Infecções


José Meireles Graça,

O 25 de Abril, sem guerra colonial, não teria tido lugar em 25 de Abril, e quantos anos ainda o regime duraria é anybody’s guess. A “revolução” foi um golpe de um exército cansado de uma guerra sem fim à vista, bem-sucedido porque ninguém estava disposto a defender um regime cujo prazo de validade já fora ultrapassado há muito.

A populaça aderiu em massa e, sem anticorpos contra a doença comunista porque esta fora severamente confinada pelo Estado Novo, houve um crescimento exponencial da infecção, que afectou quase 20% da população.

O agente patológico suscitou à época grandes aflições por se alojar no cérebro, causando danos comportamentais que se traduziam numa forte agressividade em relação a indivíduos sãos, particularmente se financeiramente confortáveis, mas em 25 de Novembro alguns facultativos encontraram tratamento para um dos sintomas, a componente agressiva, que foi erradicada.

Como acontece frequentemente, o vírus, a breve trecho descrito pela literatura da especialidade como o communis74, sofreu mutações: a principal, annacletus99, tem uma taxa de infecção que tem oscilado entre R0 e R1, o que ainda significou no ano transacto quase meio milhão de indivíduos de ambos os sexos, com prevalência em citadinos jovens portadores de acne.

O annacletus99 afecta as suas vítimas nas suas capacidades cognitivas, com manifestações reiteradas de delírios lógicos e recurso a efabulações, não é letal, não existe vacina e, podendo evoluir para uma condição crónica, apresenta todavia taxas de remissão consideráveis por razões que a ciência não pôde ainda apurar, que tendem a manifestar-se em pacientes que ultrapassam a fase juvenil. O sintoma da recuperação é, invariavelmente, uma profissão de fé obsessiva em doutrinas social-democratas.

Quer dizer que, não fora a excessiva contemporização com comportamentos disruptivos de uma sã ordem social, que os poderes públicos adoptaram na tentativa de estabelecer pontes com os afectados, conquistando-lhes a simpatia, e poder-se-ia dizer que se pode conviver, sem graves disrupções, com os vírus desta família.

Elementos da comunidade científica, porém, confessam-se apreensivos com uma possível nova mutação, denunciada pela reacção de vários responsáveis políticos à possibilidade de cidadãos seniores desafiarem as leis que esses responsáveis aprovaram, comemorando o golpe militar acima mencionado em plena Assembleia da República, e desfilando numa marcha tradicional do 1º de Maio numa avenida da capital, ao som de musiquetas anacrónicas e palavras de ordem roufenhas.

Com efeito, seria de esperar que semelhantes manifestações de um ostensivo comportamento antissocial fossem objecto da mesma repressão que encontrou a celebração da Páscoa ou as cerimónias de inumação de cadáveres, às quais familiares e amigos chegados dos falecidos são impedidos de comparecer. Mas não: uma jovem ministra fez a propósito declarações que indiciam sérias perturbações, insinuando que nos funerais as pessoas costumam manifestar o seu pesar com abraços e beijos, coisa que é insusceptível de acontecer debaixo do arvoredo da Avenida da Liberdade aquando da passeata; e, mais grave ainda, o próprio Governo abre uma excepção para o Dia do Trabalho, no artigo relativo ao dever geral de recolhimento constante da legislação pertinente.

De modo que se teme que uma parte da classe dirigente política, mormente a maior parte dos deputados, o Governo e até o senhor presidente da República, se encontrem em estado de grande desequilíbrio mental de origem viral.

Ora, semelhante hipótese não se reveste, no caso do senhor presidente, de perigosidade assinalável, visto que é improvável que a sua popularidade se veja afectada por quaisquer comportamentos menos próprios, como ficou demonstrado com a reacção pública ao hábito surpreendente de mudar de calções de banho em público.

Mas no caso do Governo alguns socialistas e social-democratas Riófilos meus amigos (dou-me com toda a espécie de gente) confessam, à boca pequena, a sua aflição.

Tenho procurado, sem grande sucesso, sossegá-los, dizendo-lhes que há males que vêm por bem: com 130 velhotes no palácio de S. Bento a ouvirem inanidades, e um número indeterminado de cidadãos a agitarem bandeiras e gritarem palavras de ordem na via pública, a mensagem é clara – esqueçam lá essa coisa do confinamento.

O novo vírus, como os anteriores, bem não faz. Mas a gente habitua-se.

18 comentários em “Infecções”

  1. Se os deputados e os cgtp se quiserem infectar todos uns aos outros, o problema é deles. São livres de o fazer. Só lá vai estar quem quiser. Não seria a primeira vez que se vê a AR com menos de metade dos deputados e às manifestações só se junta quem quer.

    1. No caso da assembleia tudo bem, eles que se amanhem lá no posto de trabalho deles, nobody gives a shit — mas no caso da manif já não é bem assim: não se pode proibir uns e cancelar outros e depois permitir sectariamente que alguns se juntem por motivos de regime ou de ideologia

      1. Nao me diga que esta é a única incoerência que encontra nesta associação dos antigos amigos de Sócrates. Eu já acho normal e escandalizo-me mais, ainda hoje, com os roubos e aparições de Tancos, com o fogo de Pedrogão grande, com o desvio dos fundos doados para ajudar os que ficaram sem familiares e sem bens, com a destruição dos serviços públicos através da redução de 12,5% do tempo de trabalho dos funcionários públicos ( as famosas 35 horas ), etc etc.

    2. Acha esse comportamento coerente? Há profissionais de saúde a privarem se de estar com as suas famílias e a exporem-se para tratar quem precisa, famílias que não estão juntas em prol de um bem maior que é a segurança de todos e depois autorizam-se manifestações???

      1. Nao, não acho esse comportamento coerente em relação a pessoas que são normalmente, como se espera, coerentes. Mas em gente que se comporta de forma frequente incoerentemente, esse comportamento é o expectável.

    3. No meu almoço de Páscoa ou no enterro da tiazinha, também só estaria quem quisesse…mas não pode estar ninguém!

  2. Aquela proposta do Churchill lusitano sobre a confinação dos idosos até ao final ao ano tem como objectivo:

    – poupar os militantes e simpatizantes do PSD à senilidade do seu líder socialista;

    – impedir que algum velhinho mais afoito chegue mesmo a vias de facto com Sir Churchill;

    – palco total para sua alteza Underpants Queen, recolhidos os cotas, com excepção tipo abrileira no dias das eleições.

    Há mais mundo para além das paredes da vossa casa. Vivam e respirem a vida.
    Sejam felizes!

    Smoreira

  3. Por sorte ou vontade divina o Santo Anacletus celebra-se a 26 de Abril e é natural que o bichinho não queira nada com santinhos como eu.
    https://www.britannica.com/biography/Saint-Anacletus

    Portanto, estarei a celebrar o Anacletus a 26 de Abril para não me esquecer que o 25 é passado.
    Um passado que veio confirmar como um bichinho é capaz de regular uma selva de reguladores e colocar uma infinidade de tantos outros confinados a uma paranóia e histeria a que tanto se habituaram.
    A peculiaridade do país Portugal é que uns assemelham-se a outros, neste caso governados e governantes, mas fazem tudo e dizem tudo para parecer muito diferentes.
    Neste sentido é muito natural que não se participe naqueles outros funerais, hoje símbolo de que se atingiu a plena liberdade que a muitos embaraça, pois no que se vive a participação e o luto é enorme. É hilariante fazer o luto dos zombies, os mortos vivos e escravos. Com a particularidade que a estes não convém abraçar, por infectados que se encontram.

    Felizmente não foi preciso gastar recursos para aprovar a eutanásia; ela ao invés de aprovada encontra-se provada.

  4. Muito bom dia.
    Aceite o meu cumprimento pelo seu texto, para mim interessante ao misturar, o que passamos, com a política nacional, e com um excepcional humor.
    Tenha um bom Domingo confinado que esteja.
    Aqui do meu cantinho tiro-lhe o chapéu.
    António Cabral

  5. What Do Countries with The Best Coronavirus Responses Have In Common? Women Leaders
    Looking for examples of true leadership in a crisis? From Iceland to Taiwan and from Germany to New Zealand, women are stepping up to show the world how to manage a messy patch for our human family. Add in Finland, Iceland and Denmark, and this pandemic is revealing that women have what it takes when the heat rises in our Houses of State. Many will say these are small countries, or islands, or other exceptions. But Germany is large and leading, and the UK is an island with very different outcomes. These leaders are gifting us an attractive alternative way of wielding power. What are they teaching us?

    Forbes, 13.04.20

    O jornal britânico The Times publica, este domingo, um extenso artigo, no qual acusa o governo liderado por Boris Johnson de ter ignorado uma série de avisos feito entre o final de janeiro e o início de fevereiro para a gravidade da pandemia que se avizinhava.
    Escreve a publicação que o primeiro-ministro do Reino Unido terá desperdiçado “cinco semanas fundamentais na luta para derrubar a perigosa ameaça do coronavírus, apesar de o país se encontrar num pobre estado de preparação para uma pandemia”.
    Um dos aspetos mais flagrantes desta alegada desvalorização da Covid-19 está relacionado com a não comparência de Boris Johnson num total de cinco reuniões de emergência convocadas pelo próprio gabinete para discutir eventuais medidas de prevenção.
    A propósito do duplo preconceito manifestado em relação a uma jovem ministra e também de infeções, infetados e afetados.

  6. Este escriptor é faccioso:
    nem «foi um golpe de um exército cansado de uma guerra sem fim à vista»,
    nem «a populaça aderiu em massa».

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