Estrelas de cinema (34)


Pedro Correia,

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A FORÇA DO DOM DA FÉ 

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De repente, no Outono passado, toda a gente em Espanha começou a falar deste filme. Por evidenciar um regresso sem biombos à prática católica, aliás perceptível em larga extensão da Europa contemporânea. Desfazendo o mito de que vivemos em sociedades largamente divorciadas da matriz cristã. Coincidindo com Lux, o mais recente álbum da deslumbrante Rosalía, e do excelente livro em que o agnóstico Javier Cercas expressou o seu fascínio pelo Papa Francisco sob o título O Louco de Deus no Fim do Mundo (editado em Portugal pela Porto Editora).

Os Domingos porquê? Por ser o dia da família – e o núcleo familiar é um dos focos desta admirável película da realizadora basca Alauda Ruiz de Azúa: três gerações de classe média em Bilbau. Num quadro quotidiano que poderia ser o de qualquer de nós. Também por ser um dia mais apropriado à pausa, à reflexão – algo que não falta aqui, em memoráveis cenas marcadas pelo silêncio, sempre difícil de captar em cinema de modo credível.

Teste superado, como outros: no argumento, na fotografia, na música, na soberba direcção de actores. Na sugestiva paisagem urbana de onde o sol está arredado quase do princípio ao fim.

 

Repare-se na força expressiva dos diálogos entre Ainara, quando revela o desejo de se tornar freira com 17 anos recém-cumpridos, e a tia anticlerical, que tudo tenta para contrariar a decisão da sobrinha. Os olhos de ambas vão-se humedecendo na razão directa da intensidade daqueles sentimentos em súbita colisão.

Repare-se no contraste entre a revolta de Maite – incapaz de perder sem protesto para as monjas do convento aquela adolescente órfã de mãe que ela ajudou a criar – e a placidez da jovem que parece contemplar o invisível, prestes a fazer voto de pobreza, obediência e castidade. Espantoso desempenho de Blanca Soroa nesta sua estreia como actriz.

 

Este filme fala-nos da força do dom da fé, capaz de mudar uma pessoa por dentro e de a iluminar em recantos onde a mera razão não chega. Nada “desmistifica” porque não é o que pretende: para isso há milhares de outros filmes.

Revela algo mais linear mas também mais complexo – e raro no cinema, pois passa ali uma vibração difícil de captar por imagens. Como acontece n’A Palavra, de Carl Dryer (centrado num milagre literal, não metafórico). Ou numa cena crucial de Viagem a Itália, de Roberto Rossellini, quando o céptico George Sanders, inglês em digressão pela Campânia católica, se escandaliza perante a devoção popular à Madonna em Nápoles: «Como podem acreditar nestas coisas? Parecem crianças!» A mulher, Ingrid Bergman, limita-se a retorquir: «As crianças são felizes.» 

Também ela crente em milagres, nomeadamente no milagre do amor nessa película onde céu e terra tanto se confundem.

 

Os Domingos é sem dúvida um filme do nosso tempo: o do tranquilo regresso à mensagem de Cristo, que atrai largos milhares de jovens como Ainara – fenómeno perceptível, domingo após domingo, em muitas igrejas católicas da Europa Central e Ocidental. Dando razão a André Malraux quando profetizou que o século XXI seria o da espiritualidade.

A realizadora, Alauda Ruiz de Azúa, não professa qualquer religião. Mas sabe observar. E transmite com invulgar sensibilidade aquilo que capta para além da bruma das aparências. Como se adoptasse o lema evangélico: «Não julgues e não serás julgada.»

Foi justamente distinguida com o Goya de melhor cineasta em 2025. Os galardões máximos do cinema espanhol contemplaram também Os Domingos como película do ano e as actrizes Patricia López Arnaiz (principal) e Nagore Aranburu (secundária), além do prémio para melhor argumento original. Após ter vencido a Concha de Ouro do Festival de San Sebastián.

 

Mesmo tratando-se de produção tão recente, não custa vaticinar que se destina a ser filme de culto em mais do que um sentido da expressão já consagrada. Dando corpo e luz à “nostalgia do absoluto” a que aludiu no El Mundo Jorge Bustos como espectador atento desta longa-metragem.

Podia ter como legenda os sublimes versos místicos atribuídos a Santa Teresa de Ávila: «Tú me mueves, Señor, muéveme el verte / clavado en una cruz y escarnecido, / muéveme ver tu cuerpo tan herido, / muévenme tus afrentas y tu muerte. // Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera, / que aunque no huviera cielo, yo te amara, / y aunque no hubiera infierno, te temiera. // No me tienes que dar porque te quiera, / pues aunque lo que espero no esperara, / lo mismo que te quiero te quisiera.»

 

Os Domingos. Titulo original: Los Domingos. De Alauda Ruiz de Azúa. Com Blanca Soroa, Patricia López Arnaiz, Miguel Garcés, Juan Minujín, Nagore Aranburu, Mabel Rivera. Produção espanhola (2025). Duração: 110 minutos.

 

8 comentários em “Estrelas de cinema (34)”

  1. Bom-dia, Pedro Correia.
    Irei vê-lo com toda a certeza.
    Muito obrigada por me ter dado a conhecê-lo.
    Continuação de um excelente dia.

  2. o cinema europeu quase desapareceu engolido pelo americano. vi películas europeias com qualidade superior.
    também verifico mais espiritualidade até em Portugal. as tvs portuguesas raramente mostram os 250 mil católicos da Praça de São Pedro.

  3. O Dominic Cummings, ex-assessor do Boris Johnson, no mês passado publicou no substack uma repescagem do T.S. Eliot ( People, Ideas, Machines XV: TS Eliot on culture, religion, class, elites, education, ‘progressives’ ), e só as citações introdutórias já valem a pena.

    E.g. “Man is little inclined to bow, except before what he believes to be right, or before what his notions teach him is far above him. He had long been made to bend before the religious superiority of the Eupatrid, who repeated the prayers and possessed the gods. But wealth did not overawe him. In presence of wealth, the most ordinary sentiment is not respect; it is envy.”

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