
LONGE DA MULTIDÃO
Alegria Breve, de Vergílio Ferreira
«A terra é grande, o céu é imenso. Céu vazio. Eu só.»
(p. 52)

Raras vezes li um início de romance que me surpreendesse tanto, que me agarrasse tanto. Logo ali, nas primeiras frases sincopadas, escritas pelo protagonista-narrador, confrontado com o envelhecimento e o declínio enquanto último habitante que resta da sua aldeia natal, perdida na imensidão da montanha branca.
«Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: “Verei dali a janela do meu quarto.” Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectângulo e cavo. Dois cães assomam à porta do quintal, chupados de ódio e de fome. Ainda há cães pela aldeia? Babam-se e uivam sinistramente. Tomo uma pedra, disparo-a contra um, desaparecem ambos a ganir. E de novo o silêncio cresce a toda a volta, desde a montanha que fico a olhar até me doerem os olhos.»

São as frases de abertura de um dos mais belos romances portugueses do século XX: Alegria Breve (1965), de Vergílio Ferreira – magnífico prosador e pensador a cujas páginas regresso, com a devoção de um leitor de sempre, neste ano em que se assinala o trigésimo aniversário da sua morte.
Romancista de ideias, fiel ao ideário de um Sartre que usava a ficção como veículo de aproximação à filosofia, o autor de Aparição foi de algum modo escrevendo o mesmo livro de título em título desde Manhã Submersa, que representou o corte definitivo com a estética neo-realista que até aí lhe servira de fonte primacial.
O cânone em voga apontou-lhe o dedo acusador, argumentando que caíra nas malhas do “esteticismo”, grave pecado numa época em que se entendia a arte como mera reprodutora da realidade.
Foi um corte traumático com antigos companheiros de percurso, mas Vergílio Ferreira (1916-1996) tinha razão ao recusar toda a forma de expressão artística como mero instrumento da intervenção política de circunstância.
Interessava-o muito mais enquanto forma de interrogação acerca do destino do ser humano no mundo tangível que lhe cabe em sorte. Interrogação que leva ao limite neste admirável romance que me conquistou logo às primeiras linhas, tão devedoras dessa perturbação existencial que perpassa no inesquecível parágrafo de abertura d’ O Estrangeiro, de Albert Camus.
Como Mersault, personagem central dessa novela, aqui o protagonista Jaime Faria experimenta uma situação extrema, numa espécie de exílio interior, confrontado com a força e a fraqueza da sua condição humana.
Último homem, primeiro homem, longe da multidão, cada vez mais perto da sua verdade essencial.

«Jamais a técnica romanesca moderna da temporalidade segmentada se ajustou mais exactamente ao movimento profundo de uma consciência. Estamos dentro de um cérebro, no tumulto da memória-emoção, e experimentamos a insuportável violência da vida que se exprime pelo tema do grito», sublinhou justamente Robert Bréchon no prefácio à tradução francesa de Alegria Breve.
Regresso com frequência à prosa cintilante de Vergílio Ferreira – delicada como filigrana, consistente como granito.
Eis-me novamente, por estes dias, como testemunha muda daquela gesta espartana de Jaime Faria, daqueles gestos esquálidos dos seus braços usando a pá para remover a neve e escavar a sepultura da mulher – derradeiro habitante da aldeia, agora casado apenas com a devastadora solidão do mundo.
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Anteriores textos desta série:
A Esperança – O apocalipse espanhol
O Malhadinhas – Um hino à vida
Barranco de Cegos – O meu mundo não é deste reino
Para Sempre – Existo, logo penso
Mau Tempo no Canal – Esplendor nas brumas
O Jardim dos Finzi-Contini – À beira do abismo

Vergílio Ferreira é talvez o meu autor preferido. Os aforismos são de um pensador que vai além do romancista. Há nele uma densidade pensada e crua que em simutâneo comove e nos prende. Terei de reler-lhe as obras que fui coleccionando. Por ora estou nos diários que inda desconhecia e são ele na mesma, o amor à vida e as formas que vai tomando com os anos, o sono difícil, a solidão, uma certa dor do mundo, o desencanto com a política, o amplo sentido da finitude.
Bom dia
Bom dia, Bea. Gostei muito deste seu apontamento.
Uma bela abertura. Vou ler.
Belíssimo parágrafo de abertura. Um dos dez melhores da literatura portuguesa.
‘in Aprenda definitivamente a usar a vírgula com 4 regras simples, no blogue do autor Português? É fácil!’
in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigo s/rubricas/idioma/a-virgula-em-4-regras-s imples/3191# [consultado em 17-05-2026]
Tudo o que se possa escrever acerca deste autor, é pouco. Pois merece uma visibilidade e admiração que lhe têm negado nas últimas décadas. Sempre achei que o Vergílio Ferreira era o nosso Scott Fitzgerald. Sobretudo pela elegância da escrita. Mas é também um autor que sabe descer às profundezas, com inteligência e subtileza. De modo que leva-nos, enquanto o lemos.
Aprende-se com ele a escrever, aprende-se com ele a olhar. É, sem dúvida, um dos nosso génios literários. Mas porque foi um outsider, não o tratam como tal.
“Laetitia breve, Ars longa”.
De Vergílio Ferreira, o meu preferido (talvez a par com “Aparição”…) continua a ser “Quando os Lobos Uivam”: sendo das suas obras menos “cerebrais”, até das mais fáceis de ler, contém também, em minha opinião, algumas das suas personagens mais conseguidas, mais vivas.