Hoje é dia de


Maria Dulce Fernandes,

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A 12 de Junho celebra-se O Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil 

“O Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil é celebrado anualmente, sob a égide da Organização Internacional do Trabalho.

Este dia procura abordar as questões relacionadas com o trabalho infantil e desenvolver acções para eliminá-lo. Cerca de 218 milhões de crianças trabalham no mundo, muitas delas a tempo inteiro, estando envolvidas em actividades perigosas que comprometem o seu desenvolvimento físico, mental, social e educacional. 

O tema deste ano é «Protecção Social Universal para Acabar com o Trabalho Infantil», apelando ao reforço do investimento em sistemas de protecção social para combater o trabalho infantil.”

Era uma vez um menino, terceiro filho de quatro de uma família de rendeiros, que trabalhava de sol a sol. Levantava-se de noite para ajudar ao gado, ia à igreja, depois à escola e voltava para ajudar no que fosse preciso, muitas vezes apenas com leite e pão seco no bucho até a mãe regressar dos campos, quantas delas já o lusco-fusco anunciava a partida do sol. Vinte anos após a Segunda Grande Guerra a vida não era fácil na aldeia. O irmão mais velho já tinha vindo para Lisboa e não tardou que o nosso rapaz tomasse a mesma senda, pois já completara doze anos. Pela primeira vez tinha sapatos! Já vira homens na missa com sapatos calçados, mas na casa dos pais as crianças sempre usaram socas de madeira. Não achou os tais sapatos nem um pouco confortáveis, mas tinha de ter sapatos em Lisboa, por isso aproveitou para dizer ao pai que as lágrimas que lhe corriam pela cara, quando ele o deixou sozinho no comboio para a capital, eram devidas ás dores nos pés provocadas pelos tais sapatos.

O irmão e o tio esperavam-no. Tomaram o eléctrico para Belém e deixaram-no entregue a um casal, dono de uma mercearia na Rua de Pedrouços. Era ali que iria trabalhar. Tinha que se levantar com o galo, comer o pão e o café pegar no livrinho e no lápis e ir, Avenida da Torre de Belém acima, Restelo adentro, tirar os pedidos diários nas  lautas moradias das senhoras. Depois de ter o livrinho completo, regressava à mercearia, preparava o que trazia no rol, punha tudo num cabaz e lá partia ele, cabaz às costas, fizesse chuva ou sol.

Durante seis anos foi a sua vida. Tinha um dia por semana para ir à missa e passear, gostava do patrão e da comida da patroa. Tinha roupa nova que ia pagando do seu ordenado. Era bem parecido e simpático. Uma das clientes que o encontrou num dia de entrega na porta de serviço perguntou-lhe se tinha estudos. Só o básico, respondeu. E ficou a matutar na ideia de tal modo que procurou outro emprego e foi estudar à noite.

Saiu-se bem, tomou-lhe o gosto e continuou sempre no caminho do conhecimento, passando as noites no ensino pós-laboral e à roda dos livros. Veio a liberdade. Todos eram socialistas, era esse o caminho dele, mas foi assim que aconteceu o rapaz ir a uma reunião da célula do partido, que funcionava no pátio, mesmo ao lado da Junta de Freguesia de Santa Maria de Belém. Foi lá que o conheci.

Esta história de trabalho infantil teve um final feliz. 

18 comentários em “Hoje é dia de”

  1. Nesse tempo toda a criança de família pobre trabalhava para ajudar no sustento da casa. A miséria era muita. Algumas, como a do bom exemplo, conseguiam subir. Esse garoto conseguiu porque provavelmente o 25 de Abril lhe possibilitou a escola nocturna, ou apenas porque em Lisboa ela existia mesmo nos tempos anteriores ao Dia da Liberdade, não sei. Mas sei, de fonte segura, que o povo de outros lugares não podia estudar ainda que quisesse, o ensino não era democrático, servia uma elite restrita por motivos que hoje bem conhecemos, um povo letrado não interessava.

    1. falam por ouvir dizer. não me façam rir. estou muito traumatizado por não ter estudado. na minha aldeia pobre houve 5 licenciados em 1957. agora é miserável todo o país e só não foge quem vive do esforço dos contribuintes privados … de tudo.
      divirtam-se
      sou ANARCA.

      1. Pois ria se lhe apraz, rir faz bem.
        É certo, também se fala por ouvir dizer. E digo-lhe que, se em 57 houve na sua aldeia 5 licenciados, muito rica e sui generis seria ela. Nunca antes me preocupei em pensar nisso, mas fui de certeza a primeira licenciada na minha aldeia. Além do meu, houve dois cursos médios que singraram, e isto entre 73 e 75. Em 57 seria muito reduzido o número dos que tinham a 4ª classe; um ou dois parece-me número bastante. Lembro que a escolaridade obrigatória só foi instituída em 64 (julgo) e os pais necessitavam o contributo dos filhos no sustento familiar. Por vezes, as crianças iniciavam a vida escolar, mas depressa lhe eram subtraídas. E sim, conheci muitas com a primeira e a segunda classe; e outras tantas sem frequência escolar, analfabetos de todo.

    2. Bea está mal informada sobre o nosso País.
      Comecei a trabalhar com doze anos (doze anos feitos dois dias antes). Era a idade mínima oficial para se começar a trabalhar. O meu nome aparece na lista das pessoas mais novas a descontar para a Segurança Social (ant. Caixas de Previdência), mas havia alguns com onze anos. Julgo que a partir de 1969, a idade mínima passou para os 14 anos.
      Mas já havia ensino noturno : Secundário Comercial/Industrial e Institutos Superiores, só para trabalhadores e com mais de 14 anos.
      Não me fez mal nenhum ter começado a trabalhar ainda criança, ou sei lá, calhando faltou-me brincar. Afinal era o que esperava a grande maioria das crianças daquele tempo em que tudo era proibido menos o trabalho infantil, que em muitos casos era uma escravatura com conhecimento dos pais, e ‘se precisar casca-lhe’, dizia o pai do rapaz para o patrão.
      Concordo plenamente que se comemore este Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil.
      O mundo só é feliz com crianças a brincar, o trabalho é para homens e mulheres.
      Um dia fui preso por andar à pendura nos eléctricos. Foi de manhã, na Av. Alm. Reis-Lisboa quando ia trabalhar. Na Esquadra disse que era para chegar a horas ao emprego.
      Ah, já trabalhas? Vai lá embora e não voltes a repetir, disse-me o policia e assim não paguei 90 escudos de multa.

      1. Fora das grandes cidades, ou se tinha dinheiro para se mandar os filhos estudar, ou iam para o seminário ou iam trabalhar para as cidades grandes, como o meu rapaz, que só teve oportunidades de estudo quando chegou a Lisboa. Começou a descontar para a Caixa com 13 anos, por isso pôde pedir a reforma aos 60, não por limite de idade, mas pelos anos de descontos.

      2. Começou a trabalhar com doze anos e com desconto para a Segurança Social. Era a idade mínima. Então e os tantos que trabalhavam por quantias irrisórias, em idade inferior à idade mínima, sem descontos, como se não existissem nas unidades fabris. As garotas que alguém sentava sobre as mesas por serem tão pequenas que ali não chegavam sentadas em bancos, e que eram aproveitadas para limpar peças onde só os seus deditos de três e quatro anos cabiam. Gente que fazia chichi sobre as mesas por não ter quem as descesse ou lhes acudisse. E quanto mais deve ter havido e estar hoje documentado por testemunho próprio. O atropelo dos direitos humanos é sempre atropelo. Mesmo existindo casos e acasos em que o fim tenha sido menos mau, há que lutar pelo que consideramos justo. Toda a pessoa tem direito a ser criança, até porque o futuro depende delas.

      3. Quanto ao ensino nocturno: pois, como disse, estarei mal informada sobre os pontos onde existia. Mas, como está mais informado(a) que eu, pode por exemplo dizer-me onde? É que o fulcro não é a sua não existência, mas a falta de disseminação desse tipo de ensino e do apoio que necessita para poder ser frequentado. Os trabalhadores trabalhavam de sol a sol, viviam longe dos trabalhos e percorriam vários quilómetros antes do nascer do sol. Os pontos do tal ensino nocturno deviam existir nas cidades, suponho. Não havia a variedade de transportes públicos e nem pessoais que hoje existe; as gentes chegavam exaustas a casa e ainda se agarravam a tarefas que podiam dar mais uns tustos, descascar pinhas e partir pinhão por exemplo. Fora dos benefícios de proximidade a uma cidade grande, era impossível prosseguir estudos, nem sequer sobrava verba para cadernos quanto mais para livros ou transportes. Nós dois não nos referimos ao mesmo país.
        Tenha um dia bom.

  2. deitado cada vez mais em voga num mundo sem lei nem roque
    « o trabalho do menino é pouco,
    mas quem o perde é louco»
    como povo gostamos de ser cavalgados pelo ps
    de cócoras falta-nos:
    JEAN-LUC MÉLENCHON – La France Insoumise
    Henry David Thoreau – Desobediência civil

  3. Não sei o que é que é pior, se um trabalho infantil ligeiro ou uma infância ociosa agarrada ao telemóvel ou ao computador.
    Comecei a trabalhar com 14 anos e nunca me senti diminuido por isso.
    O que deveria ser eliminado era a exploração infantil assim como todas as formas de exploração.
    O trabalho infantil até beneficia a própria criança a ter mais concentração e a ser mais responsável.
    Acho que não se devia diabolizar o trabalho infantil.

    1. Creio que toda a gente teve um part time em adolescente, para ganhar uns cobres para as férias. Isso era um trabalho gratificante, que se fazia de bom grado e com um objectivo. Ninguém nos obrigava a trabalhar de sol a sol, como acontece nos países que manufacturam artigos para as grandes marcas mundiais e onde a mão de obra é a preço de banana, passam dias sem comer e se reclamam, apanham. É lá isso vida para uma criança? Em que espécie de ser humano se irá tornar? Para eles a doces memórias da infância são os mais tristes pesadelos.

      1. Concordo, mas isso é exploração não é trabalho.
        Costumo frequentar um restaurante em que os filhos do dono, agora com doze anos, quando não têm aulas e nas férias, estão a ajudar os pais a pôr as mesas e a servir os clientes. E é ver a cara de satisfação dos miúdos por estarem a fazer trabalho de adultos.
        Será preferível ver, como eu já vi, um miúdo de quatro ou cinco anos ensimesmado à frente de um telemóvel? Será melhor essa vida para uma criança? E qual será a espécie de ser humano que vai surgir dali?

        1. Creio que a efeméride vai mais no sentido da exploração do trabalho infantil, Carlos. Eu tantas vezes entreguei os fatos que a minha mãe costurava, às senhoras do Restelo depois de vir da escola! Ficava derreada dos braços mas as gratificações eram, como dizer… gratificantes?
          As crianças têm que ter regras. Para os tablets/smartphones é uma hora por dia. Ponto. É surreal ver até que ponto ficam alienados do que se passa em seu redor durante essa hora, por isso não se pode facilitar.

      2. Julgo que na Noruega faz parte do currículo do ensino primário, as crianças nas férias irem trabalhar nas fábricas de peixe arrancando a língua ás cabeças de bacalhau, e até ganham um salário em conformidade com as línguas cortadas.

        1. É uma excelente prática! Dá à crianças uma ideia do que são responsabilidades e valores. Mas como disse e muito bem, são trabalhos sazonais provavelmente sem grande carga horária e com um objectivo definido. É um costume que se segue com alegria. Não há obrigação, pressão ou abusos.

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