Grandes contos (17): Highsmith


Pedro Correia,

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Todos os voyeurs serão castigados: esta parece ser a moral a extrair de um extraordinário conto de Patricia Highsmith, um dos mais memoráveis que li até hoje de qualquer autor. Intitula-se O Observador de Caracóis e, como tantos outros desta escritora, foi publicado originalmente numa revista de ficção científica, denominada Gamma, tornando-se universalmente conhecido só a partir de 1970, quando a autora decidiu incluí-lo a abrir uma colectânea de 11 contos — quase todos obras-primas do género — a que deu o anódino e quase irónico título de Eleven.

 

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O mundo de Patricia Highsmith (1921-1995), como justamente assinalou Graham Greene em prefácio destinado a esta edição, é «irracional e claustrofóbico». Entramos nele sempre «com uma sensação de perigo pessoal» e raramente adivinhamos o seu desfecho.

Os norte-americanos, que adoram etiquetas e rótulos, apressaram-se a catalogar esta sua compatriota que optou por morar os últimos 32 anos de vida na Europa entre os autores de “suspense e mistério”. Puro logro: ela é muito mais que isso. Qualquer tentativa de definição precisa da sua obra dentro dos parâmetros clássicos está condenada ao fracasso.

Que o digam todos os seus leitores atentos – entre os quais me incluo, desde o final da década de 80. Que o digam até as suas personagens, enredadas em kafkianas teias de taras, fobias e complexos de toda a espécie, onde matar ou morrer se torna tantas vezes no dilema dominante.

Personagens como o banalíssimo Peter Knoppert, residente num respeitável subúrbio nova-iorquino, um citadino inveterado tomado de uma ancestral nostalgia pelo reino da natureza que jamais conheceu. Sócio de uma firma de corretagem, um impulso momentâneo levou-o certo dia a chegar a casa com uma mão-cheia de caracóis.

«Nunca na minha vida me preocupei com a natureza», foi a lacónica justificação que deu a Edna, sua esposa (recorro aqui à tradução de Paula Reis para a edição portuguesa, com chancela da Teorema, em 1987, sob o título O Observador de Caracóis e Outros Contos, precisamente os que foram reunidos 17 anos antes em Eleven).

 

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Nada mais insignificante do que um caracol. Mas a vida naquela casa nunca mais foi a mesma. Sobretudo desde a noite em que o seco e circunspecto Knoppert se dirigiu à cozinha e fixou os olhos fascinados num casal de caracóis: «Mais ou menos erectos sobre a cauda, moviam-se um diante do outro como que dançando e, para todos os efeitos, pareciam duas serpentes hipnotizadas por um tocador de flauta. Viu, momentos depois, os seus focinhos tocarem-se num beijo de intensa volúpia. (…) Algo acontecia: uma protuberância, tipo orelha, aparecia no lado direito da cabeça de ambos os animais. O seu instinto disse-lhe que estava a observar um certo tipo de actividade sexual.»

Possuído deste insólito fascínio, passou a gastar todas as horas disponíveis na contemplação dos caracóis, ignorando as compreensíveis expressões de censura da mulher. A nível profissional, o seu desempenho melhorou. E, como tantas vezes sucede nas perturbantes páginas de ficção de Patricia Highsmith, começou a registar-se nele uma dissimulada mas crescente degeneração moral: «Tornou-se mais ousado nas suas jogadas, mais brilhante nos seus cálculos, na verdade tornou-se mesmo um pouco corrupto nos seus esquemas, mas arranjou dinheiro para a empresa. Por votação unânime, aumentaram-lhe o ordenado base, de 40 mil para 60 mil dólares. Quando alguém dava os parabéns ao Sr. Knoppert pelas suas proezas, este atribuía tudo aos seus caracóis e à descontracção benéfica que obtinha da sua observação.»

 

Na última vez em que Knoppert se deu ao incómodo de os inventariar, havia cerca de mil e duzentos espalhados pelo estúdio da sua casa. Depois disso, desistiu de contá-los: reproduziam-se a uma incrível velocidade, desmentindo todos os mitos sobre a lentidão dos caracóis e apoderando-se de todo o espaço disponível naquela divisão. Até que a dado passo as criaturas se apossaram do criador, a natureza venceu a civilização, a animalidade mais rasteira e viscosa conquistou o sofisticado habitat do próspero corretor, numa espécie de darwinismo às avessas.

Não é nada bonito espreitar por buracos de fechadura — em sentido próprio ou figurado. Eis uma sábia lição de vida que teria sido certamente muito proveitosa a Peter Knoppert se ele tivesse vivido o tempo suficiente para a assimilar.

 

Anteriores contos desta série: 

Os Bons Serviços, de Julio Cortázar

Amor numa Rua Escura, de Irwin Shaw

Nevoeiro na Cidade, de Mário Dionísio

Empresta-nos o Seu Marido?, de Graham Greene

Um Cântico de Natal, de Charles Dickens

18 comentários em “Grandes contos (17): Highsmith”

  1. Descobri-a tarde, justamente por causa do rótulo que os americanos lhe puseram. Convencida de que era uma famosa autora de um género menor – outro preconceito que tardei em ultrapassar – ignorei-a até que um amigo me pôs uma das suas obras na mão. Em boa hora. Foi fascínio à primeira leitura. Também li este conto e gostei muito.

    1. Provavelmente falarei ainda de outro conto desta colectânea – a primeira das oito que Patricia Highsmith publicou. É um livro excepcional para todos quantos gostam de contos, como é o meu caso, Teresa. PH é claramente influenciada por autores como Kafka e Dostoievski, aliás mencionados com frequência nas suas obras. Para quem gosta de etiquetas, classificaria a obra desta escritora como uma espécie de cruzamento muito singular entre o romance psicológico e o ‘noir’.
      O ‘suspense’ e outras vulgatas a que pretenderam confiná-la são alusões de quem só a conhece num nível muito superficial.

  2. e quem diria que um dos seus livros daria orgem ao argumento de ” o amigo americano”, do wim wenders, a partir do qual comecei a ouvir falar desta senhora autora.

    1. É verdade, Carlos. E o célebre ‘0 Talentoso Mr. Ripley’ (1955) esteve na origem de uma obra-prima do cinema francês: ‘Plein Soleil’, de René Clement, com Alain Delon. Tal como o primeiro romance dela, ‘Strangers on a Train’ (1950) tinha dado origem ao excelente filme homónimo de Hitchcock, no ano seguinte. E Claude Chabrol filmou ‘O Grito do Mocho’. Esta escritora sempre inspirou grandes cineastas.

  3. Pois… como já foi dito, devido ao rótulo pouco tenho lido dela, mas este artigo aguçou a minha curiosidade.
    Será que essa série “eleven” não existe numa versão “onze” na língua de Camões?
    Por vezes leio em inglês, mas só literatura Canadiana para ter acesso a obras que não chegam cá ou vêm demasiado tarde para o meu interesse em conhecer o que se faz no meu País natal.

    1. A versão portuguesa de ‘Eleven’ – título nada comercial, convenhamos, pelo menos no nosso idioma – intitula-se ‘O Observador de Caracóis’, adoptando precisamente o título deste conto que destaco. O meu exemplar é o original, de 1987, mas julgo ter havido uma reimpressão muito posterior, também da Teorema.

      1. Obrigado na mesma, depois de submenter o comentário, apercebi-me que saltara um parágrafo na leitura do post, precisamente onde estava a resposta ao que perguntava.

  4. Da PH apenas li O Talentoso Mr. Ripley, há imensos anos, precisamente depois de ver o Plein Soleil.
    Desconhecia que ela escrevia contos e fiquei com imensa curiosidade de ler este dos caracóis.
    Vou tentar encontrar o livro.
    Antonieta

    1. São contos de uma qualidade excepcional, dentro do estilo da autora (que nem todos apreciam). Vários deles merecem figurar em antologias dos melhores contos do século XX.

      1. O Pedro nem vai acreditar o que eu encontrei ontem na Biblioteca (péssima para novidades, óptima para velharias):
        O Observador de Caracóis (1987), Contos Póstumos (2002), A Casa Negra e Pequenos Contos da Misogenia!!!
        Só posso dizer que, tão cedo, não como caracóis…
        😉 Antonieta

          1. Estou a adorar, Pedro!
            Obrigada por me ter feito descobrir esta escritora.
            Bom fds!
            Antonieta

  5. Talvez por também ter inspirado alguns filmes do Hitchcock (Os Pássaros, Rebecca, A Pousada da Jamaica), fez-me lembrar a Daphne du Maurier, escritora que muito aprecio e que escreve contos bem insólitos, diria mesmo macabros.
    🙂 Antonieta

    1. Um dos melhores contos de Daphne du Maurier, na linha destes de PH, é ‘Aquele Inverno em Veneza’ (‘Don’t Look Now’, no original) que originou um filme realizado por Nicholas Roeg em 1973, com Donald Sutherland e Julie Christie. Todo rodado em Veneza, precisamente.
      Talvez esse conto passe por esta minha série também.

      1. Don’t look now and other stories, da Penguin, foi o primeiro livro que li da Du Maurier. Em português pode ser lido, bem como Os Pássaros, nos «Contos» da Relógio de Água.
        O filme causou enchentes em Lisboa, mas não propriamente pela história, nem sequer por Veneza…
        🙂 Antonieta

        1. É um filme estranho, do qual muita gente não gosta à primeira (nem à segunda). Mas que filma Veneza como raros outros a filmaram antes (incluindo Visconti em ‘Morte em Veneza). Eu gosto mais do conto do que do filme.

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