Esta Lisboa tão triste


Pedro Correia,

   

 

Aproveitando a tarde de sol primaveral, deambulo pelas ruas da Baixa lisboeta. Na Rua do Arsenal, espanto-me. Metade das lojas antiquíssimas desta histórica artéria alfacinha fecharam definitivamente: exibem agora apenas os seus tristes restos mortais. O comércio que não fechou está praticamente confinado a chineses e paquistaneses, que ali vendem as suas habituais bugigangas. Mais adiante, na belíssima Praça de São Paulo, o espanto aumenta: em todo o perímetro deste largo pombalino não se detecta uma loja de comércio. Encerrou tudo, em definitivo. Na faixa central, um esquálido quiosque vende bebidas a uns transeuntes mal amanhados. Há três ou quatro mesas a imitar uma esplanada, dois ou três velhotes sentam-se por ali, deixam-se ficar de olhos fixos no infinito, sem trocar uma palavra. Penso: se em vez de Lisboa estivéssemos noutra capital europeia – em Madrid ou Roma, em Paris ou Praga, em Estocolmo ou Londres – esta praça estava cheia de bonitas esplanadas, alegre e bem frequentada, cheia de cor e de vida. Nada a ver com este desmazelo e este desalento – um incrível desperdício iluminado pelo sol primaveral indiferente ao Tejo que se espraia ali ao lado.

29 comentários em “Esta Lisboa tão triste”

  1. Não vejo tantos motivos de espanto nisto.

    O centro de Lisboa é constituído de edifícios velhos, nos quais ninguém quer morar. (O Pedro Correia quer morar num edifício desses? Não, pois não? Então, compreenderá por que motivos as outras pessoas também não querem.) Logo, ninguém mora lá.

    Então, a única coisa que poderia fazer funcionar o comércio ali, seriam os turistas. Mas os turistas apenas procuram um número limitado de grandes lojas, as quais não podem encher toda uma rua.

    Se o Pedro fôr visitar o centro de Viena, digamos, verá que a situação não é tão diferente assim. Muito pouca gente mora no centro. O comércio que há, constituído por uma dúzia de grandes lojas, não enche, nem de longe, todas as ruas.

    1. Por acaso, o exemplo é curioso: o centro de Viena está cheio de esplanadas, que até funcionam o ano inteiro, com grandes aquecedores suspensos em redor e virados para as mesas…

      1. Também há esplanadas dessas na Rua Augusta, na Avenida da Liberdade e na Rua das Portas de Santo Antão. São frequentadas por turistas. O problema é que os turistas não vão ao Largo de São Paulo, pelos vistos.

    2. Luís, conheço bem a maioria das capitais europeias e em nenhuma existe uma situação tão desoladora como em Lisboa. A Praça de São Paulo, se fosse em Roma, estava cheia de vida e de esplanadas e de animação – em qualquer época do ano. Ou em Madrid, Paris, Praga, Viena, Amesterdão, etc. Não me interessou focar a raiz do problema, que sei bem qual é, mas apenas relatar o fenómeno. Sem abstracções. Falando de um caso concreto, que me parece emblemático. A cerca de 500 metros da Praça do Município.

  2. É muito triste, Lisboa morre a pouco e pouco.
    Por aqui, em Vila Franca passa-se o mesmo.
    Alguma coisa se poderá fazer para reabilitar estas cidades.

  3. Mas quem é que, de boa cabeça, vai passear para a Rua de S. Paulo, ao Cais do Sodré, que é tida como um lugar de muita prostituição e que não tem nada para ver ?

    1. Fica a 500m da Praça do Município, onde está instalada uma equipa camarária que em 2007 prometeu ‘reabilitar’ a cidade. Afinal, segundo me conta, está tudo menos reabilitada. Agradeço o seu contributo.

      1. E o Pedro Correia acha que em ano e meio ou quase dois, o assunto mais importante que o actual executivo camarário tinha como prioritártio era pôr esplanadas nas velhas praças de Lisboa ?
        Não foi mais importante começar a trabalhar para conseguir pôr a CML governável após os tratos de polé a que foi sujeita durante o executivo Santana, de má memória ?
        Não faltariam críticas populares perante uma medida dessas, não acha ? E com muita razão, decerto.

        1. Ninguém falou em «assunto mais importante», você é que está a falar disso. Quando se gere um município como Lisboa não há assuntos mais importantes que outros como você os hierarquiza. Pelo menos não imagino nenhum dos grandes autarcas europeus a pensar assim. Propositadamente, não quis trazer para este ‘post’ nenhuma análise política, você é que puxou o assunto. É um velho vício português.

  4. o comércio local extinguiu-se, pela acção predadora dos centros comerciais. e cada vez há mais, agora parece que estão a acabar a construção do maior deles, será o maior da Europa, ali para as bandas da Pontinha ou Odivelas… quem quiser encontrar lisboetas tem de ir aos centros comerciais, é lá que eles estão. e quem diz lisboetas, diz portistas ou coimbrões…

    1. Pois, Carlos. E quem facilita a instalação dessas grandes superfícies são os mesmos autarcas que lamentam a ‘degradação’das cidades e prometem ‘reabilitá-las’ enquanto dão luz verde a outras grandes superfícies.

  5. Que saudades de quando tudo era simples. Quando o tradicional era bonito e imagens nos inundava de imagens de encher a alma.

    Hoje, enfim… reina o centro comercial e o plástico. falta a loja da esquina, as pessoas, como disse e muito bem, falta a vida.

  6. Não se compreende como é que Lisboa não aproveita as suas potencialidades. Tal como parte do país o clima é ameno e a luz de Lisboa, além de um clássico e de um cliché, é também uma realidade. Concordo, Pedro, há outras cidades europeias que não têm este sol e esta luz e são infinitamente mais aprazíveis.

    1. Pois, Leonor. E o pior é que creio não ser necessário haver um autarca de génio para fazer isso em Lisboa. Ou será que as outras capitais são todas geridas por autarcas de génio?

    1. Pois merecia, Teresa. Mas olha-se em redor e só se v
      e edifícios emparedados ou fechados, a ameaçar derrocada. Tudo muito velho, muito decrépito, muito triste. Em plena baixa pombalina.

  7. Concordo contigo, Pedro, mas apesar de tudo Lisboa está bastante melhor nesse aspecto, do que há meia dúzia de anos.
    Por outro lado, não me esqueço das frustradas tentativas de animação do Terreior do Paço e pergunto se o problema não estará nos lisboetas.
    Ainda há umas semanas estive em Roma onde, para além de as esplanadas estraem sempre a abarrotar, as principais ruas se encem de romanos a passear ao fm de semana. Na Vitor Emenulle, desde a Piazza Venecia à Piazza del Popolo, havia um mar de gente, apesar de o tempo estra cinzento. A diferença é que lá as pessoas preferem as esplanadas ao ar livre, enquanto os tugas gostam mais das esplanadas dos centros comerciais.

    1. Carlos, já olhaste bem para o Terreito do Paço? Aquilo não é uma Praça do Comércio: é mesmo um terreiro. Nem uma erva daninha nasce ali. Para mim, aquilo é um ringue de hóquei em patins às moscas, bem no primeiro plano do que chamam o “cartão de visita” da capital.

    2. A Praça de São Paulo faz-me lembrar várias praças de Roma, Carlos. Lá seria uma festa; aqui é um velório. Um dos problemas é haver cada vez menos lisboetas: as pessoas continuam a ser empurradas para a periferia.

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