Filhos, enteados e comentadores de filiação incógnita


Diogo Novo,

A propósito do incidente “feira do gado”, protagonizado por Augusto Santos Silva (who else?), o essencial já foi dito pelo Rui Rocha. Falta apenas dizer que o pedido de desculpa foi mais gravoso do que a afirmação que lhe deu origem (a afirmação insultou a concertação social, o pedido de desculpa insultou todos aqueles que têm dois dedos de testa), mas adiante.
Há, no entanto, um argumento que vai despontando nas fileiras de apoiantes do Governo, uma tese segundo a qual se tratava de um momento informal e, por isso, a recolha de som não é legítima. Eram conversas privadas, de gente que, no fundo, é mortal e igual ao cidadão comum. Em suma, gente que tem o direito de soltar umas boçalidades no recato do seu espaço próprio e privado. Parece-me um argumento difícil de defender – era um evento público, com intervenções públicas, para o qual foram convocados jornalistas.
Mas admitamos que sim, que o som foi colhido de forma ilegítima e ‘pela calada’. Certo. Significa, portanto, que quem perfilha este argumento condena a gravação da célebre conversa privada entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schäuble? E, por maioria de razão, condenarão a divulgação pública das brutalidades cavalares ditas por Donald Trump sobre as mulheres, uma conversa tida à porta fechada, mas apanhada por um microfone aberto? Se sim, não me lembro que esta gente tivesse tantos pruridos quando estes casos fizeram manchetes. Neste Tempo Novo temos então um conceito inovador assente em dois paradoxos: o princípio sacrossanto, mas de aplicação à la carte, de privacidade em eventos públicos.

3 comentários em “Filhos, enteados e comentadores de filiação incógnita”

  1. Excelente reflexão, Diogo. Eu aplico aqui a mesma tese que expressei em relação ao caso Trump: sou visceralmente contra a utilização de gravações à socapa para difundir fora de contexto.
    A lisura de procedimentos define toda uma conduta do órgão de informação. E a ausência dessa lisura também.
    Tinha piada, aliás, inventariar quem a propósito destes temas aplica o princípio da geometria variável: sou a favor se beneficiar os meus e sou contra se os prejudicar.

  2. Diogo, em relação às perguntas em questão: sim, sim e sim. São TODAS maus exemplos de jornalismo – se a matéria é considerada relevante, então que usem a figura da “fonte não identificada”.

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