“Florença ao domingo é como Gondomar sem estátuas.”
Ouvido hoje, por ocasião de uma proveitosa conferência no Museu Nacional Soares dos Reis para recordar os 120 (e um) anos do nascimento de Ruben A., que escreveu tal coisa num dia em que estava aborrecido com o período do Renascimento e com a confusão na Piazza della Signoria.Pouquíssimos, se é que algum, se atreveriam a escrever tais coisas naqueles inícios dos anos 50.
Tanto pode servir de dissuasor para ir a Florença como de cartaz turístico para Gondomar. Se construirem mais umas estátuas ainda melhor. Comecem já a pensar nos moldes de Valentim Loureiro, Júlio Resende (o pintor, não o músico), Pedro Barbosa e Fernando Rocha.
(Já agora, se quiserem conhecer o opus magnun de Ruben A., pseudónimo literário de Rúben Andresen Leitão, têm aqui esta recensão escrita há tempos pelo Pedro Correia).

CATEDRAL SANTA MARIA DEL FIORE: – il DUOMO
Brunelleschi, Arquitetura, Arte e Matemática
LEONARDO, MAQUIAVEL, MEDICI ( GIOVANNI da EMPOLI)
Gosto muito de Florença e do grande Ruben A, João Pedro.
Cada vez mais me convenço que ‘A Torre da Barbela’ é um dos melhores romances portugueses do século XX.
Lourenço ao domingo é como Gondomar sem estátuas.
Quem é o Lourenço?
Pouco importa. É literatura tão boa como a de Rúben A. porque é assim que o ouvido duro ou distraído a bem pode captar.
Cumpts.
Tive a sorte de conhecer Florença em período imediatamente pós (?)-pandémico em que a frase/’boutade’ de Ruben fazia pouco ou nenhum sentido pois multidão não havia nem se pressentia: o medo tem enfiado meia Europa em casa, mergulhando-a mais ainda no solipsismo e na solidão.
Cheguei a circular às dez da noite na Ponte Vecchio literalmente sem mais ninguém. Tenho fotografias dessa recente viagem que tenciono publicar aqui. Fotografias que demonstram como estes quase dois anos mais recentes, de algum modo, são aquilo que mais próximo conhecemos de uma guerra neste continente que no século passado as foi travando do princípio ao fim.
Eu estive em Florença há já uns anos por esta altura. Ainda assim havia muito turista, talvez não como as enchentes de Verão. Mas tive a feliz ideia de ir aos Ufizzi num fim de tarde de chuva, em que não estava quase ninguém no museu e tive a oportunidade rara de contemplar O Nascimento de Vénus, de Botticelli, sem ninguém, absolutamente ninguém, à volta.
Quanto a viajar, contra mim falo que há dois anos não saio de Portugal tirando um jantar na Galiza, e logo na outra margem do Minho. Em compensação conheci alguns tesouros nacionais que incrivelmente nunca tinha visto.