Gonçalo Ribeiro Telles 1922-2020


João Pedro Pimenta,

Uma notícia não inesperada mas muito triste. Deixou-nos Gonçalo Ribeiro Telles. Já tinham anunciado estúpida e apressadamente a sua morte, há uns tempos, mas como aconteceu com Mark Twain, a notícia era manifestamente exagerada. Falamos de uma figura maior do nosso país, com quem infelizmente estive vezes de menos. Do arquitecto paisagista que ganhou o prémio internacional mais importante da área (o Sir Geoffrey Jellicoe). Do homem que reorganizou o movimento monárquico e ecologista depois do 25 de Abril, fundando o PPM – partido monárquico, ruralista e verdadeiramente o primeiro partido ecologista português, muito antes do PAN e bem mais substantivo que os Verdes – e na continuidade o MPT, com alguns ex-PPM e do Movimento Alfacinha. que foram precisamente os partidos em que votei quando finalmente ganhei esse direito (e o MPT o único partido a que estive realmente ligado)

Ribeiro Telles era o último líder vivo da AD e curiosamente o mais velho. Exerceu o cargo de Ministro da Qualidade de Vida no segundo governo da coligação e criou a RAN, a REN e os PDMs. Concorreu à câmara de Lisboa pelo PPM, no meio de inúmeras candidaturas, e conseguiu ser eleito vereador. Lisboa deve-lhe o corredor verde de Monsanto, os jardins da Gulbenkian e o jardim Amália Rodrigues, atrás do parque Eduardo VII, entre outros. Defendia conceitos recebidos no início com estranheza pelos puramente citadinos, como as hortas municipais e a necessidade absoluta das cidades combinarem zonas de cultivo e zonas verdes com o emaranhado urbano. Defendia também uma regionalização natural, seguindo as muitas regiões naturais de Portugal, desconhecidas da esmagadora maioria, para além do traçado político e burocrático. As suas ideias levaram muito tempo a ser adoptadas, mas aos poucos começaram a ser implementadas.

 

É esse legado que, embora tarde e a más horas, lhe fará justiça e que o seu nome e projectos sejam preservados. Cabe-nos construir um Portugal seguindo as boas e urgentes ideias que Gonçalo Ribeiro Telles generosamente lhe deixou. O país perdeu hoje um dos mais ilustres portugueses. Eu perdi uma das minhas maiores referências cívicas e políticas.

 

19 comentários em “Gonçalo Ribeiro Telles 1922-2020”

  1. Um pequeno aparte para referir que votei algumas vezes (duas vezes), no MPT e depois nunca mais votei.

    Nem sei se contaram os meus votos. Há a abstenção, há os votos nulos e depois há os votos transparentes — os votos que estão fora da lógica horripilenta do regime.

    RIP. Um dos muito poucos que alguma vez devia ter governado.

  2. o PPM – partido monárquico, ruralista

    1) O que é um partido ruralista?

    2) Como pode um partido ruralista ter sucesso, quando a maior parte da população atualmente é urbana?

    1. Um partido ruralista é o que defende os valores como a defesa da agricultura, dos espaços naturais, dos solos da produção de alimentos sem recorrer demasiado a exportações. Quando nasceu ainda havia muita população rural, mas mesmo que fosse pouco, isso implica que não seja defendido, ou só os citadinos é que se pordem pronunciar? O povo rural também é Portugal”, dizia o seu primeiro slogan,

  3. Eu só ouvi uma vez Ribeiro Telles a falar. E ele deu uma calinada que me fez perder confiança nele. Disse qualquer coisa como “uma agricultura de montanha, como por exemplo na Baviera”, e eu fiquei plenamente consciente de que ele não percebia nada do que dizia, pois que, a agricultura bávara é tudo menos de montanha – é agricultura na planície aluvial do Danúbio.

      1. Já se sabe que na franja sul da Baviera há montanhas. Não é novidade nenhuma.
        Mas 90% da Baviera não são montanhas. As montanhas somente ocupam uma estreita faixa no sul da Baviera. Mesmo Munique, que está muito perto das montanhas, é completamente plana.
        É claro que nos Alpes bávaros há agricultura de montanha. Mas o essencial da agricultura bávara é de planície. A Baviera é das regiões agricolamente mais ricas da Alemanha, e é claro que não o é devido às vaquinhas dos Alpes; é-o devido à fértil planície aluvial do Danúbio.

    1. “Here, making them accessible with pathways can be a great help, making na importante contribution to securing animal rearing in the mountains and the production of high-value foodstuffs at the same time, as well as maintaining the alpine cultivated landscape.” (do Ministério da Agricultura da Baviera: http://www.waldbesitzerportal.bayern.de/mam/cms01/landentwicklung/dokumentationen/dateien/le_in_bayern_englisch.pdf)

  4. As regiões naturais de Portugal, que Ribeiro Telles defendia, foram identificadas num estudo do seu amigo e correligionário João Camossa de Saldanha o que ele fez questão de frisar na sessão de homenagem a João Camossa no CNC.

    1. Não sabia disso, até porque João Camossa era advogado. Também estive numa sessão do CNC (a única vez que lá entrei, creio), há uns dez anos, sobre Camossa, pouco tempo depois da sua morte, mas Ribeiro Telles não estava lá.

      1. Era um advogado especial. A sua tese de formatura foi sobre enfiteuse e era de uma cultura histórica excepcional. Além das madurezas de não andar em transportes públicos – ia anualmente a pé de Lisboa a Aveiro – conhecia o país como poucos.
        No CNC falou primeiro Guilherme Oliveira Martins, o prof. Jacinto Simões e Ribeiro Telles, além do primo João Borges e depois vários “voluntários”.
        Com recurso ao “Google” confirmei a data de 26.1.2010 e lembro-me de Ribeiro Telles, que mencionou o estudo, ser abordado por alguém para lhe facultar uma cópia. De facto, quando esse estudo foi primeiro apresentado nos primórdios do PPM teve um efeito extraordinário porque, creio eu, ninguém – Ribeiro Telles, Henrique Ruas, Moctzuma, etc., etc. -esperava que Camossa acabasse um trabalho dessa envergadura e qualidade, ele, que tinha sempre os bolsos cheios de papéis com ideias em bruto, pensamentos por explorar, etc..

        1. Tem a certeza de te sido nessa sessão e não antes, já qu João Camossa morreu em 2007? Porque essa sessão de janeiro de 2010 é exactamente aquela em que eu estive (costumo guardar as agendas e confirmei-o), e não me lembro de maneira nenhuma de ver lá o Arq. Ribeiro Telles. Mas como não cheguei logo no início, posso ter perdido alguma coisa. Recordo-me sobretudo do testemunho de João Borges.
          O PPM tinha umas figuras extraordinárias, e em parte tenho pena de não ser uns anos mais velho para ter vivod mais esses tempos. Um primo meu, dirigente do partido em Vila Real, infelizmente já partido, era o exemplo disso (ainda o encontrei a gesticular nos congressos em videos dos Arquivos RTP). Podemos também acrescentar MEC ao rol. João Camossa, do que ouvi e li, era uma figura de difícil qualificação, anti-estado novo e auto-proclamado miguelista (ou anarco-miguelista), de família aristocrática mas que por vezes parecia um vagabundo, provocador (aquela história da toga…), muito camiliano, com uma cultura rara e uma apetência para a “petite histoire”, e como o Francisco lembra, um andarilho conhecedor como poucos da geografia de Portugal. Pensando bem, a autoria desse estudo não admira assim tanto.

          1. De facto admito que o Gonçalo tenha falado logo a seguir ao Guilherme Oliveira Martins que, como presidente, fez uma curta introdução.
            Em rápida pesquisa encontrei esta mensagem:
            “João Borges,
            As evocações na sessão de ontem em homenagem ao João Camossa, no Centro Nacional de Cultura, fizeram-nos reviver a sua inteligência e exemplo de coerência nas convicções.
            A intervenção do João Borges, assim como a do Prof. Jacinto Simões, a do Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, a do Dr. Oliveira Martins e daqueles que quizeram participar no debate (Luís Coimbra, César Guerreiro, entre outros) recordaram com fidelidade a vida intensa do João Camossa Saldanha, na sua plenitude grande e controversa.
            Bom será que o Centro Nacional de Cultura possa promover a divulgação do seu trabalho inédito sobre Lisboa, e quem sabe também registando os interessantíssimos depoimentos que ontem ouvimos, que descrevem a personalidade ímpar, rebelde, genial e surpreendente, que a tantos nos marcou.
            Um abraço,
            Marcos Soromenho Santos”
            link para o thread que o João Borges abriu no fórum do Geneall
            https://geneall.net/pt/forum/155182/homenagem-a-joao-camossa-dia-26-de-janeiro/#a248586

        2. Tem a certeza de ter sido aí e não antes, já que João Camossa morreu em 2007? Porque essa sessão de janeiro de 2010 é exactamente aquela em que eu estive (costumo guardar as agendas e confirmei-o), e não me lembro de maneira nenhuma de ver lá o Arq. Ribeiro Telles. Mas como não cheguei logo no início, posso ter perdido alguma coisa. Recordo-me sobretudo do testemunho de João Borges.
          O PPM tinha umas figuras extraordinárias, e em parte tenho pena de não ser uns anos mais velho para ter vivido mais esses tempos, em particular nos anos oitenta. Um primo meu, dirigente do partido em Vila Real, infelizmente já desaparecido, era o exemplo disso (já o encontrei em videos dos Arquivos RTP a gesticular nos congressos do PPM). Podemos também acrescentar MEC ao rol. João Camossa, do que ouvi e li, era uma figura de difícil qualificação, anti-estado novo e auto-proclamado miguelista (ou anarco-miguelista), de família aristocrática mas que por vezes parecia um vagabundo, provocador (aquela história da toga…), muito camiliano, com uma cultura rara e uma apetência para a “petite histoire”, e como o Francisco lembra, um andarilho conhecedor como poucos da geografia de Portugal. Pensando bem, a autoria desse estudo não admira assim tanto.

      2. caro João Pimenta

        Fui o organizador da evocação ao João Camossa no CNC; não nos conhecemos na efeméride mas agradeço as suas palavras para com o meu primo. Ele era, de facto, único, sabendo que todos o somos, mas único, no sentido da excelência que se apresentava sem qualquer materialismo.
        abraço,
        João Borges

        1. Caro João Borges,
          lembro-me perfeitamente (e sobretudo) da sua intervenção, onde estive por feliz aviso – creio aliás que deve ter sido a única vez que estive na sede em Lisboa, embora o meu Pai tivesse desempenhado funções para o CNC no Porto, quando o havia. As suas descrições foram elucidativas, com alguns episódios picarescos pelo meio. Espero que consiga encontrar os trabalhos do seu Primo e se possível que os torne públicos, porque seria um inestimável serviço à comunidade.
          Abraço

          João Pedro Pimenta

    2. Caro Francisco Almeida

      Não nos conhecemos no CNC que organizei para homenagear o meu primo Camossa, mas obrigado pelas suas palavras e temas que abordou ao longo deste fórum. Esse estudo, que cita, foi-me oferecido pelo Gonçalo Ribeiro Telles e eu gostava de ter feito uma edição com ele. A vida é tramada e o excesso de trabalho condiciona muitos sonhos. Reorganizei o meu atelier há uns anos e procuro agora por esses elementos. Irão ver a luz do dia.

      abraço,
      João Borges

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