Heidi já não mora aqui


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2012 foi o ano em que morreu o meu pai. Assim, sem mais, deixando-me esta papaia na garganta a qual não há maneira de escorregar, e já correu um ano inteiro. Depois, meses depois, morreu o meu sogro. De repente, inesperado. A devastar a Inês, a alquebrar-me. Velhos já, octogenários, idosos como se diz dos burgueses – ambos “senhores engenheiros”, daqueles dos anos em que “engenheiro” era engenheiro… Por isso, por acabrunhados sem o dizer, por doridos, este Natal, esta quadra, mudámos, cedemos, voámos para a família, para o frio, para o nosso Portugal, lamentando toda esta década e meia de vida dos nossos mais-que-queridos que perdemos, e como se assim recuperássemos algo do irrecuperável, dos nossos mais-velhos que não mais veremos (ou só em sonhos, como hoje, na sesta, raisparta, a acordar para as lágrimas, esquivas, do desencanto).

Nisso da nossa Lisboa, a qual afinal já estranhamos (“pai, por que é que há tantos velhos em Portugal?“, pergunta-me a Carolina, nos seus dez anos tão estupefacta naquele eixo geronte entre o Olivais salazarista e a Av. de Roma salazarenta), fugimos com amigos queridos e “dos tempos”, também eles emigrantes de longo termo, até mais do que nós, que até os há, e estes bem mais lá para o Norte rico, mas também eles com esta estranheza indita aquando em casa – e ainda é casa, pois o exigimos a nós-próprios. Avançamos, como se festivos, claro, os miúdos todos juntos a alegrarem-nos, para sul, para a nossa costa, quando nos namorávamos, nós então cerca de Alzejur, os outros por ali mais ou menos. O último ali que valeu a pena antes deste Índico que me aprisionou, esta paixão sem metáforas, sem rodeios, sem merdas.

Odemira é como alguns chamam ao gelado atlântico que nos acolheu. Estou na sua costa, a tiritar, em busca de um medronho que me aqueça – pois não se está ali perto de Monchique?, a terra do verdadeiro hidromel? – e deparo-me com um imigrante, este vindo do norte, bem-posto. E logo brota a solidariedade imediata, sabemos nós bem como e quanto, entre quem vive entre aqueles que se julgam outros. É ele que me (nos) leva até aos medronhos e conta-nos o como dele por ali. Que trabalha naquela Odemira, mas a dos montes, a do mato chamo-lhe eu em tom cúmplice. Serviço social, diz-nos, supreendendo-me nestes tempos da raiva egoísta, mercantil. Trabalha com velhos, percorre a área apoiando os aqueles solitários, e aqui não há idosos, são velhos mesmo. Centenas deles, com-abrigo sem-família, diz-nos e traduzo-o assim, por esses montes do interior. 60% não  tem casa de banho em casa, a maioria não tem água corrente nem electricidade, e narra a coisa que faz com aquele tom doce que eu uso ao falar dos distritos daqui, para os aguentar, para não gritar a des-graça deste mundo sem graça. Lamenta-se um pouco, sem ênfase, sem nenhum mais, pois sem recursos e com distâncias para percorrer (sorrio, como se no nosso rincão houvesse distâncias…) não consegue(m) aceder a mais de meia dúzia de casas por dia, nisso um constante défice da acção devida, do socorro desejado, esse às vezes, tantas vezes, apenas um pouco de atenção.

 

Depois, já na Vila Nova das milfontes, à mesa, farta, saborosa, bem bebida, naquilo do já me chegar eu a trôpego, lembro-me da Heidi – o livro que quase ninguém leu, a série de animação que a minha geração adorou. Naquela Suíça montanhosa, pobre, “bárbara”, por evangelizar, e nisso tão marcando as igrejas protestantes lá germinadas em XIX, aquela Suíça rural tão bem descrita por Patrick Harries na sua extraordinária biografia do gigante etnógrafo do sul de Moçambique e nordeste da África do Sul Henri Junod, o “Junod e as Sociedades Africanas. Impacto dos Missionários Suíços na África Austral” (sim, nunca editado em Portugal, coisas do paroquialismo tétrico do mundo da lusofonice). Sei, percebo, já discorro, quase sem rumo, como se ainda estivesse à mesa, entre aguardentes. Mas relembro a Heidi dos desenhos animados, a menina orfã (mãe vítima de uma qualquer tuberculose? sífilis não foi, que a moral literária não deixaria) levada pela jovem tia, recém-empregada na cidade (prostituta não era, julgo que alguma honesta aprendiz de artifício manual, ou só operária, ou mesmo criada de servir, de fora, claro), para casa do velho avô, este qual urso maldisposto na montanha, hibernando de afectos, até temido pelos aldeões do sopé. Afinal, crosta quebrada, um doce de homem, apenas ferido pela solidão, e o qual dará à menina Heidi a sua mimosa experiência de boa selvagem, entre cabritos e pastores, afectos e prazeres. Coisa falsa, claro, Condessa de Ségur em regime de “pastoral”. Mas coisa vera, claro, se quisermos viver, essa dos afectos vividos ou sonhados.

Lembro isso neste fim do ano, após o Natal. Aquela Heidi. E todos estes velhos das odemiras, nos montes, sozinhos, inconfortáveis, deixados para trás pelas suas “tribos”, pelos seus “clãs”, pelos “seus”, estes todos amancebados nos feijós, rios de mouros e barreiros, nos seus sonhos de não sei o quê. Pois a Heidi já não mora aqui.

Eles exactamente tal e qual eu próprio, no meu Maputo, nos meus maputos. Deixando os meus mais-velhos para trás. E roubando-lhes a presença. Do sorriso da Heidi. E, até, da minha carantonha. Nos meus sonhos de não sei o quê. Lembro tudo isto. E degluto a aguardente.

[O meu obrigado ao Pedro Correia pelo convite para me juntar ao Delito de Opinião. Um blog de gente.]

44 comentários em “Heidi já não mora aqui”

    1. Como pus acima, no postal, e abaixo (esquecido desta modalidade Sapo de resposta individual aos comentários) [tri]agradeço o convite que me fizeste para aqui botar

  1. Muito bem…uma concjetura do tempo,da vida e dos sentimentos de idialogias e utopias sociais.
    emma poitevin

  2. Ainda nem acredito, de tão relapso que costumo ser, que sou o primeiro, de nós, a dar as boas vindas. Que ficam dadas, com especial vigor pelo complicado ano que passou e com a certeza de que são textos destes que me obrigam a arranjar espaço na gaveta para onde regressam alguns dos que tinha por aqui em a arejar em rascunho.
    Um abraço, pois!

  3. Um blogue de gente com muito gosto em receber-te. Grande estreia, a prometer muito. Desejo-te o mesmo que a todos os que entram de novo: diverte-te por cá, e muitos post de vida.

    1. Estou a agradecer. Enchamos a vida de postais. É um desígnio que nos fica bem, concordo. E alia-se bem à necessária diversão, “irresponsabilidade” bloguística que muito gosto

  4. Com este texto voltei aos meus verões. Verões passados na aldeia dos meus avós, Alcafozes, na Beira Baixa. Verões quentes e secos. Temperaturas escaldantes que hoje me custam aguentar, mas que à época o corpo franzino de um primário adolescente aguentava sem sequer reparar no calor. Os finais de tarde em que a minha avó, a única que me sobra nestes dias, regava o largo defronte da casa, o cheiro a terra molhada que só consigo associar a Alcafozes, esse cheiro intenso que absorvo cada vez que o sinto que me transporta anos e anos atrás, às memórias dos verões. As tardes passadas em cima da bicicleta, roda vinte e seis de ciclista, correrias pelas estradas desertas de alcatrão que derretia com o calor e usávamos para servir de travões na jante da bina, com primos e amigos que também eram primos, numa aldeia onde todas as famílias, de uma forma ou de outra, estão ligadas. O meu tio hoje velho e calado a levar-nos pelos campos de tractor até à “sorte” dos meus avós, onde estavam os porcos as galinhas os coelhos e por vezes umas ovelhas, o cão de guarda, arraçado de serra da estrela, que quando chegou a nós era uma bola de pelo, ficou o bolinhas, um bisonte de sessenta ou setenta quilos que era o bolinhas, saltava muros de dois metros para ir às cadelas. As noites quentes, imensas e dormidas muitas vezes no terraço a céu aberto, um céu só visto nas aldeias, com todas as estrelas a chamarem por mim, eu a querer saber os nomes e o meu pai a ensinar-me os nomes, a ursa maior e menor, a apontar ao céu, ali e ali, a estrada de São Tiago um caminho que para mim era só meu, pois se tinha até o meu nome, e adormecer assim. Tempos que não voltam, mesmo regressando “à terra” ano após ano para ver e ouvir a minha avó hoje sozinha que o homem dela, o meu avô já partiu, esses verões ficaram onde afinal têm mesmo que ficar, ficaram dentro de mim, em mim. Resta a saudade

  5. Eu amo os meus mais-velhos, já são meia dúzia, assim como os meus mais-novos, com muita presença, quase 24 horas por dia … mas eu não sou nada …
    Obrigada pelo que escreveu, é lindo! A Heidi, é uma excelente recordação, um miminho!
    Quando passar aqui pelo norte, com a sua família, tem companhia para a aguardente. 🙂

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