Fahrenheit 451


Pedro Correia,

 

Manuel Maria Carrilho merece aplauso: recusou votar num pirómano de livros para secretário-geral da Unesco apesar das instruções que recebeu do ministro Luís Amado para aprovar o nome do ministro da Cultura egípcio. O simples facto de essas instruções terem sido transmitidas ao nosso embaixador na Unesco, apesar dos oportunos alertas de intelectuais como Bernard-Henri Lévy, revela bem até que ponto chegou o temor reverencial do Ocidente ilustrado, de cócoras perante o mundo árabe que prefere impor as suas teses não com a força da razão mas com a razão da força.

O sindicato de voto não vingou. Felizmente houve outros delegados a pensar como Carrilho, que preferiram eleger a candidata búlgara, Irina Bokova. A nova secretária-geral da Unesco, ao que parece, é leitora de Ray Bradbury e não gosta de queimar "livros semitas".

Na vida real por vezes ainda há histórias que terminam bem.

19 comentários em “Fahrenheit 451”

  1. Bom, parece que afinal se salvou o dia. Quererem eleger um anti-semita para um alto cargo da ONU é uma vergonha.
    Quanto à posição do nosso governo (com minuscula), e também penso eu da Italia que seguiu a mesma linha, apenas se pode dizer que é indesculpável sequer terem pensado em votar a favor.

    Não gosto de Carrilho. Nunca gostei e acho que nunca irei gostar. Mas aqui, faço uma grande vénia a uma decisão de Homem. Sim senhor!

    Primeiro o Putin, depois o Chavez, e ainda depois o Kadhafi…agora um radical Egipcio. Tamos num bom caminho, sim senhor.

    Quando aparece um Governo com tomates? O gás vem da Argélia, o pitrol manda-se vir doutro sitio. Não é o Socrates que diz que já produzimos 70% da nossa energia? Então porque baixamos as calcinhas? Ele pode gostar, eu acho que não iria gostar…

  2. Faço minhas estas palavras de PR:
    “Não gosto de Carrilho. Nunca gostei (…). Mas aqui, faço uma grande vénia a uma decisão de Homem. Sim senhor!”

    Aliás, já são duas vezes seguidas. A anterior foi um artigo recente sobre a crise internacional que encontrei no portugal dos pequeninos (NB: onde não se postam comentários desalinhados).

    Uma grande chapelada para o Sr. Carrilho.

  3. Carrilho, honra lhe seja feita, sempre pensou pela própria cabeça. É uma pena que só agora consiga recolher apoios unânimes quando deles menos precisa. Tivesse-os tido quando foi candidato à presidência da CML e estou certa, Lisboa estaria hoje muito melhor.

    1. Como jornalista, acompanhei a campanha de Carrilho e lembro-me que cometeu alguns erros, talvez por excesso de triunfalismo. A democracia é assim: não há vitórias antes de contados os votos.
      Considero, de qualquer modo, que foi um bom ministro da Cultura. E, como deputado, sempre demonstrou saber pensar pela sua própria cabeça, sem ser ‘yes man’ de nenhum líder. Achei justíssima a sua nomeação como embaixador português na Unesco – nomeação que esteve longo tempo ‘congelada’ e só pecou por tardia. A atitude digna que revelou neste caso do secretário-geral só demonstra que Portugal está bem representado na Unesco.

  4. Bofetada (…) na hipocrisia “socrática”…

    São políticas rosadas
    por terras de fantasias,
    de ideias arrevesadas
    repletas de hipocrisias.

    Tem sido mau demais
    para poder ser verdade,
    tantas políticas anormais
    espessas de publicidade.

    A leveza insustentável
    de políticas ignorantes,
    torna-se insuportável
    pelos efeitos delirantes!

    1. Adenda:

      Foi ruidosa a bofetada
      por razões evidentes,
      para gente disparatada
      de valores decadentes.

      Um gesto de dignidade
      justificado pela razão,
      com tanta anormalidade
      misturada com ilusão.

  5. Caro Pedro, discordo completamente. Uma coisa é a discordância da posição assumida por Portugal — e, porventura, a crítica que ela merece — outra é a sua execução. MMC pode discordar, nós podemos discordar, mas MMC tem a obrigação de a implementar mesmo que não concorde. Enfim, no limite e sendo pragmático, MMC poderia ter feito as coisas de forma discreta (conciliando a sua posição pessoal com a posição de Portugal). Mas não. Ele quis assumir uma posição política. Make a statement. Ora, ele neste momento é diplomata e não político.

    1. Paulo, a diplomacia serve para conseguir objectivos. Neste caso, MMC – e mais alguns outros – conseguiu evitar o objectivo (errado) de fazer eleger um anti-semita como secretário-geral da Unesco. Uma decisão que cobriria de vergonha os governos ocidentais, como o português. Se o Governo entender agora proceder disciplinarmente contra Carrilho, está no seu pleno direito. Mas tenho a certeza de que não o fará. Até porque Carrilho dá mais jeito a Sócrates em Paris do que em Lisboa. Tal como Ferro Rodrigues (também em Paris) e João Cravinho (em Londres).

      1. Pedro, a diplomacia serve para conseguir objectivos definidos em Lisboa, naturalmente com o input das respectivas embaixadas, bem como outros. É a soma. Não sejamos ingénuos, Pedro, MMC nunca votou nada no Parlamento de que discordasse? É evidente que MMC fez um statement político. Statement esse que convenientemente teve cobertura jornalística. Sabemos muito bem que não haverá processo disciplinar, mas isso ja é outra conversa.

        1. A afirmação de que os representantes de um governo devem cegamente, mesmo indo contra a sua própria consciência, cumprir ou fazer cumprir as ordens que recebem desse seu governo parece-me, no mínimo, perigosa.

          E não, não sejamos ingénuos sobre as verdadeiras motivações sejam elas lá de quem forem, mas também querer ver politiquices em tudo também já chateia. Eu sei que a vontade de os prender por terem e por não terem é tipo desígnio nacional, mas também caramba!

  6. Fez MMC muito bem. E se foi contra a posição “oficial” (deduzo pelos comentários), ainda melhor . Nunca entendi a enorme animosidade que existe, quase à partida, contra MMC. É vaidoso? Tudo bem, também prefiro pessoas que não são vaidosas. Mas, e os coxos de carácter que, não exibindo vaidade, por aí andam à solta? Daqui deste canto, sem acesso a informação especial, muitas vezes dei comigo a pensar que tanta animosidade à partida, pode bem resultar de uma coisita nada elaborada e muito corriqueira chamada inveja. É que pensar pela própria cabeça, ter mundo e ser marido de uma mulher interessante, convenhamos que…

      1. Tem sim, só que se dispersa. E a deriva é para um assunto colateral. Peço desculpa por não me centrar no essencial, mas parti do princípio que o essencial estava dito no post e que bastaria a frase com que comecei para o reforçar:
        “Fez MMC muito bem. E se foi contra a posição “oficial” (deduzo pelos comentários), ainda melhor .”

        :)))

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