
Há meses, publiquei aqui um texto sobre a minha experiência com a Ebike, ressalvando que tinha conhecimento de que uma bateria de lítio implica trabalho em condições de escravidão e não está livre de emissões de CO2, tanto na fabricação, como nos carregamentos. Acrescentava, no entanto, que, neste nosso mundo globalizado, é praticamente impossível evitar esses dois factores, sendo, para mim, importante tentar poluir o menos possível.
Em resposta a um qualquer comentário, eu perguntava-me se a indústria petrolífera implicaria trabalho infantil e/ou escravo. O comentador André Miguel respondeu categoricamente que não, acrescentando que este tipo de indústria pouco poluía. Disse ser das indústrias «mais avançadas tecnologicamente, das mais seguras, exigentes e menos poluentes (o que polui é o uso dos produtos extraídos, não a extracção em si)».
Não tendo conhecimento de causa, calei-me. E esqueci. Mas, pelos vistos, isto ficou-me guardado num qualquer canto do cérebro, pois, ao ler uma certa passagem deste livro, vencedor do Man Booker Prize 2019, lembrei-me, de repente, das afirmações desse comentador.

Passo a citar, das páginas 171 a 173:
«Ela própria ainda se lembra de como a sua mamacinho a levou de Opolo, no delta do rio Níger
foi depois de Moses, o seu papá, morrer numa explosão quando estava a refinar crude
fervia os barris ali nos pântanos, tudo muito malfeito, os barris todos muito colados uns aos outros e destapados e a chama logo ali
todo aquele crude tão próximo do fogo era perigoso
e todos eles estavam cientes disso, mas de que outra forma podiam sobreviver naquele lugar desolado onde as petrolíferas procuram petróleo a milhares de metros de profundidade com as suas sondas, para depois o sugarem com as suas gigantescas torres de extracção, enchendo milhões e milhões de barris para fornecerem o precioso combustível ao resto do planeta
enquanto o lugar onde nasce esse mesmo combustível vai apodrecendo
(…)
fugiram das refinarias e das chamas alaranjadas do gás que ardiam 24 horas por dia, e fizeram centenas de quilómetros a pé pelo matagal húmido
fugiram dos gases tóxicos que envenenavam o ar, havia que respirar com cuidado, porque encher os pulmões era morrer aos poucos
fugiram das chuvas ácidas que tornavam a água imbebível
fugiram dos derrames de petróleo que envenenavam as colheitas, da pescaria doente nas enseadas de águas pastosas, dos cestos que emergiam das águas com o peixe envolto numa gelatina escura e pegajosa
caranguejo, lavagante, lagosta – tudo morre
peixe-espada, bagre, corvina – tudo morre
barracuda, sável, pampo – tudo morre»

Cristina,
O comentador tem razão. Toda a indústria extractiva tem de obedecer a rigorosas normas de segurança e funcionamento
Cingindo-me ao extracto do texto. Suponho que a descrição se passa na Nigéria (o maior produtor de África), por referir o Níger (rio). Os pipeline são seguros, devidamente afastados dos centros populacionais, referenciados, isolados e vedados. O que acontece é que a população rompe/corta as barreiras de segurança/protecção, para chegar ao produto.
João Moreira
Sim, é na Nigéria.
E a população faz isso, porquê? Porque vive na miséria, para que nós possamos andar nos nossos popós atestados.
Como diz o papa Francisco na sua encíclica:
«Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma selecção que favorece a um sector humano digno de viver sem limites».
E a população faz isso, porquê? Porque vive na miséria, para que nós possamos andar nos nossos popós atestados.
Isto é o tipo de lógica que cria os equívocos nas cabeças das Gretas..
Ponto número 1. Ninguém lhes pediu para nascer. A culpa é dos pais que fizeram mais filhos do aqueles que conseguem alimentar. Eu nunca tive filhos, nunca tive dinheiro para isso.
Ponto número 2. Podiam trabalhar noutra coisa. A Nigéria não é só petróleo.
Ponto número 3. O trabalho operário é mal pago lá? Bem, a culpa é dos chefes deles, não me parece que seja de quem põe gasolina no pópó para ir dar um passeio à Amadora para ir comer chamuças na loja do indiano.
Se o trabalho fosse bem pago lá, nenhum lisboeta se podia dar ao luxo de ir comer chamuças à Amadora.
E a você? Alguém lhe pediu para nascer?
não pediram nada — fui obrigado. Uma violência. E ninguém me defende.
Não sei se está a brincar.
Se está a falar a sério, gostei deste seu comentário.
Foi a sério 🙂
Mostrou-se muito humano. Foi por isso que me agradou.
Verdade, em 2010 foi levantado um processo contra a Shell pela queima de gás natural na região de Epolo-Ebie, sem cumprir com as normas de segurança e com graves consequências para o ambiente.
Se ainda se mantém, desconheço, e faço o mea-culpa reconhecendo o erro. Obrigado pela divulgação deste testemunho.
De nada.
Obrigada eu por este seu comentário.
Permita-me deixar o meu aplauso pelo seu comentário. Reconhecer um erro (mesmo que o erro seja apenas marginal) é excessivamente raro (aei que eu o faço demasiado pouco), especialmente em redes sociais. Aos meus olhos, isso só lhe dá mais mérito aos seus comentários, porque não são gratuitos e demonstra que têm reflexão por trás.
Obrigado.
Cristina, tenho algum conhecimento pessoal de refinarias (não muito, podem-se encher muitos volumes com o que eu desconheço) e posso deixar alguns pontos.
O comentário está correcto quando falamos em uma das indústrias «mais avançadas tecnologicamente, das mais seguras, exigentes». Poluentes é mais relativo.
As refinarias estão altamente integradas tecnologicamente e há hoje em dia pouco que se possa fazer para as tornar mais eficientes. É uma das razões para o problema dos plásticos: os monómeros (que são os “tijolos” usados para fazer os polímeros que são os plásticos) são essencialmente um subproduto das refinarias. Sem plástico estes poderiam ser resíduos, lixo. Bem como outros produtos da refinaria.
Além disso, apesar de tecnicamente ser necessário usar uma boa dose de energia (em calor e pressão) para o processo, muita desta energia pode ser recuperada, o que de facto faz com que as emissões sejam reduzidas.
Há no entanto outras formas de poluição, como as descargas em rios. Todos estes efluentes podem ser tratados e até produzir energia por si mesmos.
O problema é diferente: serão todas as refinarias eficientes? A resposta é simples: NÃO. Em alguns casos porque as autoridades serão corruptas ou não terão interesse e não implementam os regulamentos ambientais (ou de segurança ou outros) – será o caso na Nigéria. Noutros casos porque quando se constrói a refinaria, por vezes as empresas têm problemas de liquidez e reduzem os gastos, seguindo por atalhos e dispensando os equipamentos não fundamentais para o funcionamento da fábrica. Noutros casos ainda há o problema da manutenção das refinarias: às vezes são velhas e eram menos eficiente e noutros a manutenção não recebe recursos suficientes (isto é muito comum) o que faz com que a refinaria, quando foi construída era “state of the art”, se deteriore muito rapidamente. Por último temos as situações em que as pessoas, elas próprias, não são competentes para o trabalho.
Resumo: podem as refinarias ser eficientes e poluir (relativamente) pouco? Claro. Mas o mesmo pode ser dito de quase qualquer indústria. As empresas mineiras podem tratar dos efluentes, as tecnologias são conhecidas e não são complicadas, mas isso reduz as margens de lucro e onde as empresas podem, seguem por atalhos. As refinarias fazem por vezes o mesmo.
o problema dos plásticos: os monómeros são essencialmente um subproduto das refinarias
Quer Você dizer que, se não consumíssemos plásticos – ou se reduzíssemos o seu consumo – isso não faria diminuir a poluição, dado que então o subproduto ficaria inutilizado?
Não exactamente. Os plásticos (como matéria prima) são um material essencialmente “à borla” porque os monomeros seriam produzidos na mesma. Se reduzíssemos o consumo de plásticos, o mais provável é que as empresas encontrassem novos usos ou passássemos a ter mais poluição das refinarias (se não dessem vazão aos monómeros). Pelo menos é assim que interpreto esta questão.
João André, desculpe este seu comentário ter saído repetidas vezes (embora, da primeira, ele não esteja completo). Havia a possibilidade de eu ter evitado isto, sim, mas fui aprovando os comentários por ordem e só me apercebia depois que vinha repetição. E, uma vez aprovados, já não se podem apagar.
Acho que dá, mas não me faz diferença de uma forma ou outra…
Descobri
O meu comentário-resposta lá em cima é que ficou deslocado
Cristina, acho que tenho o comentário duas vezes de forma anónima (num caso de forma incompleta). Podes apagar, se te apetecer
Oh, que confusão, só agora li este.

Para a próxima vou tentar ser mais atenta.
Desconheço se há muitos na geração da Greta Thunberg, dispostos a segui-la nos sacrifícios que ela defende no seu discurso (é que uma coisa é segui-la nos protestos, a outra é…), sei sim que na maioria dos “adultos” não há qualquer disponibilidade para a seguir no seu “radicalismo”: V. passou a usar a Ebike, eu passei a ir às compras com duas mochilas… porque, como V. realça, o «importante (é) tentar poluir o menos possível» ou seja, contribuir com uma lata de 12 salsichas para o Banco Alimentar (no meu caso) a pensar nos “famélicos da terra” (desconfio que V., tal como eu, até sofreu daquela aberrante tentativa de a obrigarem a sentir remorsos por não ter comido tudo o que de excessivamente abundante lhe colocavam no prato, quando até, algures, “na” África havia criancinhas a morrer de fome?!?).
Eu, de uma coisa, até Janeiro deste ano, tinha como certeza absoluta: as cada vez mais agressivas manifestações de rebeldia da natureza acabariam por sofrer a eterna punição por tentarem enfrentar a superioridade intelectual dos humanos! Hoje, li algures que, talvez no Inverno de 2021, possivelmente voltaremos à normalidade… ou seja, um “bicharoco”, “invisível”, conseguiu roubar quase 2 anos da nossa superior normalidade.
O meu filho português e a sua companheira, decidiram não procriar mas, infelizmente, tenho duas netas tailandesas, uma com 7 anos, a outra com 3… e, por elas, não deixo de conseguir pensar o quanto egoísta continuo a ser… mas como é que até poderei regressar todos os anos ao local de que dependo, sem utilizar o maldito avião?
PS. Sobre as tais “condições de escravidão”, o que eu acho surpreendente, é que, aos habituais ingénuos reveladores dessa nefasta realidade se juntaram um crescente número de outros que insistem que a degradação de parte do Ocidente, tem a ver com eles, com os tais “escravos”: na verdade, eles passaram a um estatuto social superior ao se tornarem em “escravos”… mas sejamos sinceros, a verdadeira questão nem está se eles passaram, ou não, a ser “escravos” mas na questão de que os “nossos” desempregados deixaram de ser “escravos”…
Por acaso, também já fiz muitas compras de mochila 😉
Gostaria de esclarecer uma coisa: eu não passei a usar a eBike para ir às compras por causa da Greta. Antes da eBike, eu usava uma bicicleta normal. Mas cada vez me custava mais fazer certos percursos com declives (é a idade) e, por isso, optei pela versão eléctrica (felizmente, tive dinheiro para a comprar).
A minha forma de viver, tentando preservar o ambiente, não começou com a Greta. Há quase trinta anos que o faço. Há quem diga que não adianta nada. Eu acho que adianta. Se não houvesse já muita gente a rejeitar certos comportamentos supérfluos, estaríamos muito pior.
Embora eu já fosse «ambientalista» antes da Greta nascer, penso que o seu activismo é importante, porque despertou muita gente para os problemas ambientais. Mesmo que muitos dos seus “seguidores” não pratiquem as suas sugestões, é importante que se fale no problema. Ninguém tem de ser radical como ela poderá eventualmente ser. O importante é que muitos tomem consciência de que o problema existe. E isso ela conseguiu.
Um grande aplauso para esse último parágrafo sobre Greta Thunberg (merece que deixemos de a tratar como “a Greta”, como se fosse a garota mal comportada do 3º frente que conhecemos há 12 anos, não?). Está lá tudo o que se deve ter em conta sobre ela.
Já agora, sobre o radicalismo ambiental. É engraçado que muita gente defenda que a tecnologia nos salvará (como nos salvou no passado) quando alguém invoca o fantasma de Malthus, mas as mesma pessoas começam a zombar das privações que teriamos se seguíssemos todas as recomendações de GT. A verdade é que a tecnologia já nos soube trazer energias alternativas ao preço das poluentes mais baratas. Deverá conseguir fazer o mesmo para outros bens.
Tens toda a razão, devemos tratá-la por Greta Thunberg.

«eu não passei a usar a eBike para ir às compras por causa da Greta.»
Cristina Torrão, se foi essa a ideia que lhe transmiti com o meu comentário, confesso que falhei por completo no meu propósito. É que também eu, quando «passei a ir às compras com duas mochilas» não o fiz por causa da Greta… mas, para lhe ser sincero, até era precisamente esse o meu ponto: o que pretendi foi tentar traduzir a ideia de que a sua (e a minha!) «forma de viver, tentando preservar o ambiente» é, no meu entender, de algum modo, como que «contribuir com uma lata de 12 salsichas para o Banco Alimentar (no meu caso) a pensar nos “famélicos da terra”».
E não, nem passou pela cabeça exigir mais da sua parte já que não consigo exigir mais a mim próprio (ou como até escrevi no meu comentário: «mas como é que até poderei regressar todos os anos ao local de que dependo, sem utilizar o maldito avião?»)
Em tempos (1976/79), em Luanda, fui alcunhado, pelos meus amigos mais chegados, de “joca cavernoso” porque insistia na ideia de que a “revolução” angolana, por até estar no seu início, deveria ter em conta os estragos ambientais que a industrialização capitalista até tinha provocado no resto do planeta… sim, éramos todos marxistas-leninistas e, por isso, eles estavam convencidos de que o Homem tinha nascido para moldar a Natureza exclusivamente às suas necessidades/vontades; eu era a única voz dissonante, o “cavernoso”. Para eles, a Greta seria também outra “cavernosa”.
O que tentei foi levantar a questão essencial que a Greta tem levantado: quantos de nós (eu, V. ou o João André – e já nem falo dos “outros”…) estamos dispostos a entender a urgência (o radicalismo) da sua mensagem? E porquê? Porque não percebemos a tal urgência? Ou porque essa urgência exige muito de nós? Que Terra deixaremos aos nossos netos?
Não fazia mesmo mal nenhum que mais pessoas pensassem nisso.

A minha vida profissional passou-se na refinação de petróleos. Assim não abordo a poluição ocorrido na extração e transporte do petróleo bruto, onde ocorre muito incumprimento de normas internacionais (ex: descarga em alto mar(proibida) dos produtos resultantes da limpeza dos tanques dos navios durante a viagem de retorno ao carregamento).
Na refinação a poluição é essencialmente atmosférica pois é elevado o consumo de combustível (energia) por unidade de produto final destilado e tratado. Há também a contaminação dos solos e do meio ambiente com os efluentes sólidos líquidos e gasosos que resultam do processo e que escapam à capacidade de tratamento eficaz instalada.
Há todo um desperdício elevado em equipamento indevidamente dimensionado, em quantidade e/ou qualidade, ou mantido.
Há um indesculpável descuido em manter o processo da produção no seu ponto de melhor rendimento.
Ocorre demasiado a aplicação do Princípio de Peter aos ocupantes de cargos de decisão, o que faz com que muitas ineficiências ocorram ou se perpetuem por simples incompetência ou inação. (o que ocorre em todas as instituições e empresas, sendo o exemplo mais recente e repugnante o caso da morte do imigrante ucraniano às mãos do SEF no Aeroporto de Lisboa, de que a Diretora do SEF despudoradamente se descartou).
A Greta Thunberg é um grito de revolta que me enche a alma. Obrigado Deus por no-la teres dado assim!
Obrigada pelo seu testemunho.
Os opositores à protecção do ambiente alardeiam que, se formos ecológicos, a economia soçobrará, o desemprego grassará, temos de dizer adeus às nossas comodidades e aos nossos confortos, etc., etc. Nada mais demagógico! O seu comentário confirma que se pode investir numa indústria sustentável. E mais justa, mais humana. É só preciso mais empenho, menos negligência, pensar mais nas pessoas do que no dinheiro.
Um colega de blogue diz, num post lá mais para cima, que, quando as energias renováveis forem necessárias, elas surgirão. Mas que raio quer ele dizer com isto? Quando pessoas como ele derem o braço a torcer, admitindo a necessidade delas, será tarde demais. Amanhã é tarde demais.
É triste, muito triste.
Correcção: a frase “se e quando forem necessárias [as energias renováveis] o mercado inventa-as” encontra-se num outro texto, a que o autor faz referência (com link), no post referenciado.