Emoções  #4


Maria Dulce Fernandes,

Piadas com piada

Amanhã vou a Évora.

E como tantas vezes, em tantas circunstâncias idênticas ou díspares, a frase “mas a minha mãe foi a Évora” pinta-me um sorriso rasgado. Não só por me recordar de momentos familiares divertidos, de rever ou reouvir “A história da minha vida”, mas também por me relembrar tempos mais negros, quando a necessidade aguçava o engenho, a piada não era apenas um triste e fácil palavrão, tinha conotações sociopolíticas e nos obrigava a pensar.

O meu pai adorava o teatro de revista. Compravam-se bilhetes de frisa  para o Maria Vitória e de vez em quando eu era contemplada com uma ida à revista.

Relembro com agrado os momentos deliciosos, plenos de hilariantes diálogos carregados de inteligentes subentendidos que satirizavam a sociedade portuguesa e o que se passava fora de portas, e principalmente a classe política. Em tempos de censura a criatividade era absolutamente fabulosa.

Do alto dos meus 14 anos, na primeira vez que fui à revista, não alcancei o motivo de tantas gargalhadas até às lágrimas, mas aprendi com o tempo.

É sempre uma emoção recordar a emoção que era repetir, sabendo que se estava a transgredir.

É sempre uma emoção rir do riso inteligente e franco que nos proporcionavam.

Nomes como os de Henrique Santana, Eugénio Salvador, Raul Solnado, Ivone Silva, Óscar Acúrcio, Vítor Mendes e tantos outros fazem parte do meu imaginário de adolescente no regime, em transição para a liberdade.

É verdade que rir é o melhor remédio mas há rir e rir. Piadas muito giras, cheias de vulgaridades obscenas, funcionam por meia dúzia de vezes. Depois é mais do mesmo e deixa de ter, ou ser, piada. Outras piadas há que pelo seu burilado se tornaram intemporais e essas é sempre emocionante recordar.

Entender a brejeirice dos diálogos, dos monólogos, das letras das músicas era uma emoção que me emociona até hoje.

10 comentários em “Emoções  #4”

  1. Também cresci nesse mundo, mas a “ouvir discos pedidos”; conheço apenas da TV o Teatro de Revista e, salvo raras excepções, não lhe encontro piada nenhuma. Melhor os filmes antigos, de “quando os Vascos eram Santanas” e “Portugal estava sempre desafinado!”. O Solnado era um mestre da piada, mesmo que muitas das historias fossem “recriações” a partir de sketches de um espanhol que escutei mais tarde e que usava sempre o telefone: Miguel Gilla. O próprio Solnado disse que se inspirava nele. Os que hoje propagam “piadolas” por aí, tal como muitos que “compõem” músicas baseadas em três acordes não passam de transcrições de coisas americanas a que, infelizmente para eles, hoje qualquer um tem acesso pela internet…

    1. Presentemente o teatro de revista não está bem o que muito me entristece. Não é por causa da televisão ou da Internet, é mesmo por falta daquela qualidade na escrita e na actuação que marcou os anos dourados da boa revista. Já depois do 25 de Abril vi ” Até parece Mentira” e era de uma qualidade inegável, com o Henrique Santana ( lá está, filho de peixe…) a fazer um extraordinário “Gil” Eanes.
      Bendita inspiração do Solnado! Muitos dos seus “bordões” ainda hoje se repetem!!!

  2. Basta ver os novos filmes ” Pátio das cantigas ” e ” Leão da estrela” para ter a noção da diferença que existe entre uma piada intemporal e uma piada vulgar.
    Os antigos filmes já os vi vezes sem conta, e cada vez que os vejo a emoção é indescritível. As novas pseudo imitações nem uma consegui ver até ao fim.

    1. Verdade! Estão bem adaptados à corriqueirice semi oca dos novos tempos.
      Neste exemplo que aqui coloquei, o ” estou livre, estou livre! Está livre? Então leve-me ao Estádio Sá Luz!”, dentre outras expressões, ainda agora se fala. Incorporou-se no léxico, por ter genuinamente piada.

      1. Essa frase lembrou-me outra ” Ó Evaristo tens cá disto?”.
        Velhos tempos. É uma mistura de emoção com saudade.

  3. O Raul Solnado tinha mesmo muita piada. Não precisava fazer caretas ou afins. Bastava falar com aquela maneira dele.
    Eu sou fã dos filmes portugueses da década de 40. O Leão da Estrela é o meu favorito 🙂

    1. Eu sou fã de boas comédias de costumes, Suzana. Se as de “antigamente” funcionavam em todos os aspectos, porque é que nesta era em que tudo é possível, é tão difícil rir com qualidade?
      Adoro o Leão da Estrela e o Pai Tirano.

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