Este post não é sobre a greve geral


Rui Rocha,

 

 

Analisar a Greve Geral de hoje (um direito inquestionável dos trabalhadores, sublinhe-se) do ponto de vista da sua oportunidade no actual contexto social e económico seria um exercício muito interessante. Mesmo muito estimulante. Mas, a verdade é que, logo a seguir ao almoço, não me está a apetecer nada. Pronto, sobre este assunto, faço minhas as palavras do Manuel Alegre. Esclarecidos, não é? Não se fala mais nisso. Agora, não escondo que, como qualquer conflito social, a greve pode ser muito inspiradora. A ideia de serviços mínimos, por exemplo, tem muito potencial. Vejamos um caso concreto. No meio de alguma trapalhada que não vem agora ao caso, parece que foram fixados serviços mínimos na Justiça. Rejubilemos! Em que outro dia do ano é possível garantir que a Justiça portuguesa cumpre os mínimos? Alguém se atravessa? O Dr. Noronha do Nascimento lá ao fundo parece querer dizer alguma coisa… Engasgou-se… Catarro? Muito aborrecido, o catarro. Talvez o ilustre representante da Procuradoria-Geral da República? Agora não pode falar… Ah, está a consultar o site da PGR a ver se caiu alguma denúncia anónima. Mantenha-se à escuta, sim! Então, ninguém dá mais? É como digo! Ora, se é possível assegurar serviços mínimos num dia em que uma parte dos trabalhadores está em greve… não devia ser muito difícil mantê-los quando estão todos ao serviço. Não sei, digo eu. E o mesmo se aplica aos restantes sectores de actividade. Pois isso é que seria um grande desígnio nacional: serviços mínimos permanentes. Aliás, não me lembro de um projecto colectivo tão mobilizador desde que o Carlos Queiroz assumiu o cargo de seleccionador nacional. Já imaginaram? Serviços mínimos todos os dias nas Empresas Privadas, na Educação, na Saúde, nos Transportes, na Energia (sim, na energia, parece incrível, não é?), nas Repartições Públicas, eu sei lá mais onde. Uma pessoa entusiasma-se e até se põe a imaginar uma acção promocional: “venha às finanças / de Janeiro a Janeiro / temos serviços mínimos / o ano inteiro / é tão doce / venha cá!”. Depois disso, faltaria apenas um pequeno passo em frente. Aquele que confere em definitivo a aura da coragem desassombrada a quem o ousa verbalizar. É isso! Vá, vamos todos dar as mãos e dizer baixinho para não nos assustarmos com a nossa audácia: ser-vi-ços mí-ni-mos… vá, não tenham medo… no Go-ver-no. Era fantástico não era? Um Governo com um mínimo de eficiência, responsabilidade, lucidez e sentido de estado… Pois é. Pode parecer pouco ambicioso. Mas, olhando para o que nos rodeia, uma sociedade em que as Instituições assegurassem os mínimos já seria o máximo. A correr bem, e sempre com autorização prévia da Associação Nacional de Farmácias, até deixávamos todos de tomar Prozac.

 

* – Foto de Tom Varco

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