
Fotografia de 2005 por Cambridge Jones/Getty Images, retirada da NBC News
Ian Holm pode não ter sido um actor associado com frequência ao papel de protagonista (no cinema, pelo menos; sobre a sua longa carreira no teatro não me poderei pronunciar), mas nem por isso deixou de se fazer notar – o carisma de algumas das suas personagens secundárias bastou para as tornar com frequência inesquecíveis.
O desempenho inevitável nos elogios fúnebres de hoje será talvez o seu Bilbo Baggins da adaptação de The Lord of Rings de J.R.R. Tolkien, já no crepúsculo da vida a abdicar relutantemente do Anel que lhe preservara a juventude. Na vasta trilogia de Peter Jackson as cenas de Holm não são longas mas ficam na memória, abrindo e encerrando toda a saga – com o início maravilhoso da sua festa de aniversário e o interlúdio melancólico de Rivendell no primeiro filme, The Fellowship of the Ring, e a sua partida para Valinor no epílogo de The Return of the King. Holm viria a regressar com Jackson à Terra Média na adaptação de The Hobbit, contada em analepse para lhe permitir passar o testemunho a Martin Freeman e fazer a ponte com a história original. Em The Fifth Element, de Luc Besson, interpretou o frenético Padre Vito Cornelius, último elemento de um culto antigo capaz de fazer a ligação com a civilização alienígena dos Mondoshawans e assim salvar o universo (ou, vá lá, permitir que o Korben e a Leeloo de Bruce Willis e da Milla Jovovich salvassem o universo). E no grande Brazil de Terry Gilliam foi Mr. Kurtzmann, o titubeante chefe de Sam Lowry (Jonathan Pryce), a cargo de uma pequena parte de toda aquela burocracia infernal.
Mas é em Alien de Ridley Scott que, para mim, Ian Holm tem a sua aparição definitiva no grande ecrã ao interpretar Ash, o cientista da tripulação que se transforma num inesperado antagonista. Bilbo Baggins e Vito Cornelius, e até mesmo Mr. Kurtzmann, são em si bastante diferentes, mas existe entre eles um fio condutor na interpretação simpática, apologética e algo desajeitada de Holm. Mas o andróide Ash não podia estar mais longe desse registo: frio, metódico, absolutamente dedicado a cumprir a missão secreta da Nostromo, mesmo sabendo que isso implicará a morte dos seus colegas de tripulação. O seu confronto com a Ellen Ripley de Sigourney Weaver não é muito menos aterrador do que o próprio alienígena.
Haverá vários outros papéis de Ian Holm para descobrir ou re-descobrir (aos anos que ando a ver se revejo a adaptação televisiva de Through the Looking Glass que apanhei uma vez a passar na RTP2), mas estes, de quatro dos meus filmes preferidos, ficam-me na memória.
Filho de pais escoceses, Ian Holm nasceu a 12 de Setembro de 1931 em Goodmayes, Essex. Faleceu hoje aos 88 anos.

Desempenho brilhante como Sam Mussabini em Chariots of Fire, tão bom ou talvez melhor ainda do que o Ash ou o Bilbo.
Good plays, Sir Ian.
Esse é um dos vários filmes dele que ainda terei de descobrir.
Olá João,
tem mesmo que ver o Chariots of Fire, é um filme extraordinário, que eu tive a sorte de ver em estreia num écran a sério.
Ontem fiquei perplexa ao ver a lista enorme de filmes em que ele entrou (e que eu vi, embora não me consiga recordar dele em todos, obviamente); era um secundário muito competente que fazia sempre a diferença.
Ainda bem que vai ser recordado pelo Senhor dos Anéis, especialmente pelos jovens.
Bom sábado cinéfilo!
🎬
Maria
Gostei mesmo muito de o ver como Bilbo. E, não desfazendo o Martin Freeman, actor que muito aprecio (e que terá sido talvez o melhor da segunda e desnecessária trilogia de Peter Jackson), teria gostado imenso de ver o Ian Holm a fazer todo o papel de Bilbo numa adaptação de The Hobbit. Mas mesmo em 2001 já não teria idade para o papel.
Curiosamente, há uma adaptação radiofónica de The Lord of the Rings, mais antiga, na qual Ian Holm interpreta… Frodo.
Bons filmes, Maria! 🙂
Obrigado pelo post, João.
Só conheci este actor através do Senhor dos Anéis
No meu caso foi o Alien e o Through the Looking Glass.
não é para publicar
“E no grande Brazil de Terry Gilliam foi Sam…”
“Bilbo Baggins e Vito Cornelius, e até mesmo Sam…”
O personagem chama-se Mr. Kurtzman.
Não tenho problema em publicar, e agradeço-lhe o reparo. Embiquei no o Sam Lowry. Está corrigido
Isto também me faz pensar que tenho de rever o Brazil. A última vez que o vi já foi há uns anos (2017, talvez?), mas no cinema: passou numa das salas pequenas do Alvaláxia, e não deixei passar a oportunidade. Uma maravilha.