Esta noite sonhei com calor


Maria Dulce Fernandes,

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Odeio o calor! Alguém que possa ler estes escritos pensará seguramente que estou completamente louca. Haverá porventura quem goste do Inverno, do frio, do vento e da chuva?! EU gosto.

Prefiro mil Invernos com temporais tenebrosos a um dia com temperaturas superiores a 30 graus, sem sopro de vento e com o sol a gritar o nosso nome em plenos pulmões na sua voz muda. A rua está quente, a casa está quente, o trabalho parece o inferno, o corpo está quente, e até as bebidas frescas nada têm de refrescante, pois parece que nos deixam ainda mais quentes. A roupa parece que é feita de goma, a pele transpira cola, e a produção elaborada do rosto parece o caudal lamacento que escorre da montanha depois duma abundante chuvada.

Quando eu era miúda, saíamos da escola dois dias por semana á tarde, entre Março e fins de Maio, para lanchar uma merenda e fazer ponto cruz no Jardim Botânico. As tardes eram amenas, o vento, uma carícia, cheirava a flores e a erva fresca – eram maravilhosas tardes de Primavera, estação do ano que já pertence à categoria dos exterminados, como o pássaro Dodô, por ter sido uma das primeiras vítimas do Efeito Estufa. Passámos a ter outras quatro estações: Verão, semi-Verão, Inverno e Inverno-sem-chuva.

O frio do Inverno é controlável pela maior ou menor quantidade de roupa, agora a torreira do Verão, controlamos como? Terá Deus querido castigar a humanidade por ter cometido o Pecado Capital (… Quem nunca comeu um raio duma maçã, que atire a primeira pedra…) e relegar-nos á nossa condição de descendentes de Adão e Eva, deixando-nos uma vinha estéril para usarmos só as folhas??

Sem conseguir responder aos angustiados pensamentos que me assolam, vou buscar os meus leques, companheiros inseparáveis das longas horas de Estio em vigília à alvorada, e preparar-me para mais uma noite insone, reconfortando-me a ideia de que se houver realmente Céu e Inferno, certamente iremos no elevador que sobe ou no que desce, não ficaremos seguramente a meio do caminho, pois no Purgatório já andamos há algum tempo.  

38 comentários em “Esta noite sonhei com calor”

  1. adoro o calor em qualquer época do ano.
    no inverno reclamo em vão a minha parte do aquecimento global.
    em jovem adorava dormir a sesta em casa ou no campo numa ‘malhada’

    1. Realmente é verdade.
      Diz-se quando não chove que está bom tempo. Mas, se assim acontece por alguns meses, diz-se que vai ser um ano de fome.

  2. Todo o texto é bom, mas o segundo parágrafo é mesmo um delírio, Dulce. Na mouche!
    Tenho a impressão de que, quanto mais os anos passam por nós, mais sofremos com o calor. Ou é do efeito de estufa. Ou tudo junto. Também não dei conta da Primavera.

    De facto, de nada adianta tomar bebidas frescas. Eu bebo a água sempre natural e chá morno (as infusões de ervas também sabem bem mornas). Nada de gelos, é um engano. Mas é conveniente ingerir muitos líquidos.

  3. “«Egli è pur certo che l’ordine antico delle stagioni par che vada pervertendosi. Qui in Italia è voce e querela comune, che i mezzi tempi non vi sono piú; e in questo smarrimento di confini, non vi è dubbio che il freddo acquista terreno. Io ho udito dire a mio padre, che in sua gioventú, a Roma, la mattina di pasqua di resurrezione, ognuno si rivestiva da state. Adesso chi non ha bisogno d’impegnar la camiciuola, vi so dire che si guarda molto bene di non alleggerirsi della minima cosa di quelle ch’ei portava nel cuor dell’inverno».

    Questo scriveva il Magalotti in data del 1683.”

    Pensieri de Giacomo Leopardi (29 June 1798 – 14 June 1837)
    Capitulo XXXIX

      1. Não sei. É certamente possível mas não será a única razão. Por exemplo o clima é também cumulativo, o que aconteceu afecta o futuro.
        Como exercicio se fosse possível desligar os ventos no planeta durante 1 minuto quando se voltasse a ligar a circulação voltaria a ser a mesma?

        1. Desligando os ventos alteravamos a resistência da terra ao seu movimento, pelo que creio que voltados a ligar, a circulação seria também afectada. Pelo menos dá que penar o que é muito positivo.

  4. “..pássaro Dodó..” , pássaro Dodó?
    Então foi exterminada uma ave pequena, comenta quem desconhece o extermínio à paulada do passarão com cerca de 25 quilos. Coitado do Dodó nem precisava de asas para voar por não haver ninguém que lhe fizesse mal, e não sabia que havia o homem.
    Visitar Évora com 40º de dia e 28º à noite, só se está bem dentro das igrejas e dormir dentro da banheira por causa do calor.

      1. A avestruz é uma ave, mas não é um pássaro.
        Um pássaro é uma ave pequena, e o dodó era uma ave grande, quando muito seria um passarão.
        Á paulada, exatamente.
        Os marinheiros, talvez portugueses que foram os primeiros a pisar a ilha Maurícia, a seguir aos árabes, utilizaram paus para caçar aqueles “pombos” enormes que ficavam quietos a olhar para eles. Sendo a carne muito apreciada, foi utilizada para a alimentação fresca, que com a passagem dos navios mais os foram caçando até à extinção.

        1. Aplica-se a propriedade transitiva : Se a avestruz é uma ave >> um pássaro é uma ave >>> a avestruz é um pássaro. Pronto.🙄🙄
          Os meus comentadores Anónimos têm tanta vontade de ser do contra que lêem tudo na transversal.

          1. Tem que ver com a classificação das espécies. Por exemplo um pombo não é do ramo dos pássaros(Passerea). Vem do ramo irmão Columbofilo. Se não se quiser dizer asneiras empregue-se sempre a palavra: Ave.
            Avestruz é uma ave mas não é um pássaro é um paleognata! 🙂

          2. O Dodo não tem que ver com as avestruzes, é da familia dos pombos.
            Reino: Animalia
            Filo: Chordata
            Classe: Aves
            Ordem: Columbiformes
            Família: Columbidae

          3. Desculpe-me, Maria Dulce Fernandes
            Não tenho vontade nenhuma de ser do contra, provavelmente não estará a perceber a minha observação. Ou melhor dizendo a observação da minha neta neerlandesa e ornitóloga.
            Ela está sempre a traduzir tudo do português para neerlandês e chamou-me a atenção no caso o “pássaro dodó”.
            Opa, de dodo is geen vogel = Avô, o dodó não é um pássaro.
            Mas, tem patas de pássaro, adiantou em português como ornitóloga.
            E foi arranjar a explicação cientifica:
            Patas anisodáctilas
            A configuração típica da pata de uma ave, com quatro dedos no total sendo o hálux (primeiro dedo) orientado para trás, e os outros três para a frente. Esta disposição é comum em Passeriformes (os pássaros, como melros, chapim-azul, pardais, entre outros), as pombas (Columbiformes), falcões (Falconiformes), entre muitas outras aves. Possuem um hálux muito forte, que lhes permite empoleirar em galhos confortavelmente.
            O dodó tem quatro dedos, embora não voe e não se empoleire, mas por ser da família das pombas.
            Um avestruz é uma ave com dois dedos nas patas e, assim, mão pertence à ordem os pássaros.
            A minha neta está agora comigo, depois de ter estado quatro dias na Ponta da Aspa (Vila do Bispo) e vai seguir para o Parque de Doñana (sul da Espanha) para passar lá duas semanas e voltar aos Países Baixos.

          4. Não sendo eu ornitológica nem especialista em espécies extintas, agradeço a explicação pormenorizada , com um grande beijinho para a neta – um aparte apenas para referir que os netos são o melhor do mundo – e votos de boas férias.

  5. Não gosto do tempo muito quente! Evite-o, sempre que posso. Felizmente, vivo num terra que não é fria de Inverno(?) nem demasiado quente no Verão. Há cinco “estações” de duração diferente, num ano civil: uma moderada, que decorre de meio de Janeiro a fim de Março; uma quente de Abril a fim de Maio; uma muito quente de Junho a meio de Outubro; novamente uma moderada, de meio de Outubro a meio de Dezembro e uma mais fria, de meio de Dezembro a meio de Janeiro. Hoje, quando há previsão de chuva (ou melhor, tempo não seco) é notícia.
    João Moreira

    1. O problema é que este ano, a previsão de chuva ficou-se por isso mesmo, uma previsão. Era suposto haver uma metodologia científica nestes vaticínios, mas a chuva só lhes tem pregado rasteiras.

  6. Odeio o calor! Não se vê vivalma na rua. Nem sequer passa um cão…
    Um silêncio de sepulcro, mesmo para quem gosta de sossego. Acima de 22 graus já é quente, acima de 30 é insuportável.

  7. O que verdadeiramente me incomoda é a humidade. Odiei parte de um Inverno no Porto e resisti bem a Novembro e Dezembro no Marão. Estive razoavelmente bem no Cuando-Cubango e no deserto de Moçâmedes com temperaturas a roçar e ultrapassar os 40º, e péssimo na Guiné com – nas épocas de transição – 32/33 de dia e 28/29 à noite.
    A humidade estava sempre no ponto de saturação e a descida noturna, mesmo de 2 graus que fosse, encharcava tudo, roupa, lençóis, etc.. Não podia escrever sem uma folha de papel grosso ou cartolina para evitar o contacto da mão com o papel. Mesmo que lavasse as mãos, antes de me sentar de novo já estavam transpiradas.
    Mas é certo que, com a idade, o intervalo de temperatura em que me sinto confortável, tem vindo sempre a diminuir. Agora lembro-me frequentemente de um tio que me dizia que, com a idade, a primeira coisa a avariar-se era o termostato.

    1. Aqui em Lisboa é abafado, mas não é irrespirável.
      Da primeira vez que levei a minha filha mais velha a visitar a família no Rio de Janeiro, ela passou mal no avião. Enjoou devido à turbulência e levámos uma data de horas de saquinho na mão. O voo fazia escala técnica em Curitiba, por isso não era permitido sair do avião. Mesmo assim, resolvi pedir a um dos comissários para nos deixar, a mim e à garota, para irmos lá fora “apanhar ar”. Olhou para mim com se eu fosse louquinha, mas como insisti, deixou-nos sair. Lá fora estava tão quente e húmido que faltava o ar e em quinze minutos voltámos com a roupa colada ao corpo. Foi bem pior a emenda do que o soneto.

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