Encher chouriços sem nada para noticiar


Pedro Correia,

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Voltamos ao mesmo em tempo de directos na cobertura de congressos partidários e de foragidos à justiça enfim apresentados ao tribunal: horas intermináveis de apontamentos de reportagem sem conteúdo de espécie alguma.

Nos últimos dias, a CMTV levou esta tendência ao extremo, sem aparente receio do ridículo. Exibindo um plano fixo de uma porta. Os minutos escoavam-se, só as legendas iam sendo alteradas: «Rendeiro está aqui»; «Rendeiro está atrás desta porta»; «Esta porta vai abrir». Pouco antes, destacava-se em rigoroso exclusivo: «Rendeiro já mudou de T-shirt.» Louve-se, ao menos, o procedimento higiénico do senhor.

Toca a encher chouriços, como se diz na gíria jornalística, para compensar inexistentes vestígios de notícia. Fulano X ou Y entra e sai, mantendo-se em silêncio, enquanto uma chusma de jornalistas procura à força extrair-lhe uma frase, uma sílaba, um mero espirro. Acotovelam-se, atropelam-se, chegam a tropeçar em cabos. Isto só cria ruído inútil, tem valor informativo nulo e fornece aos cidadãos uma péssima imagem do jornalismo em geral.

Tudo leva a crer que os directores de informação serão os primeiros a pensar assim. E tudo leva a crer também que só incentivam os repórteres no terreno a comportarem-se desta forma pelo pior dos motivos, muito à portuguesa: «porque os outros fazem, temos de fazer como eles.»

Raras vezes vemos em canais estrangeiros aquilo que é muito comum por cá: microfones estendidos na direcção de governantes ou dirigentes partidários à entrada e saída dos respectivos automóveis. Com as perguntas mais irrelevantes, que em regra suscitam monossílabos sarcásticos ou desdenhosos. Não é esse o momento nem o local para fazer perguntas, quase sempre aos gritos. Como se houvesse um Prémio Gazeta para o jornalista que mais berra.

Estranhamente, assistimos em paralelo à tendência inversa: conferências de imprensa «sem direito a perguntas» – seja na política, seja no futebol. Os repórteres conformam-se com a humilhante condição de pés-de-microfone. Cena aberrante, cada vez mais frequente, quando esse é precisamente o momento em que o jornalista mais tem o direito – que é um dever deontológico – de fazer perguntas.

Se aceitam emudecer, falham na missão.

Porque se acomodam ao silêncio com tanta resignação? Porque não fazem de conta que está ali um político, um alto funcionário, um banqueiro ou um dirigente desportivo a sair do carro?

Enquanto uns se calam, há quem fale quando e onde não devia. Custa aceitar, por exemplo, que a CNN convide o socialista Fernando Medina, candidato colocado no quinto posto da lista do seu partido por Lisboa, para comentar o congresso do PSD. Falando com a isenção e o desinteresse que se imagina.

Mau serviço prestado aos telespectadores pelo novo canal, que assim repete vícios antigos de outras estações. Temos a legítima expectativa de aguardar mais dele.

 

Texto publicado no semanário Novo

23 comentários em “Encher chouriços sem nada para noticiar”

  1. A CMTV decidiu falar com uma porta. Milhares (milhões?) de pessoas decidiram ver a CMTV a falar com uma porta.

    1. Ora bem.
      O mal não é somente a CMTV estar a filmar a porta. O mal é as pessoas terem a televisão continuamente ligada, sintonizada na CMTV que filma a porta.
      Há cada vez mais pessoas que têm a televisão permanentemente ligada, com o som bastante baixo, tão-somente para lhes fazer companhia. Tanto se lhes dá que a televisão esteja a transmitir uma porta como outra coisa qualquer – a televisão está ligada só por estar.

      1. Sim, um dos grandes problemas são as pessoas.

        Mas “horas intermináveis de apontamentos de reportagem sem conteúdo de espécie alguma”, também vemos muito nos blogues.

        Mas como saberão é mesmo isso que interessa.

        E mais uma vez, um dos grandes problemas são as pessoas, não alguns políticos e outros, as pessoas. Os políticos e outros fazem parte das pessoas.

  2. «Rendeiro está aqui»; «Rendeiro está atrás desta porta»; «Rendeiro já mudou de T-shirt.»

    Mais fundamentalmente ridículo do que isto é que, de facto, a maior parte dos portugueses nem sequer sabe quem é Rendeiro. Muito menos se importa do que lhe acontece ou do que ele esteja a fazer.

    Rendeiro foi um banqueiro de ricos, de um mini-banco do qual só muito poucos eram clientes, do qual praticamente não se falava, e que causou muito pouco prejuízo à generalidade da população quando faliu.

    Para a imensa maioria dos portugueses, Rendeiro não é ninguém.

    1. Mas basta ser rico para ser a epítome dos males do país. Até está na Bíblia (não viesse a Bíblia da terra dos -ismos todos). E como tal a história passa a ser a seguinte:

      Apanha-se um rico e corrige-se as maldades todas que esta república e o socialismo não conseguem corrigir. Como se sabe, o falhanço total do esquerdismo e a sua incapacidade para gerar o que quer que seja que não seja mais impostos, é culpa dos dois ou três ricos malvados que existiam em Portugal e que se dedicavam a rapinar-se uns aos outros.

  3. o novo canal, que assim repete vícios antigos de outras estações. Temos a legítima expectativa de aguardar mais dele.

    Eu jamais tive tal expetativa.

    A CNN, recordemo-la, foi aquela estação que transmitiu a Guerra do Golfo em direto, como jornalistas “embebidos” no exército americano. De uma estação que faz isso, nada de bom há a esperar.

    A CNN Portugal é tão-somente uma remodelação, sob franchisado, de uma empresa portuguesa já bem existente. Transportanto todos os “vícios antigos” que ela já tinha.

    Basta ver a festa de inauguração que ela fez para se ficar com péssima impressão.

  4. além de pretoguês falo e escrevo Portilhol
    « me cago en los politicos »

    fica melhor em Inglés
    Fuck you and your friends
    That I’ll never see again
    Everybody but your dog
    You can all fuck off
    letras.mus.br/gayle/abcdefu/

  5. Como se diz na gíria jornalística, salvo seja. Não se aproprie do jargão “encher chouriças”, tantas vezes usado antes, durante e após reuniões de trabalho.
    Alguns pontos, o primeiro é de que a CMTV não é exemplo para o que seja remotamente relacionado com exercício de jornalismo enquanto algo diferente de mero entretenimento, o segundo é que era expectável que a CNN fosse idêntica em tudo à TVI24, pois o que mudou foi apenas e só o logo.
    Confesso que este texto me trouxe alguma nostalgia, recorda-me o Carlos Cruz e o seu 1-2-3. Qual o prémio por trás da porta número 1? É um banqueiro foragido à justiça!!!!!

    1. Mas as massas querem é entretenimento.
      De facto a CNN Portugal deixa muito a desejar, até a SIC N parece uma fonte de informação mais credível.

      P.S. – Soube hoje que um jogador do S.C.P. voltou a ficar infectado com o vírus chinês, alguém sabe explicar o porquê.

      WW

  6. O que eu acho estranho é que o Rendeiro tenha mudado de T-shirt e não tenha mudado de cuecas. Como ele disse que já não regressava a Portugal, de certeza que também lhe lavam o rabinho com água de malvas. E a CMTV não informa?

  7. É desnecessário buscar notícias em canais de propaganda. No entanto importa ler e ouvir a propaganda para melhor perceber onde está a notícia. A notícia é sempre o contrário do que se propagandeia, e obedece a uma acção metódica por parte do interessado(a) na busca da verdade.
    Os meios digitais, com a devida triagem, proporcionaram a que cada cidadão se transformasse em repórter e agente de notícias. O futuro voltará a ser a comunicação e a notícia escrita com anexos visuais que os meios digitais proporcionam para a coadjuvar.

  8. Honra lhe seja feita, ao contrário do canal-anteriormente-conhecido-como-TVI24, a CMTV não pretende ser aquilo que não é. E até tem alguns comentadores interessantes. Pode não lhes dar muitos minutos para falar mas três minutos de alguma coisa sempre é melhor do que quarenta e cinco de nulidade.

  9. Quer dizer a rtp3 deu o congresso do centro de manhã, à tarde e à noite como nunca tinha acontecido, até deu durante uns minutos, em directo, o aspecto do pavilhão com meia dúzia de pessoas fora da hora dos trabalhos. E cnn com o medina 5º a comentar é que foi má ideia, a não ser que seja já um trampolim para entrar na barra fixa, e isso não se faz numa tv independente.

  10. Há muitos anos Joaquim Letria escreveu que já não havia jornalistas mas sim moços de recados, é só escolher,JMT, MST e muitos mais no Expresso e no Observador

    1. Presumo que JMT seja João Miguel Tavares – tive de ir ao Google (não leio o Público) e por jmt obtive página e meia de Jerónimo Martins, depois uma bateria de lítio, antes de acrescentar jornalista à pesquisa – mas MST só pode ser Miguel Sousa Tavares que há meses que já não é jornalista.
      O tribalismo ideológico, mesmo de esquerda, não perdia com algum rigor.

  11. António
    Parabéns pelo excelente texto.
    A prova mais que evidente que os “intocáveis” jornalistas, alguns, são mesmo inúteis.
    Parabéns por tocar na ferida.

  12. pois…é a vida…ou, como dizia o outro, na terra em que viveres faz o que vires fazer.
    Um outro blog, tambem nos Destaque, diz que é assim porque a democracia impera, e enquanto imperar nada feito.

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