
Todo o Desporto, principalmente o Futebol, é uma emoção.
Nascida no bairro ao lado e criada em Belém, uma das minhas mais antigas e mais nítidas memórias é estar vestida com umas jardineiras azuis com enormes botões azuis claros de madeira e sentada na cadeira giratória da barbearia do Felgueiras, em frente ao Chafariz da Memória, com o meu avô Américo a apressar o exímio assassino de fartas melenas, até chegar ao pretendido look à Joãozinho. Vamos lá, Felgueiras, que o jogo daqui a pouco começa, dizia o meu avô com o relógio fora do bolso do colete, já a perder a paciência com os retoques finais. O produto daquele devaneio capilar havia de dar grandes dores de cabeça ao meu avô durante muito tempo, sendo que “cortar o cabelo à Joãozinho” se tornaria anedota familiar, qualquer coisa na linha “quem não tem cão, caça com gato”.
Mal acabou de pagar, o meu avô pôs-me literalmente debaixo do braço e ala que se faz tarde, desatou a correr pelas terras, passou o Salão Portugal, atravessou a Calçada da Ajuda, a antiga Rua Coronel Pereira da Silva e desceu uns barrancos e mais umas terras até chegar às Salésias.
Sentada no chão à beira da relva a lambuzar-me com um chupa de groselha, via uma data de pernas a correr atrás de uma bola, num qualquer jogo de treino do Belenenses, em que o meu avô, torneiro mecânico de profissão e árbitro de coração, vibrava sempre como se fosse uma grande final. Foi o maior Belenense que conheci. Aprendi com ele que não há nada mais belo do que a Cruz de Cristo ao peito, bem em cima do coração. Aprendi que a vista do Restelo para o mar inspira grandiosidade. Aprendi a vibrar com as vitórias e a aceitar as derrotas com a dignidade de um verdadeiro adepto de sangue azul. Fiquei rouca e doida em 28 de Maio de 1989. Belém viveu um tsunami azul e eu fico feliz em ter feito parte dele.
Foi uma emoção indescritível. Belenenses para sempre. Com a certeza de vencer!
Com o casamento, recebi o nome do marido como era da lei e a loucura verde. Identifiquei-me prontamente com a dignidade da resignação e da tolerância do meu sportinguista, tão diferente da arrogância clubística que diariamente provocava grande parte da poluição sonora no meu local de trabalho.
Só tivemos divergências futebolísticas quando os nossos clubes se enfrentavam e mesmo assim quem ria por último respeitava o meio sorriso do outro. Foi sempre assim. Vibrei com ele em 1982, em 2000, em 2002 e este ano a 11 de Maio, numa noite memorável em que, sentados com a neta a ver um espectáculo e com o telemóvel quase sem luz de ecrã, estávamos sempre atentos ao desenrolar do jogo, a neta a perguntar constantemente “então, então?” ou não fosse ela uma digna descendente de almas leoninas. Pulámos os três no Largo do Carmo em frente ao quiosque como se tivéssemos molas nos pés. Rapaziada, oiçam bem o que vos digo e gritem todos comigo!
Foi uma emoção tremenda .
Emociono-me a cada vitória, clubística ou nacional.
Correm-me abundantes lágrimas à lembrança daquele Verão de 1984 em Albufeira, com a transmissão em directo da prova de Maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em pé junto ao balcão de um cafezinho apinhado de gente, em frente a um pequeno aparelho de TV. Ver o Carlos Lopes chegar à meta em primeiro, vê-lo subir ao podium, ver a nossa bandeira no mastro mais alto e ouvir o nosso hino tocar foi de uma emoção avassaladora, daquelas que criam sentimentos de pertença tão profundos como uma marca a ferro e fogo.

Há dias li, numa entrevista, uma frase do escritor timorense Luís Cardoso a propósito de um seu livro «O Plantador de Abóboras»:
«O passado é um lugar estranho quando se sai dele como se nunca lá tivesse entrado.»
Para lhe dizer que guardo do Belenenses bonitas recordações. A família era vermelha na sua maioria, havia um tio belenenses, havia um tio sportinguista. O meu avô, tirando ele, apenas permitia que o tio do Belenenses me levasse à bola. Os jogos eram no velho Estádio das Salésias e metiam lanche.
Um ano, tão longe esse ano, fui com o meu avô ver o Benfica-Atlético. Ao mesmo tempo, nas Salésias, o Belenenses preparava-se para vencer o seu segundo campeonato. Bastava o empate. Diz a lenda que José Pereira, o pássaro azul, terá dito ao Martins, avançado-centro do Sporting: «Eu saio daqui em ombros, tu sais de carroça». É quando, quase no tombar do jogo, Martins faz o segundo golo do Sporting e impede o Belenenses de ganhar o campeonato.
No estádio da Luz, nos rádios a pilhas ouviu-se o golo do Martins, apenas dois anéis, não estava cheio, mas o relvado foi invadido e ouviram-se foguetes lançados por aqueles que acreditam sempre. Lembro-me do Germano central do Atlético, que na época seguinte iria para o Benfica, a ajudar a pôr aquela gente fora do relvado para que o jogo tivesse um fim. Lembro-me do meu avô perguntar porque não estava contente e o meu silêncio a marcar a tristeza do meu tio Belenenses, Carlos de seu nome. Ainda o meu tio sportinguista, Angelino de seu nome, a dizer ao meu avô: «O pai nunca se esqueça que o Sporting deu-lhe este campeonato!»
O passado é mesmo um lugar estranho.
O passado é aquele lugar especial onde regressamos sempre, mesmo involuntariamente.
Uma família com pluralismo futebolístico é uma família unida, caramba! Nisto do futebol, uns dias são da caça, outros do caçador, mas o verdadeiro troféu é o desportivismo.
Obrigada por partilhar a sua história, Orlando.
A Maria Dulce é vel… cot… vintage.
Nunca fui nem sequer tenho qualquer memória das Salésias. Muitos Domingos passados no Restelo, ao que seguia um jogo de andebol ou hóquei no pavilhão. Foi pena o rumo que o clube tomou.
Ver o Carlos Lopes foi prémio para noite em branco. Ainda não havia pedalada para essas coisas.
Ora Anonimus, um verdadeiro Belenenses tem que saber onde ficam umas poucas coisas:
Onde fica o banco
Onde ficam as Salésias
Onde fica o Estádio do Restelo
Eu sou velhota, mas já sou pós-Restelo! E sei onde ficam as Salésias!
O meu avô Américo, que era árbitro de jogos não oficiais, levava-me aos treinos. Depois ficou muito doente e aos jogos no Restelo fui com o meu pai e com a Tia Adelaide. O meu irmão do meio, por iniciativa e paixão clubística do seu padrinho, o Tio Zé, foi feito sócio do Belenenses com dois dias de vida. Já recebeu o emblema de ouro.
O meu pai era (é) Belém, eu apenas fui representante do dito.
Mas jamais me lembro dele ter ido às Salésias (que ainda por cima ficavam perto cá de casa).
Após a inauguração do estádio do Restelo, as bancadas e cobertura das Salésias foram desmanteladas e funcionava principalmente como campo de treinos, como aliás referi no texto. O meu avô Américo arbitrou muitos desses jogos. Talvez ao seu pai não lhe interessasse ver as equipas treinar? O meu pai, outro grande Belenenses, também não era frequentador dos jogos e treinos nas Salésias.
https://www.osbelenenses.com/2014/0 4/24-de-abril-de-1937-inauguracao-do-arr elvamento-do-estadio-das-salesias/
Anónimo das 17:02h, parafraseando o Bolinha França, estupidez não entra. Tenha juízo.
Acho uma parvoíce perder-se a cabeça por disputas de qq desporto.
Em miúdo pouco sabia de futebol, mas houve um ano em que o Belenenses ganhou o campeonato. Desde aí fiquei seu simpatizante. Logo fora de discussões patéticas entre os chamados “clubes mmaiores”
Concordo em absoluto!
Ver Carlos Lopes ganhar e subir ao podium, ouvir o nosso hino, foi de uma beleza e comoção indescritíveis. Tal qual como diz. E mais eu que descobri nessa noite memorável que o conhecia sem saber. Todas as noites ele corria à volta do relvado frente à reitoria cronometrado e aconselhado por Moniz Pereira. Diariamente os encontrava à mesma hora, eu descia a alameda e eles continuavam. Chovia e Carlos Lopes corria; fazia frio, idem; estava um calorão e ele sempre correndo. Os estudantes passavam sem ligar meia àquele corredor perseverante ou a quem o acompanhava, talvez até pensassem que eram uns palermas quaisquer.
Grandes emoções trazem com elas grandes memórias, Bea., como essa fantástica da sua redescoberta do Carlos Lopes. E é sempre uma emoção relembrar. Beijinhos.
Excelente, Dulce. Grande texto.
Obrigada Pedro pelo emocionante comentário
O meu pai fez-nos sócias do Sporting ainda pequeninas. Íamos em família ver os jogos ao estádio. Mas a grande emoção para mim era o gelado no intervalo! Gostei muito do seu texto. Bom fim de semana.
Comigo era língua da sogra. Olhá língua da sogra! E a Tia Adelaide dava-me dois cruzados e o senhor invariavelmente dizia ” Toma lá a tua língua da sogra. Que menina tão linda”.
Com Papas e bolos, se enganam os tolos
BFS, Susana.