Passaram nove meses e o governo perde gás. O discurso permanece globalmente correcto e Passos incomensuravelmente mais suportável do que o flâneur aspirante a filósofo que nos conduziu à bancarrota. Mas surgem actos que lembram os métodos do referido indivíduo (anunciar de mansinho decisões polémicas nas vésperas da Páscoa? Really?) e, pior, as medidas fundamentais não aparecem ou aparecem diluídas. Algumas medidas foram tomadas sem perda de tempo. As que, podendo ser impopulares, dependiam de um pedaço de papel e não colocavam em risco modelos instalados. Por exemplo, a redução de salários na função pública, o aumento generalizado de taxas e impostos e o corte de feriados. Ou algumas que conseguiram aumentar ainda mais os constrangimentos do cidadão na sua relação com o Estado, como os mil e um comprovativos necessários para se receber apoio social ou – coisa menor mas reveladora – a obrigatoriedade de ter não só uma caixa de correio electrónico mas uma caixa de correio electrónico específica para lidar com as Finanças. Não me opus nem oponho a várias delas. Na situação em que nos encontrávamos (e, mais especificamente, em que o Estado se encontrava), eram inevitáveis. Com ou sem Troika, sendo que sem ela os cortes teriam sido muito superiores. A promessa, contudo, era de fazer mais – e, em vários casos, diferente. A promessa era de aumentar a liberdade dos cidadãos e de reduzir significativamente o peso do Estado na economia, de modo a não precisar de extrair dela tantos recursos. E esta é uma área onde os actos concretos demoram a surgir. Existem excepções, como a lei das rendas, que introduz ajustes moderados mas no sentido correcto, mas parece existir ainda mais inércia. Na Educação, se algumas alterações também são globalmente positivas, o modelo permanece inalterado, avesso à liberdade de escolha dos pais e à concorrência entre escolas. Na Economia, o Ministro, por vontade própria ou imposição superior, parece incapaz de renegociar os contratos das PPP e das compensações aos produtores de energia e, se fala amiúde na reforma das empresas públicas de transportes, pouco se sabe do que realmente lá se passa (excepto que – e até admito que seja bom sinal – ocorre pelo menos uma greve por mês). A Ministra da Justiça vai emitindo declarações interessantes sobre a reforma do sistema de Justiça mas, por enquanto, nenhuma alteração de fundo ocorreu. A RTP continua pública, a receber milhões de euros do contribuinte, e o modelo de privatização anunciado só não é ilógico se, mais do que poupar dinheiro, for intenção do governo manter acesso directo à (para não escrever «controlo sobre a») informação – caso em que será apenas errado. A reforma do poder local, que nunca foi particularmente ambiciosa, vem sofrendo diluições. O processo de fusão e extinção de institutos e outras entidades públicas de utilidade duvidosa gera inúmeras dúvidas, desde logo a de saber se está mesmo a ocorrer (exemplo: a Parpública era para extinguir mas parece que já não é). Para piorar as coisas, nas últimas semanas as excepções multiplicaram-se: os militares não vão ter a progressão de carreira congelada, há empresas em que os cortes salariais não se aplicam e certos gestores públicos podem afinal ganhar mais do que o Primeiro-Ministro (havendo ou não lógica em algumas excepções, elas revelam quem tem e quem não tem poder, para além de que muitas seriam desnecessárias ou melhor aceites se as empresas cujos trabalhadores – ou gestores – delas beneficiam já estivessem privatizadas ou perto disso).
Enfim, chega. É um lugar-comum: as reformas fazem-se nos primeiros tempos de mandato ou já não se fazem. Começa a parecer que muitas não se farão. Que o governo cai no erro de esperar que tudo acabe por correr bem sem ter de alterar os modelos instalados. Entretanto, os resultados da execução orçamental, não sendo catastróficos, são preocupantes. Pode acontecer que Passos Coelho e Vítor Gaspar tenham razão e novas medidas de austeridade se revelem desnecessárias. Mas, apesar dos sinais vindos da Troika de que o objectivo para o défice poderá ser revisto em alta (o que, constituindo um alívio, também significa que o Estado irá contrair mais dívida), tanto um como outro deviam evitar promessas – e os trabalhadores do sector privado começar a prever o cenário de também eles acabarem sem subsídio de Natal. Escrevi-o tantas vezes que já me enjoa fazê-lo: a curto prazo é inevitável que empobreçamos. Nem o meritório comportamento das exportações (ah, cambada de empresários inúteis) permite evitá-lo. Resta saber quando poderemos recomeçar a crescer e quão adaptado à realidade será o modelo de Estado existente nessa altura. Com pouco mais do que alterações cosméticas, dificilmente a recuperação será rápida ou o crescimento duradouro (que clamor pela reposição de tudo o que foi cortado – e por compensações pelo facto de o ter sido – se ouvirá logo que pareça haver dinheiro para tal). A tarefa deste governo era difícil, sem dúvida, e há pontos positivos a registar. Mas é necessário fazer mais. Infelizmente, tudo indica que as inércias, as incapacidades e os interesses permanecem demasiado fortes – e o Estado irreformável.

Este Governo é a continuidade de Sócrates.
Mais Impostos, Mais Estado, Mais Dívida.
Que a dívida pedida – ou seja continua a aumentar- seja menor é a única diferença e não especialmente relevante.
O caminho insustentável continua.
O caminho para destruir cada vez mais economia livre continua.
A força centrifuga para que quem quiser ter sucesso precisar de um padrinho político-jornalista aumenta a cada dia.
O caminho para ter o Estado em cada vez em mais lugares continua.
O caminho para termos cada vez mais Proibições continua.
O caminho para os Políticos-Jornalistas terem cada vez mais poder continua – mais pessoas dependentes.
O caminho para mais Leis continua. Depois serão usadas discricionáriamente contra quem incomoda o Poder.
O caminho para o Totalitarismo Democrático continua.
A Republica está morta.
Acho que já é óbvio que nada é para mudar.
O governo pretende uma continuidade governável. Vai tentar empobrecer a população o suficiente para tornar o sistema (imutável) sustentável (tem a vantagem de os pobres serem mais facilmente controláveis, embora, na verdade, não me pareça que isto faça parte da estratégia).
Os nossos políticos (todos os quadrantes), e provavelmente a generalidade dos políticos europeus, não concebem outro tipo de sistema.
Isto não vai acabar bem.
Existem excepções, como a lei das rendas, que introduz ajustes moderados mas no sentido correcto
Mas quais ajustes?
O único ajuste necessário seria dar aos senhorios a liberdade de ter ou não ter um inquilino.
E esse ajuste só será concedido, de acordo com a lei, daqui a cinco anos – e mesmo nesse caso, creio que continuará a não ser possível despejar inquilinos com mais de 65 anos de idade, ou seja, a maior parte deles.
Ou seja, essa lei é um completo aborto: não efetua mudança nenhuma, apenas promete a mudança para daqui a cinco anos.
Ora, daqui a cinco anos, o atual governo poderá já ter caído e o novo governo poderá já ter feito nova lei, que restaure a eternidade das rendas.
Admira-me como alguma gente, incluindo pelos vistos jaa, não se apercebe deste facto claro, que essa lei é um aborto, que apenas adia a solução do problema.
Luís: friamente, concordo consigo. Mas nesta fase cinco anos não me parece um prazo absurdo, considerando que estamos numa época de crise em que já existem problemas sociais com fartura. E, se bem me lembro, aos novos contratos a lei aplica-se imediatamente.
Mas é que se podia ter feito a reforma já, sem causar uma crise social demasiada, sem quaisquer complicações e dando aos senhorios a garantia de que o caso estava encaminhado.
Bastava ter feito uma lei assim. No próximo ano (em 2013) caducavam automaticamente todos os contratos de arrendamento assinados em 1994, 1993 e 1992. No ano seguinte (em 2014), caducavam os contratos assinados em 1991, 1990 e 1989. Em 2015, os assinados nos três anos anteriores. E assim por diante.
Dessa forma, o problema das rendas antigas acabaria no prazo de dez anos. Começaria com os arrendamentos mais recentes, que têm inquilinos (em princípio) mais novos. O mercado ficava imediatamente liberalizado para estes. Não haveria burocracia, negociações parvas como as previstas na lei Cristas, nada. Toda a gente saberia, claramente, que a partir de certa data o seu contrato caducava e tinha que ser feito um novo.
OK, parece-me bem.