Idólatras


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A cada idólatra as suas idolatrias, terá de dizer qualquer idólatra da razão, se minimamente nesta mesmo crente e assim dela obrigatoriamente algo desiludido. E nisso fenece o espanto, substituído por um morno sorriso de tépida ironia, face a este envio da estátuta da virgem Maria para a Ucrânia, como se que a querer fazer do que lá se passa uma qualquer cruzada (mariana) ou mesmo um qualquer esclarecimento, empiricamente fundamentado, de um dos tais cele(b)rados segredos de Fátima. E face à (tão humana) pantomina nem me acorre, ateu que sigo, invocar alguma inadmissibilidade da guerra que tenha sido proferida em papado mais recente, pois argumento que decerto será apupado por exegetas mais belicosos e mais atreitos a exemplos da longa história dos santos padres…

Ou seja, nesta proto-vetusta idade já não sigo furibundo iconoclasta, encolho os ombros às patuscas leviandades alheias, ainda que sabendo-as nada despiciendas, de poluentes que são. Mas não será isso que funda uma neutralidade face às crendices. Pois que se envie, com tonitruante eco, este ídolo para afrontar o demo russo muito significa do pateta estado de alguma lusa pátria. Mas não do Estado pátrio.

Mas sobre este, e das idolatrias que promove, isso já será outro assunto e bem mais grave. Pois que o Estado suspenda o ónus sobre a idolatria nazi e a panóplia de crimes e abominações intelectuais que lhe são concomitantes, e nisso de facto envie à Ucrânia – qual simbólica escolta da estatueta – o líder dos nada patuscos nazis portugueses, demonstra um estado do Estado totalmente inadmissível. 

E sendo inadmissível é necessário a ele obstar. Ou seja, identificar o juiz que isto promoveu. E retirar-lhe responsabilidades. Sem qualquer hesitação. Pois é ele um idólatra abjecto.

10 comentários em “Idólatras”

  1. digo como agnóstico que nem acredita num ‘putine de Lisboa’

    spatio brevi spem longam reseces
    em breve vais fazer desaparecer toda a esperança

  2. A imagem, ou estátua, da N.Sra. de Fátima e a proibição e se falar em ‘guerra’ na Rússia, faz lembrar os anos de 1960-70 por cá, quando as mães de milhares de jovens iam à Fátima pedir para salvar os filhos de ir para a guerra na Guiné. Também era proibido pedir à Nossa Senhora para acabar com a guerra, vá lá que se podia pedir para não regressar aleijadinhos.
    E misturar a religião com conflitos militares é complicado: tanto um lado como o outro pode rezar aos seus santinhos.
    Mas, neste caso da Ucrânia é aplicado a fórmula do padre Formigão que dá sempre jeito, embora a ideia fosse pedir à Nossa Senhora para salvar a Rússia do comunismo.

  3. Em tempos achei curiosa uma viagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima num avião da TAP para Roma, ocupando uma poltrona da classe executiva e procurei informação sobre essa estátua que afinal tem cópias devidamente numeradas. Entretanto a página do site referido desapareceu mas o texto que lá estava era este:
    « Para este ano de 2013, estão já programadas diversas peregrinações das imagens peregrinas de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal e noutros países.

    A arquidiocese de Évora tem uma longa tradição, vinda do século passado, de realizar missões populares com a presença da imagem peregrina de Fátima. No início do pontificado do atual arcebispo, D. José Francisco Sanches Alves, ele retomou essa tradição, pedindo todos os anos a visita da imagem, para percorrer as vigararias da arquidiocese. Neste ano, a visita será à vigararia de Arraiolos, com início no dia 16 de fevereiro e término a 8 de junho.

    Nos meses de fevereiro a julho, a imagem peregrina nº 8 está em visita à diocese de Livorno, Itália, sob coordenação do Movimento Mariano Mensagem de Fátima desta mesma diocese.

    No dia 8 de março, a imagem peregrina n.º 5 partirá para a vigararia de Mafra, da arquidiocese de Lisboa, para uma visita que perdurará até 7 de julho.

    …» daqui: http://www.santuario-fatima.pt/portal/index.php?id=60609

    »

    1. Pois é… Normalmente são agnósticos —a quem custa aceitar que alguém possa ser genuinamente religioso— que comentam coisas de religião, ignorando obviamente as razões interiores das coisas.

      A religião é uma espécie de convenção wittgensteiniana, e funciona no sentido que lhe é atribuído pelos seus membros. Aos de fora, como eu, de pouco serve a casca. A não ser para cascar.

      1. Na altura perguntei a uma amiga se isto não seria idolatria e gostei da resposta dela:
        «
        e pergunta-me a mim, que nem sabia que isto ia acontecer?
        Fui ler à agência ecclesia. Vai portanto na qualidade de um dos mais importantes ícones do catolicismo contemporâneo, para participar na jornada mariana do ano da fé.
        Porquê o original e não a cópia? Pelo mesmo motivo que se levam obras de arte de um lado para outro, com imensos custos, em vez de fazer exposições com cópias.
        Será idolatria? Penso que a idolatria acontece no coração das pessoas, antes de mais. Quem olha para aquela imagem como se fosse ela própria o Deus, está a idolatrar. Quem está no Vaticano e olha para aquela imagem sentindo-se unido aos tantos que todos os anos comovem ao vê-la em Fátima, não está a idolatrar.
        Em todo o caso: pelos vistos há muitos milhares de pessoas que vão gostar, e muitos portugueses que não gostam nada da ideia de emprestar a imagem – daí a celeridade do transporte. Por mim, não havia necessidade – embora reconheça que há algo positivo nisto de levar ao Vaticano símbolos importantes da fé de cada país. Talvez um dia levem lá a Senhora Preta de Montserrat, e a Virgem de Copacabana, sei lá.
        Num mundo em que há milhões para levar exposições de obras de arte de um lado para outro, milhões para comprar jogadores de futebol, milhões para um concerto de um palerma qualquer, não me incomoda nada que se gaste 200 euros para um lugar na TAP e mais o necessário para a viagem de helicóptero até ao Vaticano. Se começarmos agora a querer mandar nas despesas alheias, o mundo vai ficar um lugar muito desagradável.
        »

        1. A questão das imagens ficou resolvida na Idade Média.. A fusão do cristianismo ocidental com a idolatria pagã enriqueceu a cultura europeia — e não o contrário. É o não serem ortodoxos que distingue os europeus ocidentais.

          Sobre a questão das imangens e dos ídolos aconselho o “Amigos de Objectos Interpretáveis” de Miguel Tamen. É um livro surpreendente. Foi escrito originalmente em Inglês e a tradução para português é meio esquisita. Mas quem gosta destes assuntos não deve deixar de ler. Cumpts.

  4. Mesmo ateu que siga, caro jpt, não lhe devia escapar que, apesar das muitas manipulações, aquela imagem constitui um totem de paz, não uma representação de Marte.

  5. Gosto de ler o que escreve e por vezes diverte-me… Mas nem sempre se orienta por um verdadeiro conhecimento das coisas, não de religião católica ou ortodoxa, a que não é obrigado, mas de factos. Quando escreve “E face à (tão humana) pantomina nem me acorre, ateu que sigo, invocar alguma inadmissibilidade da guerra que tenha sido proferida em papado mais recente, pois argumento que decerto será apupado por exegetas mais belicosos e mais atreitos a exemplos da longa história dos santos padres…”, bastava ver os telejornais dos últimos tempos com as particularmente violentas intervenções do Papa actual acerca da situação Rússia-Ucrânia; já não lhe peço para recordar as de JOão Paulo II acerca da guerra no Iraque a que assisti ao vivo em Roma…

  6. Caro Senhor
    É sempre com alguma ternura, respeito, e admiração, claro, que leio ou oiço opiniões esclarecidas como a sua.
    Não conheço religião mais furiosa do que a da razão ( eles escrevem com r maiúsculo ).
    Matou aos milhões, com os regimes da dita razão( fascistas e comunistas , especialmente9, mas ainda aponta o dedo, pede responsabilidades ( a perca deles) , a vergonha pública, se por alguma pessoa não aceite a sua tirania. Da razão, claro. Dizem eles.

    Parabéns por ser um homem moderno, tal como já os havia há … dois mil e quinhentos anos?

    VascoSilveira

  7. Coríntios 13.2
    Ainda que eu tenha o dom de profecia, saiba todos os mistérios e todo o conhecimento e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor , nada serei.

    Água mole em pedra dura tanto bate até que fura -Sabedoria do Povo

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