Em Berlim, juntaram-se hoje a fome e a vontade de comer. Apesar de serem muito diferentes, Sócrates e Merkel partilham uma circunstância. A erosão da base de apoio interna. Merkel acaba de perder o Ministro zu Guttenberg, o seu braço direito. Sofreu uma derrota eleitoral estrondosa nas eleições estaduais de Hamburgo. E prepara-se para ser igualmente derrotada em próximas eleições estaduais. Sócrates está como sabemos. Para além disso, tem os mercados à perna. Esta conjuntura juntou-os. A análise do significado do encontro pode, todavia, prescindir da consideração dos interesses de uma das partes. Dos fracos não reza esta história e o mais forte dita a sua lei. Entre Merkel e Sócrates não há dúvida sobre quem, apesar de tudo, tem uma posição de força. Merkel tinha dois objectivos. O primeiro era obter apoio para o pacto de competitividade. Para tal, não podia criticar Sócrates. Isso empurraria Portugal para o resgate imediato e Sócrates perderia o estímulo que o faz manter-se ao lado de Merkel. O segundo era evitar aparecer à opinião pública alemã como salvadora dos preguiçosos e desregrados do sul da Europa (é esta a visão que os alemães têm de nós). Para alcançar esse objectivo, não podia elogiar Sócrates em demasia (“é preciso aprofundar as medidas”). Era isto que Merkel queria e foi o que conseguiu. Sócrates não obteve nada de relevante para Portugal. A nossa situação mantém-se inalterada. No limiar da sobrevivência. Mas, ofereceu ao seu ego meia dúzia de minutos de palco. Para isso, teve que figurar como comparsa de Merkel. E, por uma vez, foi capaz de falar correctamente em língua estrangeira: ich bin ein Hamburger, liebe Angela. Em português escorreito diz-se carne picada. Para o canhão de um bombardeiro alemão.
Ich bin ein Hamburger, liebe Angela
Rui Rocha,

Na mouche!!!
O resto é spin, Pedro.
Caro Rui, permita-me discordar da sua leitura. Em breves apontamentos:
a) As sondagens mostram que a CDU/CSU ainda domina as intenções de voto dos alemães e Angela Merkel continua a ocupar o segundo lugar na tabela dos políticos mais populares ( o primeiro era/é Kar-Theodor zu Guttenberg).
b) O ex-ministro da Defesa não era o braço direito de Merkel, antes pelo contrário. Era um rival. Guttenberg era um político respeitado no gabinete federal pela sua competência, pelo berço aristocrático e pela popularidade (73 por cento dos alemães deseja que ele retorne à política a despeito do plágio). O braço direito de Merkel é ela própria uma vez a socialização na Alemanha Democrática a ensinou a nunca confiar em ninguém, nem na própria sombra ( ela refere-o na(s) sua biografia (s)).
c) Relativamente a Hamburgo foi sem dúvida um golpe, mas nada de dramático, uma vez que o peso da cidade-estado no Conselho Federal é limitada. Já Baden-Württemberg é outra história. Se os conservadores perderem neste Land será uma significativa derrota política para Merkel.
d)Dito isto não se pode falar de erosão das bases no caso de Merkel.
e) Como portuguesa lamento a má imagem que o país transmite, mas a culpa é de quem não faz/fez os trabalhos de casa e agora acha que a irmã mais velha e mais rica tem de se responsabilizar pela irresponsabilidade.
A lógica da vitimizacao – tadinhos de nós a ser picados no triturador alemão – não pega. A “estória” de vida portuguesa é mais a da fábula da cigarra e da formiga.
g) Merkel não precisa de comparsas como “Zocrates”( pronúncia germânica). Porque ele não “vende” internamente.
Na comunicação social social alemã, com excepcao da agência noticiosa dpa, não se encontra uma linha sobre este encontro. Nada, rigorosamente nada.
Bem, verdade seja dita alguns jornais de referência portugueses portugueses , lembro-me do Público e do Diário Económico, cobriram o encontro a partir de Bruxelas (!!! ) e o DN publicou um take da Lusa.
Viva, Helena. Não só permito como agradeço a discordância. Em rigor, creio que só o é na análise da política interna alemã relativamente à qual a Helena tem uma visão mais optimista da situação de Merkel. Veremos então como correm as coisas em Baden-Württenberg. O que refere relativamente à cobertura noticiosa é absolutamente pertinente. A referência a comparsa foi feita no contexto europeu da discussão sobre o pacto de competitividade. Também andei pelo imprensa alemã à procura de referências ao encontro de ontem. Não encontrei nenhuma, mas fiquei a saber bastante mais sobre zu Guttenberg. Quanto à política interna portuguesa, penso que estamos alinhados. E a minha referência final ao bombardeiro alemão não vai no sentido da tese da vitimização dos pobrezinhos que estão a ser degolados (admito que pudesse ter essa leitura). O que pretendia sublinhar era que os interesses portugueses não têm qualquer importância no contexto da estratégia de Merkel. Quanto ao motivo pelo qual estamos como estamos, nunca defendi a tese da conspiração. Nem dos mercados, nem dos alemães. Aliás essa construção teria como consequência tornarmo-nos definitivamente inimputáveis. E penso que a única forma de encarar o futuro com uma réstia de optimismo é assumirmos a total responsabilidade pela forma absolutamente incompetente como tem sido gerido o nosso país.
Uma análise sofisticadissima e merecedora de parabéns. Ontem, dava-se como garantido que o Socrates ia levar um ralhete monumental da Merkel, tipo puxão de orelhas de mestre-escola. Aparentemente, afinal, a Merkel elogiou o Socrates. Isto, na aparência. O Rui Rocha, num exercício fantástico, consegue transformar isso em duas coisas:
1 – A Merkel só elogiou o Socrates porque precisa dele. Os alemães estão reféns dos portugueses, yay!
2 – Mas a Merkel, afinal, não elogiou o Socrates. A Merkel conseguiu enganar simultâneamente o Socrates e os alemães. Fez de conta que elogiou o Socrates e fez de conta que o repreendeu.
Parabéns Rui Rocha. Isso não é um spin. Isso é um exercío de argolas com saida com triplo mortal com pirueta à rectaguarda. Ten points.
Pois, pois. O mortal é meu. Mas, o país é que continua a afundar-se e a banda a tocar.
Rui, eu nem sequer votei no gajo. E não comentava o país, comentava o seu post. Apesar de saber, como é óbvio, que há coisas muito mais importantes do que o seu post, nomeadamente a situação do país, se é isso que quer dizer.
Pedro, o que quero dizer (para além de constatar que evidentemente a situação do país é a que mais importa) é que não vejo um resultado concreto (unzinho só) da reunião que seja útil para o futuro do país. E já que o meu post lhe provoca urticária, sugiro-lhe outras fontes de análise que ficaram disponíveis depois de eu o ter publicado:
http://www.jornaldenegocios.pt/home.p hp?template=SHOWNEWS_V2&id=47133
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/eco nomia/comentario-opiniao-socrates-merkel-a gencia-financeira-fundo/1236741-1730.htm l
http://economico.sapo.pt/noticias/j uro-de-portugal-esta-acima-dos-7-ha-vint e-dias_112526.html
“não vejo um resultado concreto (unzinho só) da reunião que seja útil para o futuro do país. “
Nem eu. Mas, mais uma vez, não tinha comentado o pais, ou o seu futuro. Comentei o que escreveu no seu post. Não me provocou nenhuma urticária. Urticária provoca-me estar a ganhar mal.
Pois o meu post era sobre o país e o futuro. Sobretudo sobre as pessoas que ganham mal e as que não ganham nada.
Rui Rocha, insiste em tomar-me por parvo. Você no post faz uma análise do encontro entre a Merkel e o Socrates e diz o que pensa que a Merkel disse ou pensa. Achei a sua análise extraordinária, só isso, e foi só isso que comentei. Quanto ao resto, não é o que você disse que me ajuda a ganhar mais. A mulher, mal ou bem, elogiou o Socrates. Custe-lhe a si, ou a mim, a engolir, factos são factos. E não ajuda a economia fazer esses spins, deixe-se disso.
O meu amigo engole o que quiser porque a digestão é sua. Da mesma maneira que engole o meu post ou não de acordo com o seu apetite. O meu, em todo o caso não condiciona. Continuo a servir-me só daquilo que me agrada. E a dizer o que penso. Permiti-lhe que fizesse o mesmo com total liberdade. V/ fica com as suas certezas. Eu fico com as minhas análises e as minhas críticas.
Por mim tudo bem. Diga-me então as coisas com franqueza e não me tente enrolar, que só não gosto disso. Deixe lá é “o meu amigo”.
Pedro, Pedro, antes que o galo cantasse, mais de três vezes negaste teu amo.
Eheh…
E já agota também este:
http://www.businessweek.com/news/2011-0 3-03/merkel-said-to-see-deal-on-bailout-l oan-rate-cuts-as-unlikely.html