“La libertad cuesta muy cara, y es necesario, o resignarse a vivir sin ella, o decidirse a comprarla por su precio.”
José Martí
“Dentro de la Revolución todo; contra la Revolución, nada.”
Fidel Castro
Fala-se muito da privação dos direitos políticos em Cuba, submetida desde 1959 à férrea oligarquia dos irmãos Castro. Fala-se muito menos da repressão cultural na ilha-prisão, onde escritores, poetas e artistas tão diversos como Cabrera Infante, Virgilio Piñera, Nestor Almendros, Carlos Franqui, Jesús Díaz, Reinaldo Arenas e Heberto Padilla se viram condenados consecutivamente ao silêncio, à prisão ou ao exílio por ousarem desafiar os dogmas do regime. Houve já quem chamasse “genocídio cultural” ao meio século de tirania comunista que impõe a lei da mordaça a um povo que é, como poucos, vocacionado para a liberdade.
Pensei nisto há dois dias, ao tomar conhecimento de que um dos mais geniais pianistas do nosso tempo nos disse adeus. Era Bebo Valdés, falecido aos 94 anos após mais quatro décadas de exílio voluntário. Foi um dos reis da noite de Havana nos anos 40 e 50, tendo chegado a actuar com Nat King Cole. Quando os barbudos de Castro desceram a Sierra Maestra, substituindo uma ditadura por outra de sinal contrário, ele fez uma declaração que viria a condená-lo ao ostracismo: “Sou neutral em matéria política.” Uma frase destas bastava para que lhe pusessem o rótulo de contra-revolucionário.
Quando Fidel mandou expropriar os 955 bares e cabarés existentes na capital cubana, em Março de 1968, Bebo percebeu que era tempo de partir. A mãe fê-lo prometer que não regressaria enquanto vigorasse a ditadura e ele cumpriu a promessa: disse adeus à ilha, tornou-se cidadão do mundo. A Havana que transportava consigo era uma Havana mítica, há muito sepultada na poeira da memória.
Bebo imprimiu à sua música a inconfundível nostalgia do exílio, latente em cada acorde que colhia do piano. Como ele, muitos outros acabaram a espalhar o som cubano pelas rotas do desterro.
Castro, implacável, proclamou que a arte teria de ser posta ao serviço da revolução, começando por proibir os cubanos de escutar os Beatles. De proibição em proibição, todo o som dos exilados acabou por ser alvo da censura oficial na rádio e na TV. Três gerações da ilha foram assim impedidas de ouvir o intérprete de La Comparsa. E também Celia Cruz, a rainha da salsa – que a Billboard Magazine chegou a considerar “a mais influente figura feminina da história da música cubana”: exilada em 1959, nunca mais regressou à sua Havana natal. E Olga Guillot, a rainha do bolero, que partilhou palcos com Frank Sinatra: partiu em 1961 sem olhar para trás.
É enorme a legião de músicos ou futuros músicos cubanos que a revolução castrista expurgou. Inclui o trompetista Arturo Sandoval, exilado em 1990 durante uma digressão em Espanha com Dizzy Gillespie. Cachao López, um dos mestres do mambo, que rumou em 1962 para os Estados Unidos numa viagem sem regresso. Willy Chirino, que partiu em 1960, ainda adolescente, e hoje é um dos mentores do movimento pacifista cubano Eu não coopero com a ditadura. Gloria Estefan, que já vendeu mais de cem milhões de discos, permanece longe do país natal, onde nasceu há 55 anos. Paquito d’Rivera – provavelmente o melhor saxofonista contemporâneo – pediu asilo político aos EUA, em 1981, quando se encontrava em solo espanhol: o jazz, sua especialidade, era considerado “música imperialista” naqueles anos de chumbo do regime.
Votaram com os pés, abandonando um regime que os oprimia. Cada qual a seu modo, todos sabiam que a criação artística é inseparável da liberdade.

Belo postal
Abraço amigo, caro JPT.
a ilha-prisão
Que designação disparatada.
Hoje em dia qualquer cubano pode sair de Cuba e voltar a entrar nela à vontade.
Mesmo no passado, um cubano podia livremente sair de Cuba, tal como aliás neste post se refere que Valdés fez em 1968, embora depois pudese ser difícil voltar a entrar.
Portanto, Cuba certamente não é uma prisão.
«Tiene apenas treinta y dos páginas y una sobria cubierta azul. El pasaporte cubano parece más un salvoconducto que una identificación. Con él podemos saltarnos la insularidad, pero su tenencia tampoco garantiza que logremos tomar un avión. Vivimos en el único país del mundo donde para adquirir dicho documento de viaje hay que pagar en una moneda diferente a la que se reciben los salarios. Su costo de “cincuenta y cinco pesos convertibles” significa para un trabajador promedio guardar el sueldo íntegro de tres meses en aras de conseguir ese librito de filigrana y hojas numeradas.»
Yoani Sánchez, Generación Y (Janeiro 2011)
e lembro-me daquela (reaccionária?) vaga de boat people, quando foi incrementada a total liberdade de viajar …
Faz agora 23 anos. Na Páscoa de 1980, a embaixada do Peru em Havana ficou dois dias sem vigilância: nesses dois dias, dez mil cubanos entraram nas instalações da embaixada, pedindo asilo político.
Nos seis meses seguintes, entre 15 de Abril e 31 de Outubro de 1980, Castro permitiu a abertura do porto de Mariel a barcos oriundos dos EUA. Nesse período, 125 mil pessoas abandonaram a ilha-prisão. Os que não puderam ir de barco partiram em jangadas improvisadas. Iam de qualquer maneira.
Foi um autêntico plebiscito contra o castrismo. Esses cubanos votaram com os pés. Entre eles encontrava-se Reinaldo Arenas, estigmatizado por seu ‘gay’ num país em que a homossexualidade era considerada doença mental. Uma prisão dentro da prisão.
Faz agora 23 anos
Pois, mas aquilo que acontecia há 23 anos não acontece agora.
E já em 1968 – há 45 anos – Valdés pôde perfeitamente sair de Cuba.
33 anos (23 foi gralha). De Cuba só se pode sair não voltando. Como aconteceu com Bebo.
É ridículo equiparar o preço de um documento a uma proibição legal.
Ridículo é dizer que Cuba é um país livre. Informe-se. Leia os documentos da Amnistia Internacional, por exemplo.
Pode começar por este:
“Fundamental freedoms still lacking in Cuba”
“The authorities remain determined to contain government critics with new tactics, including intimidation, harassment,
multiple short-term detentions and restrictions on movement to stop them from carrying out their
activities or as retaliation. (…) The
Cuban government continues to maintain a swathe of laws aimed at preventing political dissidents and human rights defenders from exercising their freedom of expression, association and assembly.”
Eu não disse que Cuba é um país livre. Você parece o D. Quixote a acometer contra moinhos de vento. Acalme-se!
Eu só disse que, atualmente, Cuba não é uma prisão.
Antes ser Quixote do que um Sancho castrista a inventar subtilezas semânticas entre “não ser livre” e “estar na prisão”. Se vivesse no tempo do Salazar você diria que Portugal era um país livre.
Belo texto, bela homenagem aos artistas que a ditadura cubana obrigou, estupidamente, a exercer a sua arte fora do seu próprio país. O Bebo Valdés era muito grande. E que maravilhosa foi esta associação com o Cigala! Juntos inventaram um “My Way” inesquecível.
Inesquecível é a palavra certa, Ana. Se existe música tocada pela magia é seguramente esta.
Bela homenagem a Bebo, mas também aos outros artistas expatriados que citaste, um festival de talento.
Só a música cubana rivaliza em variedade e talento com a brasileira, Teresa.
Infelizmente muitos dos músicos cubanos, nas últimas décadas, tiveram de sair do país para poderem criar livremente. Algumas formas musicais, brindadas com impensáveis rótulos – “burguesas”, “decadentes”, “imperialistas” e disparates do género – chegaram a estar banidas pela ditadura (que proibiu até a música dos Beatles!), que condenou muitos músicos a décadas de ostracismo e silenciamento. O belíssimo documentário de Wim Wenders ‘Buena Vista Social Club’ documenta bem isto.