Homenagear o que não se lê


Pedro Correia,

«Com as celebrações dedicadas a Aquilino Ribeiro no cinquentenário da sua morte, vai voltar a verificar-se uma situação deveras paradoxal. Estaremos a homenagear um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos, mas trata-se de um autor que ninguém ou quase ninguém das novas gerações é capaz de ler pela razão singela de que não percebe o sentido de muitas das palavras que ele utiliza.»

17 comentários em “Homenagear o que não se lê”

  1. Sejamos francos, quase ninguém nem das novas gerações, quase ninguém da minha (40) e quase ninguém da que veio antes de mim. Quem sabe quantos da dele se alambazariam na hulha.

    1. A questão, caro Vasco, é que persistimos em vícios atávicos quando homenageamos, por um lado (fachada), e desincentivamos a leitura de quem se homenageia, por outro (realidade). Eternamente duais.

  2. Quando o vocabulário médio de muitos dos nossos licenciados não vai além das duas mil palavrinhas, que outra coisa se poderia esperar…
    Pior: quando a maioria dos portugueses, além da Bola e da Maria, nunca leu um jornal sequer, os livros do Mestre Aquilino fazem um bicho de sete cabeças para este povão ‘tuga ‘.

    1. Vasco Graça Moura, no seu excelente artigo, fornece pistas suficientes para iluminar o problema.
      Eis uma delas neste trecho que me permito destacar:
      «Se considerarmos os programas escolares e também a preparação que nas últimas décadas terá sido dada aos professores de português, o mais provável é que aqueles que hoje têm entre quarenta e cinquenta anos, e se encontravam, portanto, na mais tenra infância à data do 25 de Abril de 1974, tenham sido sujeitos a tantas experiências pedagógicas de duvidosa consistência, a tantas abstrusas injecções teóricas e práticas de nenhuma utilidade, a tantos descasos em matéria de formação cultural, que, salvas as honrosas excepções do costume, é legítimo alimentar as mais sérias dúvidas sobre se estarão em condições de ler Aquilino Ribeiro ou de, questão mais geral, ensinar correctamente o português nas nossas escolas.»

  3. Quando Aquilino escreveu e publicou muito menos se lia, muitos menos liam. É melhor lembrar isso, para evitar catastrofismos.
    Dito isto, para além do obrigatório “Malhadinhas” e após o falhanço na “Casa Grande de Romarigães”, também não o li. Não só mas também pelo vocabulário. Mas também pelo mundo ali.
    A vida não são só défices (lexicais, neste caso). As nossas alfaias, paisagens e linguajares são diversos. Muito do que se critica na não leitura de Aquilino estará ancorado nas próprias características (qualidades que lhe são também limites) da obra.

    1. Ah, sim, nada de catastrofismos!
      Viva o regime!
      Afinal estamos apenas a 21 lugares da Espanha no que se refere a analfabetismo. Como poderiam ser 31, em vez de 21, é de nos regozijarmos.
      Além do mais, todos sabemos como o Generalíssimo Franco promoveu a aprendizagem da escrita e o gosto pela leitura.

      Ora vejamos, dir-se-ia intuitiva a noção de que comparar o que se lia em Portugal há 40 anos com o que se lê hoje é um ilogismo. Deve-se comparar o que se lia em Portugal há 40 anos com os índices de há 40 anos de outros países e, depois, comparar os índices de hoje, de Portugal e dos mesmos países.
      Não será?

      Em relação à classe média, não é de excluir uma regressão: hoje, uma tal associação de professores de português de convivência estreita com a burocracia politicamente correcta do ministério e do regime congratula-se com a exclusão de Camilo Castelo Branco do programa. Talvez também lhes tenha ocorrido o espantoso argumento de que “As nossas alfaias, paisagens e linguajares são diversos” o que serve para qualquer escritor, de Homero aos primeiros escritos de Agustina.

      1. Há várias questões que levanta, e outras ainda colocadas pelo texto (e pela atenta citação do Pedro Correia). A primeira não tem a ver com a obra de Aquilino Ribeiro mas com o seu “viva o regime” com que invectiva o meu comentário. Francamente, há um constante azedume nos comentários in-blog (também meu, quantas vezes) que se torna cansativo. Raios partam isso, de onde pode retirar isso? O texto de VGM (que é um autor e intelectual mais do que muito estimável) indicia um descalabro na transmissão escolar do português. Acredito que muitos defeitos existam e que muitos derivem do “experimentalismo” pedagógico que ele denuncia. Mas essa visão (crítica, denúncia) torna-se muitas vezes exagerada, até escatológica, como se na actualidade o domínio do português seja diminuto, a sua aprendizagem seja pior. E isso não é universal (sociologicamente é bem mais disseminada, pelo menos).
        V. exige que se olhe para a apreensão escolar do português, e concomitante prática de leitura, apenas em termos contemporâneos, relativos (comparando analfabetismo [e iliteracia] com o vizinho espanhol, como ilustra o seu argumento). Terá alguma lógica no que diz, evidentemente, mas esquece um ponto: o argumento de VGM (sustentável mas discutível, dialogável) – e as conclusões que muitos retiram dessa linha de pensamento – remete para uma análise diacrónica do ensino de português, exactamente o processo das últimas décadas face a novas formas de ensino escolar da língua, para a explícita consideração de um “antes” e de um “agora”.

        Dito isto, tem VGM razão sobre os defeitos no ensino da língua (e da cultura que lhe está associada, nela inscrita)? Porventura terá, em parte adiro a essa opinião. Mas faço-o sem verdadeiro conhecimento de causa, não é o meu campo profissional, não tenho saberes, não me passa de um relativo “eu acho que …”. E em parte desconfio, por experiência empírica. Não só por eu próprio fazer parte de uma geração já ensinada através das “metodologias” criticadas e ter conhecido muita gente na minha fratria geracional que dominava muito bem a língua. Mas também por ter familiares de gerações seguintes que dominam com esplendor a língua (e alguns até dela fazem profissão, e com brilho). E porque tenho uma filha de 10 anos, na 6ª classe que escreve e lê com surpreendente e entusiasmante competência (ok, neste caso há sempre a dimensão de “pai babado” a poluir a reflexão).
        Ou seja, talvez seja necessário matizar a visão de que não ensina o português com competência (“evitar os catastrofismos”, disse antes). E olhar para as apreensões sociologicamente diversificadas da língua, em vez de fazer tábua rasa do que se passa.

        Quanto a Aquilino Ribeiro. Aqui discordo, em parte, de VGM e do que V. também avança. VGM avança que os leitores actuais não chegam a Camilo, Eça e Aquilino. Talvez, mas Eça (até pela influência que teve na escrita) é muitissimo mais apreensível, e não só por causa do léxico. E também Camilo o será (mas não leio este autor há 30 anos, não posso afiançar, é apenas uma memória longínqua). E também discordo de si. Certo que os autores nos remetem para mundos diversos (as tais alfaias, paisagens e linguajares). Mas uns são mais acessíveis. E, bem mais importantes, mais apelativos – o que não implica que sejam “melhores”.
        V. refere o fundacional Homero e é um exemplo interessante: há alguns meses a minha filha foi escolarmente convocada para ler “Ulisses” de Maria Alberta Menéres. Nessa altura li-lhe (e leu ela) alguns excertos da “Odisseia”. E o que ficou notório (e, já agora, era também meu objectivo) é a relativa facilidade da apreensão do texto (para além, claro, da constante presença de um mundo de personagens que remetem para o domínio da mitologia e cultura gregas, daí a necessidade de escolher os excertos para uma miúda de 10 anos). Um texto cujas “alfaias, paisagens e linguajares” (pelo menos na versão de Frederico Lourenço, que é a que temos em casa) se apresenta acessível, até aos 10 anos (se é apelativo ou não, isso é outra coisa). Porventura bem mais do que Aquilino Ribeiro.
        Enfim, não me parece que considerar que há autores históricos, independentemente do seu valor intrínseco, sejam mais acessíveis e apelativos do que outros seja tecer loas ao regime, mesmo que este apenas pedagógico.

        1. Finalmente, depois deste arrazoado, comprometo-me a, quando visitar as estantes paternais a regressar a Aquilino Ribeiro (do qual o meu pai era grande admirador). Algo que agradeço ao Pedro Correia e também a si, SC, e à sua má-disposição, até provocatória.

          1. Continuei a ler os comentários abaixo e há um anónimo (“pódam,dêvam,hadem lêr”) que exige a homologia dos “mundos” literários e que afirma que a literatura não começou com Lobo Antunes e Saramago (presumo que seja uma ideia que considera espalhada). Comentário que associo ao meu primeiro aqui, em que referi que as dificuldades ou abandono diante de Aquilino Ribeiro passem pelo “mundo ali”. E é interessante isso, para além da implícita consideração de que há uma obrigação na leitura dos clássicos (quantos, pergunto eu desde o liceu, leram os romances de Herculano com prazer e interesse? Eu confesso que desesperei com o Bobo e o Monge de Cister, obrigações lectivas).
            Mas o interessante é a falta de prazer, de interesse, na literatura que estas proclamações éticas transportam. Não há um “mundo” homólogo, que partilhemos, e que tenhamos que ler. Devemos ser sensibilizados para a leitura, e isso é outra coisa. O que caracteriza os (bons) escritores é construírem mundos, e nuns nós vivemos, até apaixonados ou apenas vizinhos. A outros visitamos. E de outros fugimos. Opções que têm múltiplas razões, e não apenas os manuais de língua portuguesa com que estudámos.
            Também por isso o “mundo” de Lobo Antunes me foi interessante, e dele li uma mão-cheia de livros. E o “mundo” de Saramago me foi interessante e me desiludiu, e dele me afastei ao fim de um punhado de livros.
            E nisto eu sou radical, quem não consegue compreender isto, quem acha que há um mundo homólogo e que temos [os não-profissionais] que ler (de) tudo nele, de Homero a Eça, sob pena de sermos ignorantes (ou de eliminarmos, quais censores, os artistas / escritores), pura e simplesmente não gosta de livros nem de literatura. Apenas de declarações bombásticas.

          2. Caro JPT: aconteceu-te aqui o que várias vezes me tem acontecido ao comentar textos de colegas de blogue. Uma vez, ao comentar prosa do Zé Navarro, saiu-me até uma crítica de cinema…
            A ti acaba de sair um (ou até mais que um) texto que merece expressão autónoma, em postal na montra delituosa. Fica a sugestão.

          3. Talvez, lá para Julho, quando em Portugal e se me chegar aos tais livros paternos, possa sair qualquer coisa. Até breve

          4. Portugal, além de falido e corrupto é o país com os índices mais baixos de literacia na Europa – com a excepção de Malta.
            Nas escolas, após 37 anos de democracia reina a indústria do politicamente correcto que promove a estupidificação de massas e exige, obscenamente, a substituição dos grandes autores por textos medíocres incapazes de estumularem o sentido crítico.
            Perante isto, vem alertar contra os catratofismos e apoda-me de provocador?
            Não brinquemos.

          5. Sc algo que a literacia permite apreender é que as interpretações são decisões. Eu comentei: “Finalmente, depois deste arrazoado, comprometo-me a, quando visitar as estantes paternais a regressar a Aquilino Ribeiro (do qual o meu pai era grande admirador). Algo que agradeço ao Pedro Correia e também a si, SC, e à sua má-disposição, até provocatória.”. Ou seja, partindo deste postal do Pedro Correia e da discussão que se seguiu, fundamentalmente provocada pela sua invectiva ao meu inicial comentário surgiu-me a vontade de regressar a Aquilino Ribeiro. E disto V. abespinha-se, e retira que lhe chamo “provocador” (em mau sentido)? É sua decisão, nada posso fazer. Paciência.
            Quanto ao resto que adianta, de ser Portugal bruto e corrupto, do sistema de ensino ser mau, da democracia ser estúpida (ou estupidificadora) nada mais digo. Pois basta o exemplo acima para perceber que V. arremeterá contra qualquer coisa que aqui meta. E, francamente, não se me justifica.

  4. “Lá que há mais instrução, isso há….Mas saber ler não basta para ser fino, ser cavalheiro, e muito menos ser feliz… Salamanca a uns sara a outros manca…”
    De, O Malhadinhas

  5. Dizer que o mundo de Aquilino não é o nosso é dizer o mesmo do de Homero,Fernão Lopes,Gil Vicente,Cervantes,Shakespeare…,nem de Camões,Garrett,Camilo,Eça,e continuaríamos de modo a concluir que do nosso mundo e com competência para serem lidos só os autores de hoje.Quanto ao vocabulário muitos estariam excluídos e se falarmos na construção da frase e estrutura do texto Camões seria imediata e definitivamente eliminado(ainda por cima não era democrata antes um imperialista reaccionário defensor das classes…etc.).Tenham paciência!Convém saber que a Literatura não nasceu com Saramago ou Lobo Antunes(para citar dois opostos)e deixou muitos caminhos abertos que convém conhecer tal como não faz sentido eliminar os pintores que não são do nosso mundo ou os compositores ou os filósofos.E o mesmo se diga dos respectivos estilos,”linguagem”,construção pictórica ou musical,discurso filosófico.
    Aquilino não é Eça mas há páginas que podem ser lidas com proveito,sejam do Malhadinhas sejam da Casa Grande.

  6. A minha dificuldade não está em ler Aquilino, de quem gosto muito. A minha dificuldade está em ler as leis que agora se fazem, os ofícios que me enviam, os enunciados de alguns testes, os acórdãos dos tribunais. Aquilo é português? Compare-se uma lei do estado novo com uma de agora: Como não havia gabinetes de advogados aquilo era clarinho como água. Agora nem quem as fez as entende.

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