Ensinem os filhos a falhar – Alto! No meio de tanto apelo ao sucesso, esta sentença é de uma frescura irresistível. Quem é que diz isto? Jean Pierre Lebrun, fico a saber. É um psicanalista belga, especialista em relações familiares. Escaldada com tanta publicidade enganosa começo a ler a entrevista que ele deu à Veja com reservas, à espera da desconstrução da frase, que fora do contexto pode parecer querer dizer uma coisa, mas depois de explicada, significar quase o contrário. Acontece tanta vez…
Mas, oh surpresa! Se alguma coisa se desconstrói a partir do discurso deste homem são as ideias que andam a angustiar as últimas gerações de pais. Gerações que perderam a autoridade natural dos progenitores à moda antiga e que agora andam aos papéis, sem saber como educar os filhos e ainda por cima obcecadas com a ideia de que o sucesso é uma condição de sobrevivência.
Como hoje a organização social não está constituída como pirâmide mas como rede e na rede não existe esse lugar diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. Diz ele que os pais precisam de discutir e negociar o que antes eram ordens definitivas, mas deixar claro que depois da troca de ideias a decisão é sua. Portanto, nada de transferência de poderes.
Mas quando fala de sucesso é que o seu discurso ganha especial interesse. Começa por afirmar que a concentração de expectativas nos rebentos – tão comum entre todos nós – é uma tentação a evitar: Os filhos tornaram-se um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida, afirma o psicanalista. Além disso não é justo que além de carregarem o peso das suas próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles.
A obsessão pelo sucesso, que entretanto se generalizou, só pode, na opinião de Jean Pierre Lebrun, atrofiar cabecinhas em idade de crescimento: Quando os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os jovens. No meio destas considerações o psicanalista explica o título que me agarrou à leitura: É inescapável errar. Todos, em algum momento, vão passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne destrutivo. De repente percebi melhor por que raio andam tantos miúdos a tratar-se de depressões. Reflectem apenas o comportamento neurótico de todos nós, escravos e amantes do sucesso.


“Os filhos tornaram-se um indicador do sucesso dos pais” não podia ser mais verdadeira esta frase Teresa 🙂 on/books
.. e se gosta do tema, vai certamente gostar disto:
http://www.sfb.co.uk/speakers/ken_robins
🙂
Obrigada pela dica, Catarina. Já lá vou espreitar:)
Teresa
Lembro-me da polémica que o livro gerou em Espanha, por exemplo. Sei que em pelo menos duas escolas portuguesas o livro foi discutido acaloradamente em reuniões de asociações de pais e o Daniel Sampaio, salvo erro, também escreveu uma crónica na “Pública” sobre o assunto.
Aliás, o tema vem muito ao encontro do livro do DS ” Inventem-se novos pais”
Não li o “Inventem-se Novos Pais”, Carlos, mas conheço o pensamento de Daniel Sampaio através do que tenho lido e ouvido nos media. Não me espanta a sintonia.
Excelente ‘post’, Teresa. Concordo em absoluto com o que diz Jean-Pierre Lebrun: “É inescapável errar. Todos, em algum momento, vão passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne destrutivo.” Educação é isto mesmo.