Gente apaixonada por máquinas


Pedro Correia,

Notável entrevista de Noah Chomsky ao suplemento Ípsilon, do jornal Público (entrevistado por Ivo Neto e Karla Pequenino). Tema dominante: a inteligência artificial. O pensador norte-americano adverte: hoje há pessoas que se apaixonam por máquinas. Gente nascida após 1997, os chamados “nativos digitais”. Gente deste XXI – o século em que a máquina, tendencialmente perfeita, supera de vez o homem, imperfeito por definição. 

«Porque é que uma criança de três anos fala com os seus brinquedos? Algo nestas tecnologias lembra a nossa infância e todos podemos ser apanhados nisso», assinala Chomsky. Na sua perspectiva, proibir não é solução. Nunca é. «Podemos levar as pessoas a compreender o que a inteligência artifical é e não é. Acabar com a euforia e olhar para a realidade como ela é. Basicamente, é como qualquer outra ideologia ou doutrina. (…) Não há maneira de a impedir, não vai acabar nem desaparecer. Pode educar-se a população para compreender como realmente são as coisas.»

Sempre estimulante, concordemos ou discordemos dele. Com lúcidos 94 anos.

6 comentários em “Gente apaixonada por máquinas”

  1. Este filosofo anarco socialista continua a insistir na educação da população por gente como ele. Felizmente que as suas ideias não fizeram escola excepto nas madrassas da extrema esquerda do tipo CES, do prof Boaventura.

    1. Matar o mensageiro em vez de discutir a mensagem: eis o reflexo automático de quem dispara mais rápido do que a própria sombra.
      Atitude que nunca conseguirei entender. E menos ainda subscrever.

  2. Ele próprio faz parte do “espectro de opinião aceitável” que o regime estabelece para que as contradições e as discussões mais acesas dentro desses limites pareçam saudáveis e democráticas — mas não sendo necessariamente as melhores.

    É no conflito com a opinião não-aceitável que o melhor para todos sobrevive.

  3. Ah, eis aqui um tópico verdadeiramente interessante, com um pano de fundo efervescente composto por um caldo de intelectualidade – o nobre pensador Noah Chomsky partilha a sua sapiência acerca da suposta ameaça existencial da inteligência artificial e das nossas interacções com as máquinas!

    Não nos esqueçamos que a nossa relação com a tecnologia remonta a eras imemoriais, meus caros. A história da humanidade está repleta de exemplos de como a tecnologia moldou a nossa existência, desde o mais rudimentar utensílio de pedra até às extraordinárias criações da era digital. Portanto, é perfeitamente natural que os jovens “nativos digitais” desenvolvam afinidade com as máquinas – um fenómeno tão inevitável quanto a passagem do tempo.

    O ilustre Chomsky, em sua infinita sabedoria, sugere que proibir não é solução – e como poderíamos discordar? A resposta não está em obstruir a marcha do progresso, mas em compreender e educar o homo sapiens sobre as implicações desta inebriante dança entre homem e máquina*. Tal como o afamado pensador menciona, a euforia deve dar lugar à lucidez, e é imperativo encarar a realidade sem véus.

    A relação entre a humanidade e a tecnologia é um intricado jogo de adaptação e metamorfose. O desafio do nosso magnífico século XXI não reside na própria tecnologia, mas na nossa capacidade de a integrar harmoniosamente nas complexas teias das nossas vidas.

    Não nos esqueçamos que, mesmo diante das mais sofisticadas manifestações de inteligência artificial, ainda somos criaturas de carne e osso, com emoções e necessidades multifacetadas. É na nossa imperfeição que reside a verdadeira essência do ser humano. E é através desta imperfeição inerente que criamos e preservamos as mais genuínas relações interpessoais, algo que as máquinas, por mais avançadas que sejam, jamais poderão imitar à perfeição.

    Julgo que em vez de temer a inteligência artificial, devemos encará-la como uma oportunidade única de nos questionarmos acerca do significado mais profundo da existência humana. Faço, pois, um convite a uma introspecção, uma análise reflexiva sobre quem somos e quem aspiramos ser, enquanto navegamos pelos mares turvos da era digital.

    *É importante lembrar que os modelos de linguagem são meramente aproximações e não podem replicar a complexidade e riqueza das faculdades linguísticas humanas. Tal como Chomsky sempre enfatizou, é crucial considerar as limitações inerentes a esses modelos e o papel crucial da experiência e do conhecimento humano na compreensão e uso da linguagem. No fim de contas, a relação simbiótica entre a teoria linguística e os LLM (“Grandes Modelos de Linguagem”) proporciona uma oportunidade ímpar para aprofundar o nosso entendimento da linguagem humana e da inteligência artificial.

  4. A AI pode destruir milhões de empregos e de profissões, e não criará assim tantas novas alternativas como os seus defensores preconizam — mas como depende de inputs humanos estará quase sempre condenada a ser uma estupidez natural automatizada, porque só lhe vão pedir para construir imagens pirosas, escrever palermices e destruir outras pessoas — as coisas normais do mundo burguês (por oposição a uma vanguarda intelectual). Quem vive disso que se cuide.

    A sua capacidade mais perigosa é a possibilidade de re-escrever o seu próprio código — mas para isso suponho que lhe faltam duas características essenciais do ser spinoziano: a consciência de si e a determinação para persistir na sua existência — um “para quê”.

    As teorias da conspiração nunca explicam este elemento essencial (o para quê) e é por isso que são teorias da conspiração.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *