Imperialismos


José Meireles Graça,

E qual é a diferença entre a reacção dos Americanos à instalação de mísseis soviéticos em Cuba, próximo dos EUA, em 1962 e a reacção dos russos em 2008 à anunciada intenção dos americanos de fazer entrar a Geórgia e a Ucrânia na NATO e portanto abrir a porta à instalação de mísseis americanos junto à fronteira russa?,

pergunta o meu amigo Paulo Milheiro da Costa no Facebook, para concluir:

É por isso que os Russos recuaram em Cuba (aquilo foi apenas um teste dos russos à fibra do Kennedy) e os Americanos não têm intenção nenhuma de pôr um pé na Ucrânia. Nem deixar nenhum dos seus vassalos europeus fazê-lo. E ainda bem.

É o discurso recorrente da equivalência dos impérios. César não era diferente de Gengis Khan, os dois de Napoleão e o império americano, para efeito de países “vassalos”, não se diferenciava do soviético.

Deixemos em paz o romano, o francês e o mongol, e atentemos nos dois impérios da guerra fria. Tínhamos de um lado uma organização social fundada na liberdade económica e no Estado de Direito e do outro uma burocracia estatal portadora de uma doutrina científica de vocação universal. Numa os cidadãos escolhiam com liberdade os seus dirigentes, de entre vários concorrentes, num clima de liberdade de expressão da opinião – tudo a que não ligamos importância por o sistema, além de na prática funcionar com frequência deficientemente, conter manifestações esporádicas de ditadura de maioria; e na outra os cidadãos escolhiam coisa nenhuma e, invariavelmente, sempre que puderam sacudir o seu estatuto de menoridade, fizeram-no sem retorno. A variedade de império soviético era dura – uma vez instalada, não dependia da opinião pública; e a americana era, e é, soft – dependia da concordância dos povos conquistados e oprimidos. É por estes povos não sacudirem a canga dessa dependência que foi necessário construir vários cenários imaginativos da suposta manipulação da opinião pública – esta não tem consciência da sua situação de inferioridade por a informação ser subtilmente controlada por órgãos ocultos do verdadeiro poder.

Pois bem: a igualização dos imperialismos, que sempre se comportariam como bullies perante os seus inimigos, escamoteia o facto de várias opiniões públicas de vários países derrotados pelos EUA (por exemplo: o Japão e a Alemanha) não se terem tornado antiamericanas por causa disso; e pelo contrário há boas razões para pensar que se se os bons dos cubanos pudessem sacudir o jugo do regime que os sufoca adoptariam formas de organização social relativamente próximas das do Tio Sam; e aqueles países que saíram da esfera soviética quando esta desmoronou olham para o antigo núcleo, a Federação Russa, com temor e aversão.

Isto era entre regimes democráticos do Ocidente e o Império do Mal, que a Rússia já não é. Pois não: mas um elemento determinante do regime de Putin é a tentativa de restauro já não do regime comunista, enterrado pela sua incapacidade congénita de produzir sociedades de liberdade e de consumo, mas da sua importância de grande potência no xadrez mundial.

A ideia referida a princípio de uma suposta integração da Geórgia e da Ucrânia na OTAN (que não fui verificar – foi aventada por quem, e de que modo, e com que credibilidade?) não é comparável à da instalação de mísseis soviéticos em Cuba: num caso os cidadãos daqueles países, se perguntados, abraçá-la-iam porque sabem que a sua independência está em risco por causa do vizinho, tal como a dos países bálticos e todos os outros que no rescaldo da II Guerra ficaram do lado errado da Cortina; no outro, aos cidadãos de Cuba, então e agora, ninguém perguntaria nada, e os que podem, aliás, dão à sola para o vizinho que teoricamente deveriam odiar.

Quer isto dizer que a Rússia é o mal absoluto e os EUA o Sol na terra? Não. E que nas esquinas da História e nas malhas complicadas dos interesses se encontram razões, se se procurar, para justificar tudo e o seu contrário? Sim. E que os Russos são seres naturalmente desprezíveis, e salafrários todos os soldados que Putin enviou para uma guerra de agressão? Também não.

Mas, para escolher campos, não precisamos de ter a razão toda nem demonizar o inimigo. Basta lembrar: Ninguém quer invadir a Rússia, ou pilhar-lhe recursos, ou sequer impor sejam que formas forem de autogoverno. Mas, pelo contrário, a Rússia quer dependências ilimitadas para os seus vizinhos, uns, e independências limitadas, outros. E, ao serviço dessa ideia imperial, oferece-nos todos os dias o espectáculo deprimente do reviver de um passado de bruteza  que julgávamos exilado para as franjas do mundo civilizado.

Se tivesse de fazer a lista dos 10 melhores livros da minha vida incluiria o Guerra e Paz; e se fossem as 10 composições musicais preferidas, Sheherazade faria parte. Tolstoi de certeza, e Korsakov provavelmente, e mais era militar e nacionalista, não subscreveriam a aventura criminosa de Putin.

20 comentários em “Imperialismos”

  1. A estupidez de equivaler um tempo em que dois blocos com ideologias conformadoras da sociedade fundamentalmente opostas, se confrontavam, com um outro tempo em que nada os separa que não quanto à democraticidade na formação e aplicação das leis.
    Acresce que a interdependência económica entre dois blocos assim diferenciados era maior do que algum dia o fora.

    Sendo assim o que justifica semelhante disparate?
    Logo nos aparecem milhentas explicações que ignoram a que deu o autor, Putin, no seu discurso de Fevereiro!
    Um delírio de megalómano servido por um regime autocrático.

  2. Boa noite, José Meireles Graça

    1971

    Estado Intervencionado – Bolívia
    Estado Interventor – EUAN

    “Governo dos EUAN apoia o golpe de 1971que depôs o presidente Juan José Torres, substituído por Hugo Banzer. Torres desagradou os EUAN devido a uma convocatória de uma Assembleia Popular formada por mineiros, professores, estudantes, camponeses – uma viragem à esquerda na ótica dos EUAN.
    Com o triunfo do golpe os EUAN deram uma grande ajuda militar. A ditadura reprimiu a liberdade de expressão, dissensão, torturou milhares de pessoas, fez desaparecer e assassinou umas centenas, fechou sindicatos e universidades.
    Torres fugiu da Bolívia e foi sequestrado e assassinado em 1976 na operação Condor – grupo de repressão política e terrorista dos estados alinhados com os EUAN e por estes apoiados.”

    Informação recolhida na Wikipédia.
    Zé Onofre

      1. Boa noite, lucklucky
        Partindo do principio que “Assembleia Popular Outras palavras para Ditadura. Violação dos Direitos Humanos, Tortura etc” é verdadeira, que direito tinham os EUAN, de intervirem nos assuntos da Bolívia?”
        E que mudanças operaram com a sua intervenção? Partindo do princípio que “”Assembleia Popular Outras palavras para Ditadura. Violação dos Direitos Humanos, Tortura etc..” não deixaram lá uma ditadura?
        Agora acrescento eu.
        Se os Russos são criminosos por se meterem nos assuntos internos da Ucrânia – e eu acho que sim – Os EUAN foram-no tanto como agora são os Russos.
        Não há interferências boas e más, há interferências que são deploráveis e ilegais seja quem for que as pratique.
        Zé Onofre

        1. É menos mau ter uma uma ditadura não hostil que uma ditadura hostil.
          Tal como foi menos mau ter o Comunista Estaline que assassinou milhões de pessoas como aliado na Segunda Guerra Mundial que não ter.
          Quantifique lá a quantidade de armamento e não só que os EUA forneceu a esse Ditador.
          Há sim interferências boas e más. A interferência dos EUA na 2 Grande Guerra na Europa foi boa. A interferência dos EUA em Portugal no 25 de Abril foi boa, salvou-nos do Gulag de Alvaro Cunhal…
          E é bom não esquecer que mais de 1 milhão de pessoas morreu como consequência do 25 de Abril.

  3. Tenho de ver melhor nos livros de história, não me lembro nada de terem perguntado aos portugueses se queriam pertencer à NATO. Por essa altura acho que o “mundo livre” se esqueceu de verificar se Portugal, como membro fundador, era livre.
    Está a cair no mesmo erro dos que os que condena. As coisas não sem a preto e branco, URSS e EUA não são iguais e existe muito mais liberdade nos EUA, mas isso não torna o imperialismo americano mais doce, não existe imperialismo doce.
    O facto de não existir imperialismo doce torna a escolha mais difícil, não podemos fingir que estamos num filme de zombies em que os maus se reconhecem logo pelo aspeto e são sempre maus, isso deixa-nos com a gestão dos interesses mútuos quando há conflitos. O que algumas pessoas estão a fazer é a tentar analisar restrospetivamente se essa gestão foi bem feita. Isso não quer dizer que se passaram para os maus, pela simples razão que desta prespetiva não há inocentes nem culpados.
    A convicção de que do outro lado só há criminosos sem perdão e do nosso lado anjos sem máculas é muito perigosa, porque só deixa como solução possível a distruição de um deles, e quase de certeza a destruição de todos.

  4. Eu concordo com o JMG no aspecto em que a USSR não era um sistema. Mas antes uma seita que propagava seu modelo de forma internacional.
    Em sentido inverso os usa operavam com seu modelo ao redor daquilo que consideravam ser a sua esfera de influência, fundamentando-se em duas doutrinas: a doutrina Truman e a doutrina Monroe. Não se estranha portanto o seu apoio e incentivo às facínoras ditaduras da américa latina – incluindo Chile e em Cuba com o ditador Batista – bem como o apoio prestado a Saddam Hussein.
    A propósito deste último importa ainda referir que a arma química antraz foi usada pela primeira vez na guerra Iraque-Irão em 1983, isto é, durante o apoio da administração Reagan com conhecimento de Donald Rumsfeld e, não obstante a denúncia de um militar americano adido em Bagdade no período, os países ocidentais continuaram a prover os aditivos necessários ao progresso do uso de tais armas que mais tarde foram usadas contra o povo curdo.

    O anteriormente exposto, mas não exemplo único, serve para demonstrar-lhe que o bem-estar com que nós ocidentais vangloriamo-nos, enaltecemos e até mesmo desejamos exportar à bomba, foi alcançado sobre o sangue de milhares de milhões de inocentes ao redor do mundo. Sangue esse derramado, e inocente, que ainda hoje clama por justiça, e cuja justiça continua a deliberar mais derrame de sangue inocente. Portanto, é nesta base que o “mundo civilizado” que o JMG refere edifica sua existência.

    A referida doutrina Monroe foi a causa da crise dos misseis em Cuba. Terminando esta crise com a retirada dos misseis de Cuba por parte dos soviéticos e com a retirada dos misseis americanos da Turquia.
    Pretendo com isto dizer ainda que essa crise só pôde ser resolvida pela demonstração musculada dos soviéticos, que viram, pela proximidade dos misseis americanos na Turquia, uma séria ameaça à defesa de sua esfera de influência geoestratégica, isto é, de defesa.
    Por último, o desmantelamento da URSS em 1991 e do pacto de Varsóvia não foi acompanhado com olhar atento pelas diversas administrações americanas pós-Bush (pai).
    E há muito que se faziam sentir vozes ignoradas nas diversas administrações americanas e fora delas. Não só protestos por parte dos russos, mas, entre muitas vozes, a de Stephen Cohen, aqui:
    https://www.youtube.com/watch?v=mciLyG9iexE
    https://www.strategic-culture.org/news/2020/09/19/stephen-cohen-has-died-remember-his-urgent-warnings-against-the-new-cold-war/

    Agora a Ucrânia. Este país não é uma esfera de influência para os russos. É uma zona tampão para a Rússia, que determina sua existência e sobrevivência enquanto potência natural e militar. No quadro presente, a entrada da Ucrânia para a nato implicaria, juntamente com a Roménia e Polonia, um reforço sem precedentes que retiraria COMPLETAMENTE capacidade de manobra interna e externa dos interesses legítimos de Federação Russa.
    Se o JMG pensar que isto é irrelevante, então, admite qua acção russa é legitima precisamente porque os americanos e seus ditos aliados também assim pensavam, até que Putin entrou na Ucrânia e nela permanecerá.

    1. Militarmente, à época, fez sentido o incidente mísseis/Cuba, devido ao limitado alcance dos referidos engenhos com cargas nucleares significativas, sem defesas tipo mísseis “patriota”.
      Hoje em dia com mísseis nucleares transcontinentais, hiper-sónicos “para lá do horizonte”… a iniciativa de esta invasão, imperialista, é outra.
      Dir-se-ia que sim, imperialista com uma forte componente económica.
      Mas óbviamente gesto paranóico de Putin, apoiado em dúbio e discutível “legalês”… que não houve referendo a quando a criação da Ucrânea.
      Quando basta ver a relação, número de refugiados vs em que direcção, para se assistir a um referendar “com os pés”.
      Lembremo-nos que foram povos da actual Ucrânia -região secularmente fértil- que posteriormente povoaram a actual região hoje dita Fed. Russa, globalmente mais inóspita. Matricido, patricido?.

      Seria a “psique” dos povos ucranianos capaz de invadir, matar e destruir os, hoje em dia, povos da Federação Russa?. Qual o limite a que um qualquer líder, com propósitos imperialistas, pode conduzir o seu povo?. Que cultura se foi criando naquele povo?. E a comunidade internacional a assistir.

      1. Existem várias questões que coloca: a primeira é contraditória, na medida em que preconiza como alternativa à invasão russa o uso da prerrogativa da garantia de destruição mútua;
        a segunda diz respeito ao tradicional zumzum da escolha do ocidente em detrimento da Rússia por razões de refúgio. E aqui a mentira centra-se no faco de se ignorar que até ao momento a Rússia já acolheu mais de 300.000 ucranianos. Aliás, não admira esta cifra uma vez que 30% da população na Ucrânia é pró-russa. A outra parte da mentira centra-se no facto de não se olhar para as distâncias com as fronteiras e não se levar em conta que a maior parte dos refugiados ser oriunda das regiões sobre bombardeio que ocorre na região de kharkiv, passando por Kyiv até Lviv. A última parte da mentira sobre os refugiados centra-se no exemplo de Mariupol em que Zelensky só após forte bombardeamento, e com cerca de 90% da cidade ocupada, se dignou, há 2 dias, disponibilizar 21 autocarros para retirar a população da cidade. Se a Rússia pretende-se massacrar a população certamente não consentiria a abertura de corredores humanitários.

        A última questão refere-se ao facto da região da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia serem os territórios tradicionais da antiga confederação tribal. Porém não aborda outros factores como a participação da Polónia e da Áustria, entre outros, no enredo desta região (das 3 regiões).

          1. De tal forma o referendo é conclusivo que Zelensky desculpa-se de suas habilidades em não salvaguardar as populações civis – colocando as tropas onde devem estar, a combater a invasão e não a refugiarem-se no meio das populações – acusando a Rússia de levar à força os refugiados que acolhe. O respeito que eu inicialmente tive por Zelensky degradou-se com esta amostra de actor que faz de tudo um palco para justificar sua imprudência em salvaguardar a integridade dos ucranianos e da Ucrânia enquanto país. Agora vê-se também a braços com os fornecimentos cortados que do sul e sudeste podia ter. A Rússia já controla a região do mar de Azov e do mar negro, neutralizando por completo o dito implacável batalhão Azov. E já faz avisos com alguma artilharia, bombardeando o porto de Odessa. Significa isto que estão a sinalizar a população de Odessa, e a dar tempo, para que estas iniciem sua saída. Eles não cairão na esparrela de entrar nas cidades para fazer guerrilha urbana. Eles vão bombardear as cidades e com elas as tropas ucranianas.

  5. Então a NATO, uma organização militar para defesa do “mundo ocidental” no Atlântico Norte, estendendo-se à Geórgia e Ucrânia seria para defender o “mundo ocidental” ou para, antes, forçar os potenciais atacantes a passar, também, para o “mundo ocidental” ?
    O “mundo ocidental” entende-se como o que funciona com economia de mercado, eleições para governos saídos de vários partidos políticos, organizações sindicais e patronais livres de imposições corporativas, tribunais, forças armadas e policiais independentes do sistema politico e culto religioso alto aí só cristão e ocidental.
    Quer dizer, se o Gorbachev conseguisse impor uma verdadeira perestroika que evitasse o aparecimento do “arranjado” mundista ocidental Yeltsin/Putin com a distribuição das riquezas a uns amigalhaços em vez de colocados em “bolsa mundial” nada disto aconteceria e todos seríamos felizes.

  6. «explicações que ignoram a que deu o autor, Putin, no seu discurso de Fevereiro»

    Haverá por aí alguma vertigem que leve a um ‘como eu me justificaria se fosse Putin’?

  7. Não há comparação possível porque isto não tem nada a ver com uma ameaça da NATO. Nem falando que de um lado estão democracias e do outro um estado totalitário que faz da violência e da mentira ferramentas de estado.

    Se isto tivesse alguma coisa a ver com NATO, Putin nunca teria invadido a Ucrânia porque sabia que de guarnições vegatativas e meia dúzia de mísseis meramente simbólicos que nem precisavam de estar ali, passaria a ter uma fronteira armada e vigilante pronta para responder ao mínimo tremor de uma folha do lado de cá das fronteiras da NATO. Por outras palavras, se o problema era a NATO, o problema da NATO para Putin, agora, é muito maior e será muito maior durante muitos mais anos. Portanto ou o gajo é estúpido (uma possibilidade) ou isto é a velha conversa da treta dos comunistas para a qual já não há pachorra nenhuma e não há meio de meterem a viola no saco e desampararem a loja.

    Vão lá para a Rússia coçar a micose ao tio Putin e não nos chateiem mais o bestunto, fosga-se.

  8. Caro Senhor

    Felicito-o, e agradeço , pelo seu tão equilibradro “post”, onde torna bem claro que o bem e o mal existem, que eles são diferentemente partilhados pelos diversos regimes , e onde o bem supremo e total só existirá no Céu.

    Melhorres cumprimentos

    Vasco Silveira

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