
Volta e meia surgem relatórios, estatísticas, ensaios sobre as “práticas culturais” dos portugueses – nesta era em que a “Educação para Cidadania” liceal impinge aos petizes o mito do “empreendedorismo” passou-se a chamar-lhes “consumo cultural”. Nos cabeçalhos e nos rescaldos dessas apresentações surgem sempre quase escatológicos bramidos sobre a escassa leitura que os compatriotas praticam, que seguimos alheios aos livros. Logo vários apontam uma causa fundamental para tal “défice”, o elevado preço dos livros… Pois julgo que “há vida para além do défice”.
A semana passada fui até à capital e cruzei uma “Feira da Bagageira”, realizada lá na minha freguesia. Há quem nelas queira recordar aquilo da velha Feira da Ladra, na qual vendi penduricalhos em 1980-1. Mas estas são cinzentas sequelas, sem o fervilhar até boémio e com pitadas de marginalidade daqueles tempos da Feira, na algazarra de amontoados de quase-tudo à disposição dos porta-moedas de aficionados, amadores, antiquários ou meros passeantes.
O que agora vi foram monótonos mostruários de um fim de era: vendedores modorrentos, encanecidos quase todos, e de ares entristecidos mostrando uns cabides de trapos de contrafacção, alguns fingindo-se “vintage” por usados que já surgem; várias resmas de LP’s, esses que todos outrora acumularam e que julgam serem agora apetecíveis a uma (já extinta) febre “retro” de vinil; vasilhame variado e demais adjacentes, loiças que de típico só lhes sobra o piroso; alguns metais incógnitos – na excepção de um idoso que ainda apresentava uma fileira de velhas moedas (prenúncio de que um dia se venderão velhos cartões “multibanco” nestas feiras?). As bancas mais animadas, e nisso decerto que lucrativas, eram as dos eternos “comes e bebes”, a bifana, a febra, presumo que o coirato, que esses não passam de moda, e felizmente, mais as sacrossantas “minis”.
E no meio de tudo isto, bem visíveis pois quase banca sim, banca sim, lá estavam os caixotes de livros usados à venda. Pilhas e pilhas. Das edições populares desde os 1960s até agora mesmo. De usados mastigados até usados virginais, manuais decrépitos, banda desenhada popular, dicionários e enciclopédias agora inúteis, livros de bolso da Verbo, da RTP, do Público e tantos outros, ainda um ou outro sobrevivente do PREC – do Engels a Franco Nogueira -, cosmética e “cosmologia”, tratados “ajuda-te a ti mesmo” e os de “auto-ajuda” mais recente, talvez mesmo o Dale Carnegie mas este não afianço, as “obras completas” de Júlio Dinis, Eça de Queirós, e as “incompletas” de Victor Hugo em especiosas edições de capa dura, cores berrantes e debruadas a doirado, que tão bem fica(va)m nas estantes quando estas ainda existiam, Hupert Reeves e Carl Sagan, histórias universais e locais. E continue quem quiser a dar exemplos que de tudo se poderá encontrar…
Tudo isto a 33 ou 50 cêntimos o livro. Alguns, repito, algo escafiados. Outros intocados, após décadas de distraídas prateleiras. Enfim, a gente não lê porque não nos apetece. E não nos chateiem por causa disso.

E temos uma rede de bibliotecas municipais invejável! E gratuita.
Exactamente.
Ainda estou para descobrir o bloguista que, na sua adoração pelos livros e na militância pela leitura dos mesmos, reconheça, com um mínimo de coerência, que não serão totalmente estúpidos os que optam por gastar tempo a ler o que ele (e outros) vai escrevendo na blogosfera…
Camarada coordenador, chamo a tua atenção para este comentário. Pois ainda há quem conteste a qualidade dos comentários anónimos que aqui são recebidos… e depois surgem certeiros como este…
Devidamente registado. Sério candidato a Anónimo do Mês.
Nem mais…
As feiras de velharias/antiguidades/usados tornaram-se medíocres e em espaços onde se vende simplesmente lixo – no verdadeiro sentido da palavra – sem qualquer utilidade, proveniente de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), Associações, comerciantes/feirantes de velharias, antiguidades, alfarrabismo, etc., que despacham assim o que não lhes interessa.
Junte-se a isto o mau-ambiente fruto da ineficaz fiscalização desses eventos, gerado pelos chuléticos parolos que lá andam.
também não é preciso ser tão azedo, caramba…