Ensaio sobre a cegueira


Luís Menezes Leitão,

 

Novamente o lançamento de mais medidas de austeridade na Grécia, uma vez que, por mais brutais que sejam as anteriores, elas nunca chegam. Fico perplexo que alguém julgue que é possível prosseguir num caminho que toda a gente já percebeu onde vai levar. Uma regra fundamental na política é o de que tem que acontecer é melhor que aconteça logo. Mais vale encarar os problemas de frente do que adiar o inevitável.

 

O ano passado, numa reunião internacional, conheci um Professor de uma Universidade grega. Perguntei-lhe como estava a situação na Grécia e a resposta dele foi a de que lhe tinham cortado 25% do seu salário. Soube posteriormente que os impostos sobre o imobiliário decuplicaram na Grécia no ano passado.

 

Este ano, a Grécia tem andado a apresentar medidas de austeridade cada vez mais absurdas, quer de cortes nos salários, quer de aumento de impostos. Em 11 de Setembro anunciou um novo aumento de imposto sobre o imobiliário, a cobrar na conta da luz, em ordem a obter uma receita extarordinária de dois mil milhões de euros. Como em Portugal a receita anual do IMI é de mil milhões de euros (a troika propôs um aumento de 250 milhões) e a Grécia tem sensivelmente a mesma população de Portugal, imagine-se o impacto deste novo imposto. E o facto de ser cobrado na factura da luz parece ter o objectivo de cortar a luz a quem não o pagar.

 

Agora apenas dez dias depois surgem ainda novas medidas de austeridade: corte de 20% nas pensões acima de 1200 euros e colocação de 30000 funcionários públicos numa bolsa especial, em que lhes é cortado 60% do vencimento, podendo mesmo ser despedidos. E o absurdo imposto imobiliário acima referido é prorrogado até 2014, só ficando isentos os cidadãos que ganhem menos de 5000 euros anuais! Devem ser os únicos a quem não vai ser cortada a luz.

 

Como não podia deixar de ser o resultado desta política é de que a Grécia entrou numa enorme recessão, sofrendo uma contracção de 7,3% do PIB. É por isso manifesto que não vai conseguir pagar nada das suas dívidas e que estas medidas de austeridade para dar confiança aos mercados vão ser totalmente inúteis.

 

O comportamento dos outros países europeus em relação à Grécia lembra-me o Ensaio sobre a cegueira, de Saramago. Quando várias pessoas ficam cegas em resultado de uma doença misteriosa, são colocados numa prisão em isolamento para evitar o contágio. O problema é que o contágio não deixa de se verificar, crescendo o número de presos até que os próprios governantes são atingidos. Quando a Grécia cair (já não é se…) o contágio aos outros países europeus é inevitável. Passos Coelho já o reconheceu ontem. Lastimavelmente, no entanto, a Europa continua a caminhar para o abismo, insistindo numa via que já se provou que não resolve o problema dos países endividados. Por onde anda a proclamada solidariedade europeia?

4 comentários em “Ensaio sobre a cegueira”

  1. Então os Gregos não podem viver como no ano 2000? É isso?

    “Como não podia deixar de ser o resultado desta política é de que a Grécia entrou numa enorme recessão, sofrendo uma contracção de 7,3% do PIB.”

    Sim, e? é isso que acontece a quem começa a viver sem tanto crédito. Já não pode comprar o que comprava no passado.
    Como a Grécia não produz para pagar os níveis de crédito que pediu terá de ficar mais pobre.

    Concordo com uma coisa que disse. Os cortes devem ser feitos tanto quanto possível de uma vez.
    Isso quer dizer défice zero como objectivo no primeiro ano.
    Não o que se faz de reduzir deficit de 12% para 10% para 8% para 6% para 4% para 2% a cada ano. Pois em qualquer caso se está a endividar mais.

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