
A CIDADE FRACTURADA
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Belíssima digressão ao passado do cineasta (e actor) norte-irlandês Kenneth Branagh naquele que é o mais autobiográfico dos seus filmes. Invocando a infância na provinciana Belfast do final da década de 60, quando a capital do Ulster começava a ser sacudida pelo terrorismo do IRA, gerando reacções duríssimas dos unionistas num conflito também com contornos religiosos que fracturou a cidade entre católicos e protestantes, durou 30 anos e provocou milhares de vítimas.
Branagh recorda essa época traumática filtrada pelo olhar inocente dum rapazinho (Jude Hill, num desempenho excepcional) que tenta, sem o conseguir, compreender o complexo mundo dos adultos. Incluindo o pai (Jamie Dornan), apostado em emigrar para a Austrália, e a mãe (interpretada pela belíssima Caítriona Balfe), agarrada às raízes, fiel aos quarteirões onde nasceu e cresceu, sem espírito de aventura.
Filme nostálgico, comovente, tocante, que nos faz sorrir e enternecer quase em simultâneo sem cair no artifício retórico ou na demagogia visual – e muito menos de romantizar a chamada “guerrilha urbana”. Rodado num soberbo preto-e-branco (excepto nos planos de abertura e fecho) que muito o valoriza, devolvendo-nos à memória do melhor cinema clássico. E com uma soberba banda sonora em que se destaca Van Morrison, tão actual hoje como em 1969.
Está na corrida aos Óscares, já recebeu o Bafta de melhor filme britânico do ano. Como um John Ford contemporâneo, aqui inspirado em obras como O Vale Era Verde, Branagh fala-nos do mais intemporal e perene de todos os vínculos: o elo familiar. Capaz de superar até o amor à terra e de nos tornar menos imperfeitos a cada etapa da existência. Onde quer que vamos, irá connosco. Acompanha-nos como uma bússola, transformando a vida em destino.
Sem efeitos especiais, sem a soberba característica das superproduções hollywoodescas, Belfast faz ascender o local à escala do universal. Esta é uma das virtudes maiores dos grandes filmes.
Belfast. De Kenneth Branagh. Com Jude Hill, Jamie Dornan, Caítriona Balfe, Judy Dench, Ciarián Hinds. Produção britânica (2021). Duração: 97 minutos.

A crítica por cá desdenhou. Vá-se lá saber porquê… Eu gostei muito, muito!
Esses “críticos” odeiam cinema. Falo, concretamente, dos que escrevem no ‘Expresso’ e no ‘Público’. Há longos anos que tentam tudo para afugentar as pessoas das salas.
Está na calha para quando tiver uma folga sem agendamentos!
Belíssimo filme, Dulce. Gostei muito – como se nota.