Indignação e revolta


Pedro Correia,

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Num aeroporto chamado Humberto Delgado, assassinado por esbirros da polícia política de outrora, verdugos contemporâneos seviciaram e sovaram até à morte um homem chamado Ihor Homeniuk. Condenado a pena capital extrajudicial, em instalações do Estado português, pelo “crime” de querer entrar em Portugal. Precisamente num país que ainda se orgulha de ter sido um dos primeiros no mundo a abolir a pena de morte.

Indigna e revolta saber que nesse aeroporto com o nome do general sem medo existe uma alcateia à solta. E também um bando de hienas a proteger as bestas – umas e outras pagas por todos nós. Perante o inaceitável silêncio do Presidente da República, que se apressou a verter uma mensagem de condolências na sua página oficial à família de uma jovem falecida num desastre rodoviário enquanto ignorou durante nove meses a viúva e os filhos de Ihor Homeniuk.

Mas também indigna e revolta o tratamento post mortem atribuído ao assassinado pelo fluxo mediático dominante, que foi assobiando para o lado enquanto pôde. Com milhares de horas de emissão televisiva dedicadas a um putativo “reforço do Benfica” e silenciamento total do homicídio no aeroporto. Ihor Homeniuk é nome que a Wikipédia omite e os motores de busca na ocidental praia ignoram: um tal Cavani foi o mais procurado no Google pelos portugueses ao longo deste ano de pesadelo, o que diz quase tudo sobre a sociedade que temos.

Também indigna e revolta a hipocrisia cada vez mais selectiva das indignações em voga, à mercê não de louváveis impulsos humanitários mas de cartilhas ideológicas, discriminando vítimas em função de etnias, cor de pele e proveniência geográfica. Como se uns cadáveres fossem “mais iguais” que outros.

52 comentários em “Indignação e revolta”

  1. Concordo consigo, Pedro… Se recebe tantas ofensas como eu sempre que toca nestes temas… É também um herói :-)))))

    E até lhe acrescento o PSP recentemente assassinado que também é cidadão de segunda. A instituição deu um belo exemplo de como se honram os heróis, perante a total ausência da classe política que está onde estiverem as câmeras de filmar.

    1. Já estou habituado, meu caro. Tenho a pele muito dura.
      É repugnante saber-se que existem uns cadáveres “mais iguais” que outros. E que as “vagas de indignação” são cada vez mais selectivas.

      1. Aquele Cabo Verdiano que salvou o velhote branco de morrer afogado no cais das colunas nem um elogio público teve do Mamadou Ba.

        Porque será !?

        1. Porquê?! Não é óbvio? Porque salvar não entra na conversa do matar!

          O Mamadou não quer paz social quer conflito social — e um conflito específico, os conflitos equivalentes também já não lhe servem. Se não como é que mantinha o emprego?

          Há um equívoco enorme, que vem do equívoco sobre a “verdade” — ou achas que estes episódios provam alguma coisa sobre a natureza humana ou a natureza dos pretos e a natureza dos brancos? Isso seria verdadeiramente imbecil. É o efeito jornalístico que cria falsas “totalidades” a partir de partículas minúsculas da realidade.

  2. Não foi somente o Presidente da República quem “ignorou durante nove meses” a morte de Homeniuk. A generalidade da classe política também “ignorou durante nove meses” esse acontecimento. A generalidade da classe jornalística também “ignorou durante nove meses” essa vergonha. A generalidade da população também “ignorou durante nove meses”.

    Somente agora, sabe-se lá porquê, nove meses transcorridos, é que anda por aí muita gente a arrancar as vestes. Gente que “ignorou durante nove meses”. Cabe perguntar porque é que demoraram nove meses a prestar atenção ao assunto.

    1. Se a generalidade dos meios de comunicação ignorou durante nove meses este caso, como queria você que a população se indignasse e revoltasse?
      Diferente é a responsabilidade do Presidente da República, que manifestou pesar pelo falecimento do Prince e do David Bowie e do George Michael e desta jovem há dias morta num desastre rodoviário, e se calou durante todo este tempo perante este crime cobarde e repugnante.
      Ele sabia, não podia ignorar.

      1. “Diferente é a responsabilidade do Presidente da República, que manifestou pesar pelo falecimento do Prince e do David Bowie e do George Michael e desta jovem há dias morta num desastre rodoviário, e se calou durante todo este tempo perante este crime cobarde e repugnante. Ele sabia, não podia ignorar.” – Este trecho não pode ficar aqui, na esconsa caixa de comentários …

        Eu insisto no que também já escrevi: todos nos calámos. Mas uns calaram-se mais do que outros. E Sousa, vera “picareta falante”, calou-se muito mais do que todos nós.

    2. “Cabe perguntar porque é que demoraram nove meses a prestar atenção ao assunto.”

      Essa é também uma das minhas questões, porque é que de repente este caso apareceu depois de tanto esforço em fazê-lo passar despercebido.

      1. Também já me fiz essa pergunta e a única resposta que encontro é o facto de só agora ter saído a acusação.
        Nunca fui apologista de julgamentos públicos. Os julgamentos são para serem feitos nos tribunais, quanto mais não seja porque o julgamento público pode influenciar os agentes da justiça, que terão a responsabilidade de julgar este caso.
        Não há muito tempo, neste mesmo blog, muita gente se insurgia com os julgamentos públicos de casos mediáticos, que surgiram na nossa praça. E não há casos diferentes. O que vale para uns, vale para todos.
        A presunção de inocência ainda é um direito do cidadão e até ser considerado e julgado culpado, é inocente.
        Outra coisa é a questão dos chamados processos disciplinares. Qualquer órgão do estado tem uma entidade que se dedica a isto. Normalmente as chamadas inspeções gerais.
        Ora estas inspeções invocam a si uma autoridade e um conhecimento, que não têm.
        Fazem o papel de inquisidor, juiz e carrasco e invariavelmente, fazem asneira.
        São dezenas de processos disciplinares que resultam em expulsões de órgãos públicos, que depois têm de ser revogadas, porque em sede julgamento, que é o local onde todos devemos e temos o direito de ser julgados, os arguidos são absolvidos, ou noutros casos, até são culpados, mas as penas atribuídas e o grau de culpa, não prevê a expulsão. Depois lá vai o estado readmitir o funcionário, pagando-lhe a devida indemnização.
        São dezenas de casos, nomeadamente no ensino e nas forças de segurança.
        E porque é que isto acontece? Porque a soberba de certa gente, que acha ser dotada da mais absoluta autoridade dada pelo estado, se arroga desse direito de julgar.
        Claro que em nada ajuda a morosidade da justiça. E o estado, incapaz de resolver esse problema, coloca nas mãos de pessoas não qualificadas, a qualidade de vida de outras.
        É que um processo disciplinar é fácil de fazer. Ouvem-se umas testemunhas, reúnem-se alguns documentos e quando o arguido é chamado, a decisão está tomada. Por alguém que não tem qualquer capacidade, ou conhecimentos e formação para o fazer. Mas faz. E o estado permite. E depois, lá tem de limpar a porcaria que fez. E tudo isto, sem consequências.
        Desconfio que este vai ser um desses casos. Vão ser abertos processos disciplinares a vários funcionários do SEF, que vão acabar expulsos e depois, daqui a anos, quando forem julgados, vai o estado ser obrigado a readmitir alguns, pagando-lhes o que lhes é devido.

  3. É NATAL
    Compra de silêncio ensurdecedor?
    O papagaio desasado, depois de lhe caçarem mentiras a roçar o abjeto , é obrigatório que venha a terreiro mostrar o bico esfacelado, para confirmar ou desmentir os casos avançados nos sítios que alarvemente frequenta.
    O poligrafo ainda quente, dará andamento a esse registo, que se espera desmascare de vez a pantomina comicieira com que um senhor cantigas se alimenta.
    A baixeza desta alta figura. ao afirmar que nunca fala em casos em andamento na justiça, a propósito do seu alheamento do alegado assassinato do cidadão Ucraniano nas suas barbas, foi detalhadamente demonstrada, nomeadamente nos casos dos incêndios em Pedrogão, no acidente de Borba como na montagem circense de Tancos,
    É forçoso que tudo seja desmentido ou desmascarado com o devido eco, em vez de fazer pairar um silêncio sepulcral a cobrir o pano de nódoa tão contaminada.
    Nota breve:
    Se este meu escrito não couber neste tema, ou se de qualquer modo deturpei o que vi e ouvi em mais que um canal TV, apresento desde já o meu pedido de desculpas.

  4. Há muito que sou selectivo nas informações. A internet permiti-me esta selecção.
    Porém não posso ser selectivo com a classe política que se impõe por compadrio nas mais diversas esferas da vida social e económica, em resumo, na polis.
    Também não posso ser selectivo com população que revela sua misérias nas mais diversas actividades públicas e privadas, institucionais e individuais com que me vejo na obrigação diária de ter que lidar.
    Por isto a minha capacidade de indignação sai cada dia mais reforçada e as minhas energias físicas e psíquicas mais treinadas para poder enfrentar uma nação de merda e uma Europa de caca.
    Tive conhecimento do assassinato de Ihor e da dor de sua família pelo JPT (jpt). E tudo o que vou lendo sobre o que não foi feito em torno desta matéria, bem como de outras, serve para confirmar o que aqui acabo de verter.

  5. A RTP é capaz de me informar se cronometrou o tempo que o vosso entrevistador falou durante a entrevista desta noite, bem como o tempo que deixou ao entrevistado para este falar?
    E ainda se contabilizaram o numero de segundos em que o candidato a PR André Ventura conseguiu falar sem que fosse interrompido?
    Fico curioso em vir a saber se o mesmo tom de furiosas rajadas vai ser adotado com o candidato Marcelo de Sousa.
    Sem outros comentários por agora, aguardo por resposta esclarecedora
    Muito obrigado,
    Aarão Marques

    1. Mais uma vez o perucas gesticulador teve as perguntas que queria para vender o calcitrim, mesmo interrompido, como o da entrevista anterior, deu para apresentar mais uma novidade: afinal não será bem assim, a demissão se ficar atrás da pomada prós calos por agora ver que a mrppiante pomada ser tão mazinha.

      1. O que é que essa guerrilha ideológica tem a ver com o tema que eu aqui trouxe?
        As tricas políticas para vocês vale mais do que a perda de uma vida humana nas circunstâncias em que ocorreu?

  6. À classe política não interessa muito mexer neste caso. Nem sequer aos contestatários. O deputado Glorioso pela Justiça não tem grande base de apoio na causa imigrante, o Bloco é mais minorias, o PCP é um Partido pelas forças da ordem (algo de que nos vamos esquecendo de modo conveniente), e o PSD, bem, o PSD também por lá andou, e anda.
    A comunicação social está bem amestrada. Se o jornalismo de investigação já era difícil, quanto mais com as redacções confinadas.
    A sociedade civil. Bem, essa tem as suas causas próprias. O Zico, o rapaz que foi baleado pelo velho racista, o Charlie Hebdo, tudo dentro de uma óptica de nicho de mercado. Infelizmente, o share para ucranianos é residual.

  7. Um dos indicadores de uma boa sociedade é a forma como trata os mais desfavorecidos, aqueles que vivem na fronteira da existência. Este caso trágico não resulta de um vírus, de uma catástrofe natural ou de um acidente. É resultado da ignorância, da estupidez, da indiferença pelos direitos humanos, de rancores racistas e discernimentos medíocres. Em suma, é produto de homens e de instituições de um país, o nosso, que continua a ver pessoas como rótulos. E, como sabemos, é muito fácil desprezar e sentir indiferença por rótulos. E depois vem o esquecimento, que «transforma todas as ocorrência em não-ocorrências», como diz Plutarco. Hipoteca-se valores, distorce-se factos, assobia-se para o lado, para salvaguardar estatutos e poderes. Em suma, para continuar a rastejar até à fila da frente.

  8. Concordo plenamente com o seu post. Lembro-me que quando ouvi a notícia pela primeira vez nem queria acreditar. Sei que o SEF é abusivo e insensível aos problemas dos estrangeiros a viver em Portugal ( nos serviços às vezes não há ninguém que fale inglês ou francês). Mas isto é homicídio. É outro nível. Na altura só se falava de Covid. E durante imenso tempo não houve mais sobre o assunto. Os políticos acharam que passavam entre os pingos da chuva. O presidente não tem desculpa. Mas a verdade é que nada se pode esperar deste presidente…

  9. Este caso só pode ter um desfecho, demissão do ministro e toda a linha hierárquica responsável pelo acontecimento.
    A divulgação pública desta consequência eliminará qualquer dúvida acerca da intenção do governo de punir qualquer acto de barbárie cometido no seio das suas instituições.
    Se isso não for feito, duvido que o organismo consiga a credibilidade necessária para funcionar sem utilizar métodos repressivos.

          1. Se houvesse tinhas que levar muitas doses. 8 artigos sobre Homeniuk, 1200 sobre futebol, 200 sobre Direitos Humanos.

          2. Quando me escassear a inspiração e tiver falta de assunto, vou-te bater à porta, no Instituto Nacional de Estatística, a ver se me dás umas dicas.
            A menos que estejas no SEF. Nesse caso não preciso.

  10. Já nos “habituámos” à indiferença nojentade quem nos governa e á comuicação social com as milhares de horas do tipo cavani e associados.
    Kafka tem sempre razão.

    A.Vieira

  11. Não podemos recordar Humberto Delgado, sem nos vir à memória a frase que disse num momento em que tornou público o seu carácter, e que era tão adequada ao ainda Ministro que tutelou os assassinos “Obviamente demito-o”.

  12. “Isto” esta a ficar cada vez mais um lugar muito mal frequentado.
    No passado Domingo, a Igreja do Campo Grande, em plena Missa a na altura da Consagração, foi invadida pelos jagunços do Medina para obrigar a retirar os carros que estavam (diziam eles) mal estacionados.
    Os mesmos jagunços que mandam parar o trânsito em frente ao Liceu Francês, para as “mademoselles” largarem os “petits”
    Onde quero chegar com esta história? Á inversão de valores, ao abuso de poder para beneficio próprio, á governação pelos média etc, etc.
    A indignação e a revolta de cada vez maior da “maioria silenciosa” tem que ser revelada nas eleições, Se o não for, somos (são) todos cumplices.

    1. Na Igreja do Campo Grande também vão muitas “mademoiselle” e “petits”. É ver como deixam os carros estacionados,dificultando o trânsito.Basta passar lá para ver. Devem achar que são os donos da zona. Não são.

  13. Só por curiosidade, quantos artigos de opinião foram publicados no Delito, desde que se soube do sucedido e até ao início deste mês, e quantos referem o crime?

          1. Tão importante como tu, Cavani, Homeniuk, ou Anónimo. Lê o teu blogue, já te dei o meu apelido. Não que sirva de grande coisa, não sei quem é o jpt e não lhe falto ao respeito, nem ele ainda me tratou por tu. E procurei as respostas que não me deste. Realmente é melhor não responderes.

  14. Não foi só o silêncio do Presidente da República ou da comunicação social, foi Portugal inteiro.
    Não foi só Cavani, foi também CGTP e Festa do Avante, foi com isso que a malta se entreteve, rios de tinta.

  15. Leopedro
    Vai uma apostinha que tudo aquilo aconteceu devido a ataques de epilepsia e os agentes só o estavam a ajudar.
    O outro, há uns anos, também não foi abatido com um tiro na cabeça, mas sim por ter furtado a pistola do agente e a seguir se suicidar. Este caso por acaso foi com um cigano, dentro dum Posto, sabendo-se que entre os ciganos em caso algum se suicidam.

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