Há males que vêm por bem


Pedro Correia,

Na livraria do costume, no centro de Lisboa, folheio algumas novidades literárias. Há um livro sobretudo que me prende a atenção: E a Noite Roda, romance de estreia de Alexandra Lucas Coelho. Antes de mais pela autora, uma jornalista cujo percurso há muito acompanho e admiro – primeiro na rádio, depois na imprensa. A seguir, pela capa: acho-a excelente. E, claro, pela chancela editorial – é um lançamento da Tinta da China, uma das melhores editoras portuguesas.

Leio algumas linhas das páginas iniciais, como também sempre costumo fazer. A surpresa não é grande, mas nem isso evita a decepção: o livro está impresso em acordês. Logo me lembro das palavras certeiras de um texto de Luciano Amaral, lidas há dias, no Diário Económico: «O Acordo Ortográfico baseia-se num princípio contraditório: uniformizar a partir da fonética. Ora, precisamente, a fonética divide mais do que unifica. É por isso que os portugueses devem passar a escrever ‘receção’ mas os brasileiros continuam com ‘recepção’, o mesmo acontecendo com ‘exceção’ e ‘excepção’, e muitas outras. A escrita portuguesa e a brasileira não vão ficar unificadas. No final, em termos estritamente ortográficos, o Acordo não é bom nem mau, ou pelo menos é tão mau como o que existe. É mau porque inútil e desnecessário: não resolve nada e unifica pouco. E sobretudo é mau por introduzir confusão onde os escreventes de português tinham já encontrado alguma estabilidade. Com tanta coisa para nos preocupar, ainda faltava começar a dar erros sem na verdade os dar.»

Resultado: restituo o romance ao seu lugar no escaparate. Por sorte a secção de livros usados está cheia de boas “novidades”, a preços módicos. Trago três – tudo ficção estrangeira traduzida para português por escritores que tinham que recorrer às traduções para ganhar a vida. Foi assim que Jorge de Sena traduziu O Fim da Aventura, de Graham Greene, Adolfo Casais Monteiro traduziu O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, e José Rodrigues Miguéis traduziu O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald – entre muitos outros exemplos.

O que trago desta inesperada colheita? As Torrentes da Primavera, de Hemingway, edição Minerva (um exemplar da célebre colecção Miniatura) com tradução de Alexandre Pinheiro Torres. O Pão da Mentira, de Horace McCoy (um romance de um autor hoje totalmente esquecido que li na adolescência e me deixou deslumbrado), com tradução de José Cardoso Pires. E A Centelha da Vida, de Erich-Maria Remarque (primeira edição portuguesa, das Publicações Europa-América, com data de 1955), traduzida por um tal José Saramago.

Cada uma destas obras – que valem por terem sido escritas por quem foram mas também por terem sido traduzidas pelos nomes que mencionei – custou-me entre dois e cinco euros.

Até um dia, E a Noite Roda. O acordês tem o mérito de me devolver o interesse por edições antigas. Em boa hora aconteceu. Uma vez mais se comprova o adágio: há males que vêm por bem.

26 comentários em “Há males que vêm por bem”

  1. E quando repôs o livro no sítio explicou porque o fazia?
    É que ainda não atinei o motivo pelo qual temos – e os angolanos e os moçambicanos – de ler em crioulo brasileiro, como estes já perceberam http://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww.temoignages.re%2Fle-creole-bresilien-remplace-officiellement-le-portugais-au-portugal%2C55127.html&h=qAQHKniWmAQFj0DydtXk_sPRqqZXVgSyh9R3y7mvZzcx3HA&enc=AZMDV8MIqrQ7zmQjYdQ5xE3b944_cKZDliV2QXiEqDXsAMHWVv2Isea9waIJPHexkcJDB34z6FsXLHdBV5HR1pS7

      1. É algo que nunca deixo de fazer: dizer que não compro por estar em acordês.
        Em relação a obras no prelo que me interessam, quando leio a notícia ( a editora x vai editar o livro y) telefono para a editora e pergunto se o livro será traduzido em português ou em acordês, caso em que informo que comprarei de imediato no original ou em tradução inglesa ou francesa, quando se trata de línguas menos acessíveis.
        O “acordo” tem contribuído grandemente para melhorar o meu inglês.

  2. Nisso seguimos a mesma política. Comprei um enganado há meses – deixei-me enganar por um “facto”, e escapou-me o malfadado “ato”. Not anymore.

    O meu inglês agradece.

    Vai dar trabalho é quando eu quiser retomar a leitura de Vergílio Ferreira… mas suponho que as edições antigas não sejam difíceis de arranjar.

    1. A crise e o AO relançaram o circuito de venda de livros usados, João. Há cada vez mais procura desses livros. Por isso, e também para sacar uns cobres fáceis, herdeiros vendem a peso bibliotecas inteiras de pais e avós. Falando em Vergílio Ferreira: ainda há pouco descobri uma primeira edição de ‘Aparição’ (de 1959) por cinco euros. Quem vende ao desbarato nem faz ideia do que está a vender: só quer ter o dinheiro na mão, tão cedo quanto possível. E alguns alfarrabistas de circunstância que fazem essas compras por atacado também não: só querem revender os livros, quanto mais cedo melhor.

      1. Vou começar a caçada, então. Até porque gosto muito das edições “antigas” (não são tão antigas quanto isso, creio) de Vergílio Ferreira, todas numa só cor.

        1. As mais antigas são da Coimbra Editora – as mais caras, julgo, até porque estiveram longos anos fora do mercado. As mais recentes são da Bertrand, mas não garanto que sejam as mais baratas. As mais acessíveis são as da Arcádia e da Portugália, se apanharmos exemplares em bom estado (o que sucede com frequência, pois os portugueses estimam os livros ao ponto de por vezes nem sequer os abrirem).

  3. Idem. Já estive com o livro da Alexandra Lucas Coelho na mão e também não o comprei (nota: os livros dela incluídos na colecção de literatura de viagens são em português pré-acordo e excelentes). Curiosamente, a Tinta da China publicou Viagem a Tralalá, do Wladimir Kaminer (que a Leonor tão fervorosamente aqui defendeu), em português pré-acordo. Considerando que ele não deve tê-lo exigido e que Carlos Vaz Marques, coordenador da colecção, aceita o acordo na Ler, pergunto-me se terá sido condição da Helena Araújo, que o traduziu.

    1. E, fazendo a mesma pergunta, disse porque não comprou?
      Há sempre ocasião. 🙂
      Aproveito para dizer que o português hodierno, o português que ambos defendemos não é pré-nada.
      Distingue-se é do português com a velha grafia brasileira de há 80 anos, anterior ao convénio de 1945, que os brasileiro denunciaram dez anos depois de terem assinado, (e por motivos políticos nacionalistas, como poderá verificar pelas actas do congresso daquele país).

      1. c.: não, só o comentei uma vez, na caixa da Almedina. Mas frequentando essencialmente (por questões de desconto e proximidade) livrarias grandes como a Fnac e a Leitura (Bulhosa, na zona Sul), julgo que os funcionários destas se estariam um bocado nas tintas (o da Almedina limitou-se a um trejeito condescendente).

          1. Pedro Correira, Também tem razão. Mas o post ou o comentário não invalida o protesto “in situ”.
            jaa igualmente tem razão quando diz que o protesto terá pouco significado nas livrarias mais impessoais, mas como nunca se sabe, protesto sempre.

          1. Suponho que já terás lido, provavelmente no livro de que publicaste o excerto (com link para o 2 Dedos de Conversa), o texto que vem hoje na pág. 46 do suplemento Ípsilon, do Público. Envolve Fernão de Magalhães, ursos e pinguins. E uma segunda Natália Correia.

          2. Já fui ler mas não tinha lido quando gargalhei.
            Este texto não é de livro nenhum, deve ter sido escrito para o público. O outro sobre os portugueses é de um ‘guia’ de Berlim bem à maneira do Kaminer.

  4. Também li, na minha adolescência, O Pão da Mentira, de Horace McCoy, romance que, como lhe aconteceu a si, também me deixou deslumbrado. O livro, infelizmente, perdi-o, como muitos outros que emprestei, não sei a quem. O que eu não me lembrava é se era uma tradução de José Cardoso Pires, mas devia ser, pois não deve haver outra. Também por isso, gostei do seu post.

    1. Aconteceu-me o mesmo: li-o, gostei muito, emprestei-o, nunca mais o vi. Até o recuperar agora: não na edição dos livros de bolso Europa-América mas numa mais antiga, da colecção ‘Livros das Três Abelhas’. A tradução é sempre do Cardoso Pires, o maior divulgador em Portugal da obra de McCoy (autor de romances como ‘Os Cavalos Também se Abatem’ e ‘O Bisturi’).

  5. Pois eu, mea culpa, há algumas semanas, comprei o livro da Alexandra Lucas Coelho (que ainda não li) e há uns dias acabei de ler um livrinho que me ofereceram, publicado tendo em conta as regras do AO, “Últimas Notícias do Sul” de Luis Sepúlveda (da Porto Editora). Custou-me um bocadinho, sim. Eu compreendo essa ideia de resistência, Pedro. E compreendo o comentário que diz que é importante fazer ver na livraria porque não se compram os livros. Mas não consigo deixar de ler determinadas obras por esse motivo, por muito forte que ele seja (e é). Já escrever, parece-me muito mais difícil.

    1. Ana, para mim recusar ler nesta grafia analfabetizante é um acto de cidadania. Não o sugiro a ninguém, não critico quem procede de maneira diferente, mas imponho-o a mim próprio.
      Há milhares e milhares de livros disponíveis em ‘fundos de armazém’ que vêm agora à superfície nas livrarias, ao encontro de leitores disponíveis como eu, que preferem a “antiga” ortografia. Certas livrarias têm já secções com livros destes, pensando precisamente nos portugueses que recusam o “acordo”.
      Sinto-me bem acompanhado. Alguns dos nossos melhores escritores – Lobo Antunes, Alegre, M. A. Pina, Graça Moura, Pedro Tamen, Baptista-Bastos, Miguel Esteves Cardoso, etc – pensam como eu. E ainda há três dias ouvi Mia Couto dizer claramente em entrevista à SIC Notícias: «Não sou adepto do acordo ortográfico».

      1. Mas eu também não me parece que alguma vez me venha a tornar adepta. E também já deixei de comprar livros por essa razão. Só não sei como resolver o problema dos livros novos que não serão publicados no português que conhecemos. Felizmente ainda tenho em casa um stock de livros por ler e há muitos outros que não nos colocam perante o facto aqui em causa. Mesmo assim continuo a achar difícil resistir indefinidamente apesar de estar convencida que este acordo ainda vai ser anulado (ou, se calhar, é apenas um desejo).

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