Grécia: da euforia à decepção


Pedro Correia,

Ladrões de Bicicleta é um blogue sério, sobre pensamento económico, de um ponto de vista da esquerda. Não do centro-esquerda, da esquerda descafeinada, mas da esquerda-esquerda.

Basta ler o que se foi publicando ao longo das últimas semanas nesse blogue para se perceber bem o excesso de expectativas geradas pelo Governo de coligação Syriza-Gregos Independentes, a oscilação de sentimentos provocada pelo processo de negociação entre Atenas e o Eurogrupo, e enfim a decepção que já não consegue ser ocultada.

 

Passo a transcrever alguns excertos, com a devida vénia aos autores.

 

João Rodrigues, 22 de Janeiro:

«O futuro está em aberto. Vemo-nos cada vez mais gregos.»

José Castro Caldas, 26 de Janeiro:

«Ganhou a democracia. Ganhou a esperança. A Grécia mostra hoje o caminho que pode ser de todos: deter a austeridade, renegociar a dívida, garantir a saúde, a educação, as pensões e o emprego, desenvolver.»

José Gusmão, 26 de Janeiro:

«Se o Syriza se amarrasse a um parceiro cuja primeira preocupação é entender-se com as instituições europeias, o Governo do Syriza não durava três meses.»

Nuno Teles, 27 de Janeiro:

«O Syriza terá pois que optar, muito rapidamente, entre a vitória de Pirro que a UE lhe oferece ou levar o confronto até às últimas consequências, saindo do euro.»

Jorge Bateira, 6 de Fevereiro:

«A celebração de um acordo entre a Grécia e a UE apenas suavizará a austeridade, não permitindo ao governo executar a política económica de que o povo grego está à espera.»

Alexandre Abreu, 10 de Fevereiro:

«A direita está preocupada, isso sim, porque o governo grego é o primeiro a confrontar directamente os mecanismos de subjugação a que tem vindo a ser sujeito o seu povo e porque o seu exemplo tem um enorme potencial de alastramento.»

José Gusmão, 16 de Fevereiro:

«Quem apostava na refundação democrática da União Europeia, bem pode tirar o cavalinho da chuva. Quem manda é a Alemanha, ponto, parágrafo. O governo grego não pode, não deve e não vai aceitar semelhante barbaridade. Uma coisa é negociar e fazer cedências, coisas que só o governo grego fez em todo este processo. Outra coisa seria trair de forma grotesca o seu principal compromisso eleitoral.»

João Rodrigues, 21 de Fevereiro:

«O que era dito [por Varoufakis] pareceu-me que estava longe disso, aproximando-se de um Ministro das Finanças, mais um, a falar de confiança entre parceiros e das imposições de austeridade como forma de evitar tentações e outras coisas mais: palavras, as coisas significam o que eu quero que elas signifiquem e por aí fora. Suspirei, profundamente desanimado, porque nesse momento a capitulação pareceu mais provável do que a sua única alternativa real.»

Ricardo Paes Mamede, 24 de Fevereiro:

«O acordo obtido na reunião do Eurogrupo da passada sexta-feira não representa seguramente uma vitória do governo grego.»

Alexandre Abreu, 26 de Fevereiro:

«Há limites para a latitude das interpretações e, na minha opinião, engana-se quem, defendendo o fim da austeridade e pugnando por uma alteração da relação de forças na Europa, considerar que este acordo foi uma vitória.»

0 comentários em “Grécia: da euforia à decepção”

  1. Sempre acreditei que o “sonho comanda a vida”. Mas também sempre acreditei que a realização dos nossos sonhos depende muito do que nós fazemos para isso.
    Sonhar, como faz a esquerda, que a realização dos nossos sonhos depende da boa vontade e, sobretudo, do dinheiro dos outros, só pode acabar na decepção dos autores que se entretêm a sonhar no “Ladrão de Bicicletas”. Ainda por cima, sendo alguns deles economistas, normalmente enganam-se nas contas…

    1. Já o senhor ACS prefere ao sonho a realidade do gamanço dos que não sonham, simplesmente aspiram o que os rodeia… e se aspiram bem!

  2. Quem é que pode na actualidade,seja de direita seja de esquerda,prometer o que eles(e outros)prometeram?Dentro do euro é o que se tem visto,fora dele os tempos imediatos serão medonhos,sobretudo para os mais fracos, nunca devemos esquecê-lo.Não avisar disto as populações roça a criminalidade.Depois das revoluções não choveram pão,educação,saúde,habitação,a não ser para os aparachiques e para os cantadores protegidos.Estes estão sempre garantidos.Dentro ou fora do euro.

  3. Os alemães deram 4 meses de vida aos gregos.
    Para quê? Os zorbas já disseram que não pagam tal como o madeirense Jardim.
    Enão pagam mesmo.

    Dizia o Jardim “ALGUEM PAGARÁ”, e dali não sai nem um tusto!

  4. Li de forma corrida mas não vislumbrei que alguém tenha ponderado como seria a vida dos gregos com a saída do euro.

  5. Como vai a Grécia e nós resolver a situação? A história diz-nos que quando o homem é egoísta e não olha o outro, como mais um, igual a si mesmo, a coisa transborda e aí, sucede o inevitável. Por isso mesmo ou se resolvem as situações a bem ou vão ser resolvidas a mal.

  6. Surpreende-me que não se compreenda que ganharam todos, tempo para negociar de forma tranquila e com sabedoria.
    Houve avanços. O caminho faz-se caminhando.

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