A avaliação dos danos provocados pela acção do Governo no conforto dos portugueses é clara: vivemos pior com Passos Coelho do que vivíamos no tempo de Sócrates. No entanto, a opinião pública que urrava contra o filósofo do XVIème parece conformada com todos os dislates do fadista de Massamá. Porquê?
É fácil encontrar razões, mas só com optimismo podemos supor que estas expliquem alguma coisa.
1. Estado de graça: fraco argumento. O estado de graça devia ter acabado quando o Governo, contrariando as promessas, confiscou dois ordenados a um milhão e tal de portugueses.
2. O programa da troika: foi assinado pelo PS. Na altura, isso não convenceu ninguém de que estávamos no bom caminho.
3. A situação internacional: treta. Nos Estados Unidos, país de origem da crise financeira, a economia aguenta-se e o desemprego diminui.
4. O Governo domina a comunicação social para impôr a austeridade como inevitável: tardio. A austeridade era descrita como inevitável há dois anos, sem gerar simpatias. Além disso as incursões do PS nos media não resultaram, porque resultariam as do PSD?
5. Falta de oposição: não é uma causa, mas uma consequência. Se os eleitores estivessem insatisfeitos haveria oposição.
6. A pressão da Europa: mera táctica negocial. A crise do euro está a ser conduzida para servir a Alemanha. Um poder egoísta não cria adesões entre as vítimas.
7. Tom de comunicação: Passos é mais simpático que Sócrates. Pois. E Sócrates era mais determinado e mais esperto do que Passos Coelho. A súbita anomia dos portugueses é um grande mistério.

É pá, estou aqui há meia hora a tentar conter-me mas não consigo.
Viveríamos sempre pior.
Sócrates meteu-nos no buraco.
Passos está a tentar tirar-nos dele.
Bom regresso. Não precisas de agradecer.
Viveríamos sempre pior.
Sócrates meteu-nos no buraco.
Passos está a abrir um poço sem fundo.
Youre welcome.
Caramba, já concordamos duas vezes em três? Um de nós devia preocupar-se. Só não sei qual.
Mais a sério: até pode ser que sim. Mas a percepção (ainda) é de que está a tentar tirar-nos dele. E também acho que subestimas a importância do teu ponto 5. Decorreu muito pouco tempo para que um regresso do PS ao poder possa ser encarado de forma natural.
O nosso grande desacordo sempre foi estratégico, e em parte de diagnóstico. Eu sei que íamos empobrecer, e bem chateei os socialistas quando percebi isso. Mas podíamos empobrecer menos, sem fazer o que fazes:
1. interiorizar uma culpa colectiva — que não existe.
2. defender uma austeridade unilateral, que poderia ser matizada pelo norte da União.
3. Sugerir que não existia outro caminho, quando a situação americana demonstra o contrário
Repara que o facto de não ser fácil não é um bom motivo para abraçar como bom esta espécie de radicalismo que para aqui anda.
E quanto aos resultados, falam por si: a ministra assunção já deve estar a rezar o terço para que não venha uma espiral recessiva.
Se chegar, não foi por falta de avisos.
E nem falo das consequências sociais, claro: dizer a um português que vai empobrecer talvez justifique pensar um pouco mais do que dizer a mesma coisa a um italiano, não?
Digamos apenas que sem reconhecer erros é quase inevitável voltar a cometê-los (e mesmo assim…) e que desejar a solidariedade alheia é diferente de exigi-la – ainda por cima, nos termos que se consideram mais agradáveis.
Que é para não recorrer ao Dirty Harry e declarar que a nossa propensão para o descontrolo orçamental é a doença e que Frau Merkel é a cura…
(Sendo Obama o paliativo, suponho – estou a inventar à medida que escrevo.)
Quase todos os portugueses têm uma dívida ao banco. Quase todos se interrogam se essa decisão foi uma boa ideia.
Quase todos interiorizaram que essa decisão foi individual e livre.
E assumem uma culpa que a todos os outros desculpa (banqueiros, políticos, conjuntura internacional, dinâmica do Euro etc).
A culpa? Pois, ela anda por aí.
Talvez não tenha deixado claro que não considero a culpa uma realidade, mas sim algo que foi lhes impingido e que os portugueses em larga medida compraram.
Eu percebi.
Caro Luís M. Jorge,
A anomia será um grande mistério?
Talvez.
Mas a teoria da cenoura e do pau funciona.
Primeiro foi dar com o pau com toda a força e o pessoal assustou-se e ficou tolhido.
Se a isto somarmos que durante quase 6 anos toda a espécie de indignados, com os sindicatos à cabeça, esgotaram as pessoas em lutas “menores”…
talvez se compreenda a anomia.
Cumprimentos
Talvez.
Um pais pequeno como o nosso, periferico e entalado entre a Espanha e o mar, não podia resistir muito tempo a gastar mais do que aquilo que produz. Andamos nesta vida dezenas de anos, recebemos enormes ajudas financeiras que em muitos casos gastàmos mal, e deixàmos este pobre país, o estado e as pessoas, serem canibalizados por meia duzia de grandes empresas e pelos bancos, e p. ex. os combustiveis e a energia são-nos fornecidos por monopolios, ou pior ainda, por autenticos carteis.
Por outro lado, os verdadeiros criadores de emprego e de riqueza colectiva, os pequenos e medios empresarios, sempre estiveram de fora do repasto geral, foram tratados como parasitas, e sugados até ao tutano por um estado que nunca está saciado e não hesita em ir ao patrimonio pessoal de quem passou anos e anos a raspar no restolho para ver se conseguia ter uma vida melhor.
Foram as PME que recuperaram o país em 78 e 85, apesar da banca nacionalizada e dos juros proibitivos que então se pagavam e à cabeça; só que esses fartaram-se, e agora não há quem queira investir um centimo para criar postos de trabalho, e ajudar a resolver o problema mais complicado que temos pela frente: o desemprego.
Por isso meu caro, e com todo o respeito, os seus sete pontos não passam de estados de alma que não nos levam a lado nenhum, e a “determinação” e a “esperteza” (saloia) do Socrates, veja lá onde nos trouxe.
É isso.
Pois é, Luís Jorge, o facto é que Portugal não é a América e, depois, foi o aldrabão do Sócrates que, por irresponsabilidade e incompetência, dolosamente levou o país à bancarrota, e não o Passos, que, coitado, apenas está a tentar que os ‘mercados’ não nos fechem definitivamente a porta.
E pergunto: com o ratting de Portugal ao nível de ‘lixo’, por obra e graça do aldrabão Sócrates, onde iria o Senhor buscar massa para pagar salários e pensões, por exemplo?
vivemos pior com Passos Coelho do que vivíamos no tempo de Sócrates
Speak for yourself? You were doing great? Poor, poor!
A palavra inevitabilidade diz-te alguma coisa? Porque não vejo bem como poderia haver outro caminho, depois da alegre grande bouffe do filósofo.
Se a coisa está a ser feita equitativamente e com respeito pelas pessoas, isso já é outra conversa. Não está. Mas estaria melhor nesse sentido, se fossem os socialistas a fazê-la? A resposta é óbvia, não levas um automóvel se acertares.
Ana, fazer as coisas equitativamente e com respeito pelas pessoas seria, obviamente, um outro caminho. Dos quatro países com planos de resgate, Portugal foi aquele em que os mais pobres pagaram mais. Inevitável? Nada disso.
Bem, mas o memorando foi assinado pelos socialistas…
E, além do mais, quando se negoceia in extremis perde-se o poder…
Auch! não vê como poderia haver outro caminho, mas outra conversa é saber se está a ser feito com respeito pelas pessoas, coisa que diz que não está? Isso é um spin que deve dar tonturas ;. Como é que consegue?
Com um bocadinho mais de elasticidade mental do que aquela que você usa. Nunca ouviu falar de forma e conteúdo?
Scria…quê? O que me dá tonturas são esses rodeios arrevesados ao anonimato, só para dizer uma graçola.
Uma família vive anos a gastar 30% acima dos seus rendimentos. É uma falta de respeito por ela mesma e pelos outros a quem retira recursos, mas parece que aí não se põe a questão do “respeito”. Nessa fase impera a omertá…