam para o que quer que seja, também não a desqualificam para o que quer que seja (dito de outra forma, não serão nem currículo nem cadastro).

            No resto, estas características (que ainda não percebi se foram destacadas de facto pelo Livre ou foram hiperbolizadas pela comunicação social) acabam por servir tanto para apelo identitário como para soundbyte – e é disso que as campanhas hoje em dia são feitas, como sabes bem melhor do que eu. Destacar que a Joacine Katar Moreira estudou aqui, trabalhou ali e acolá, e fez isto ou aquilo será, convenhamos, um soundbyte fraquinho – sobretudo para uma campanha de um partido minúsculo (ainda que com simpatia mediática) que irá enfrentar máquinas eleitorais muito mais oleadas com candidatos muito mais conhecidos, mesmo que por motivos menos bons.

            E este soundbyte, intencional ou não, cumpriu o seu papel. Fala-se dela na imprensa, discute-se a candidatura nos blogues, foi ao programa do Ricardo Araújo Pereira, os vídeos circulam nas redes sociais, etc. Quem quiser rejeitá-la pelo destaque mediático dado à cor da sua pele e ao seu género, poderá fazê-lo. Quem quiser votar nela apenas por essas características, poderá igualmente fazê-lo. E quem quiser ver para lá do soundbyte e descobrir o que ela diz, pensa, defende e propõe, poderá também fazê-lo – e decidir em conformidade (a mim, se ainda estivesse indeciso, bastar-me-ia o segundo parágrafo de um artigo da Visão de 22/09 para ter a certeza de que não votaria no partido dela). É a velha história de não haver má publicidade.

            Tudo isto até pode ser absurdo, sim. As políticas identitárias – acaba por ser disso que se trata, não é? – tendem para o absurdo quando levadas ao extremo, e hoje em dia *tudo* é levado ao extremo. Só tenho dúvidas de que seja mais absurdo do que aquilo que já temos. E aquilo que já temos é: uma série de candidatos instalados que está onde está porque esteve onde esteve, independentemente de terem estado bem ou mal (ou não estaríamos há quatro anos a ser governados por um executivo onde figuram vários ex-governantes que conduziram o país a uma bancarrota); uma taxa de abstenção elevadíssima, já que, entre outros factores, a falta de qualidade das candidaturas “do costume” pouco entusiasma; um eleitorado largamente tribalizado, que vê a política como um jogo da bola; uma comunicação social que não ajuda; e um desinteresse colossal que se traduz numa falta de memória e de escrutínio – este já só praticamente existe em casos extremos (não fosse um caso de encarceração súbita e talvez o Sócrates – o Sócrates! – tivesse chegado a Belém, ou lá chegasse daqui a um par de anos).

            Enfim, isto não me parece uma doença, mas apenas mais um sintoma de um problema muito mais profundo.

        2. Ou seja para si está bem que um candidato seja apresentado pela sua raça,

          “branco” está incluído ou não? E se a cor da pele é um motivo para o voto então também pode ser um motivo para não votar, afinal como diz a sua lógica:

          ” essa identificação é relevante para muitas pessoas, sobretudo se essas pessoas sentirem que os candidatos “do costume” não as representam, nem nas políticas que defendem nem no percurso de vida que trazem. “

          Ou seja não parece percebe sequer que a lógica que defende reabre o poço dos motivos para o voto fora das ideias e baseadas no grupo.

          lucklucky

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *