Sobre o fiasco que está a ser a iniciativa da Superliga Europeia, só me consigo lembrar da Primeira Epístola de São Paulo a Timóteo (6.9-10.): “Mas os que querem ser ricos caem na tentação, e nos laços do demónio, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se trespassaram a si mesmos com muitas dores“.
A Superliga europeia.
Luís Menezes Leitão,

muitas concupiscências nocivas…
(Seria interessante saber qual a palavra na língua original da Epístola para “concupiscências”.)
A criação da SuperLiga é uma inevitabilidade, que apenas foi adiada. E se existe culpado, é a UEFA, que criou uma prova feita para a elite, aumentou o fosso entre os muito ricos e os outros, num ciclo vicioso. Os “bigs” sustentam a prova, e a prova sustenta os “bigs”. Claro que ninguém quer saber do Ajax, Steua de Bucareste ou Celtic (adorável a malta do burgo pensar que os portugas são relevantes lá fora), porque se foram criando condições para tal, através do enorme desnível dos prémios, e de uma falta de regulação que permite injecções de capital em emblemas, desnivelando por completo o campo de jogo.
Esta nova prova não era destinada ao povo que saiu à rua, mas sim aos milhões de americanos e asiáticos que, do sofá de sua casa, sustentam os salários do Messi e CR, e as rescisões do Mourinho.
Agora que o povo venceu a luta pelo futebol enquanto desporto popular, e a equidade e justiça regressaram ao desporto-rei, a UEFA vai tratar de dar mais umas benesses aos históricos clubes e maiores ligas, de modo a apaziguar estes.
Excelente comentário. Plenamente de acordo.
É um fenómeno estranho. São os campeões das dividas, mas simultaneamente, campeões dentro do campo. Tentaram com esta superliga uma fuga para a frente, não conseguiram, mas a UEFA continuará a dar cobertura a estes clubes.
Balio, aqui estou balando.
Concupiscência: “um desejo ardente”. O termo original é aplicado em Êxodo 15:9 para se referir à ambição do exército de faraó em alcançar e destruir o povo de Israel.
Outro termo hebraico, ta’awa, que é aplicado no sentido de “luxúria”, “desejo excessivo”, como em Números 11:4,34 e Salmo 78:30.
No Novo Testamento, concupiscência traduz com frequência o grego epithumia, que também é aplicado em diferentes contextos:
Ex: O desejo ardente de Jesus em celebrar a refeição pascal com seus discípulos.
No livro do Apocalipse, João utilizou o termo para se referir à ânsia dos negociantes em contabilizar seus lucros (Ap 18:14).
Obrigado. Vê-se pois que “concupiscência” não terá na Epístola a conotação sexual que hoje em dia se lhe atribuirá.
Sim. A palavra “epithymía” aqui aplicada significa desejo, paixão e concupiscência… além do mais vem qualificada com “anoêtous kai blaberás” (“louca e nociva”)
Mas então, afinal, que significado tem “epithumía” neste contexto? Um desejo sexual concupiscente e lascivo? Ou um desejo ardente, uma ambição, que não de natureza sexual?
Como apenas pediam a palavra original, foi o que escrevi. Efectivamente, a opção da tradução portuguesa neste contexto, usada pela Bíblia de Jerusalém, que é uma referência na matéria, é “desejo”. fora de qualquer conotação sexual. Portanto, a tradução completa da expressão seria “desejo insensato e prejudicial”.
Possui o mesmo sentido que João oferece no livro da revelação.
Uma luta entre comadres naquele nível, mas comadres, mesmo assim.
É assim numa casa aonde começa a faltar pão, perdão, a champanhe e caviar. A pandemia com os estádios vazios chegou às cúpulas do futebol.
Instabilididade nas torres de marfim é outra loiça.
Curiosamente uma demonstração clara do diferente grau de literacia e interesse popular entre estes dois temas: o futebol e a política. Neste as cúpulas podem fazer o que quizerem desde que não faltem papas e bolos. Naquele, o desporto Rei de bancada, … atrevam-se.
Ps. Obg. Vento por mais um excelente e didático, comentário.
Estes 12 clubes totalizam dívidas (declaradas) que equivalem a quase 5% do PIB anual português.
Um dado factual que ajuda a explicar a estupidez deste passo muito maior que a perna. Com a bênção de certa banca norte-americana, incapaz de perceber as inúmeras diferenças culturais entre a Europa e os EUA – também no capítulo desportivo.
as inúmeras diferenças culturais entre a Europa e os EUA – também no capítulo desportivo
Sim, mas uma dessas diferenças é que os desportos americanos são somente americanos – pouca gente fala de futebol americano ou de beisebol fora da América – enquanto que o futebol é um desporto mundial. Em particular, asiático e chinês. Os grandes clubes europeus têm muitos adeptos e muito dinheiro asiático. O dinheiro que sustentaria a Superliga viria em boa parte daí.
É « soft power » europeu, que os americanos tentaram comprar por meia pataca. Eles sabem isso e atiraram o barro à parede. Os idiotas úteis responderam presente. A comparação pertinente é com Hollywood e não com o basebol. Valeram-nos os ingleses – os mais liberais de todos – e que, por o serem a sério, percebem muito melhor do que os neófitos que o poder e a soberania são o suporte no qual assenta a possibilidade de existência do liberalismo.
Há duas coisas que não percebo no seu comentário, e sobre as quais gostaria que elaborasse:
(1) “A comparação pertinente é com Hollywood”. Que comparação com Holywood faz?
(2) “o poder e a soberania são o suporte no qual assenta a possibilidade de existência do liberalismo”. Que quer isto dizer? Que só deve haver liberalismo no interior de certas fronteiras nacionais, sendo que fora delas se aplica a lei da força? Que o Estado só deve ser liberal na sua política interna, mas que na política externa pode impôr a sua vontade? Ou outra coisa qualquer? E que tem isto a ver com a Superliga?
caro balio,
(1) Não há democracia sem soberania política. (2) Um país sem soberania política é uma colónia de outro(s). (3) A capacidade efectiva de deliberação democrática tem de ter como suporte um poder político autónomo. (4) A fronteira não é um conceito abstracto ou transcendente, mas é consubstancial à sociedade democrática visto que é o que delimita o espaço dentro do qual a deliberação democrática pode ter valor de lei. (5) A fronteira pode ser mais ou menos porosa para muitos efeitos (comerciais, culturais, humanitários, e em geral para a partilha do espaço de cidadania), mas tudo isto em função da relação de confiança estabelecida com os diferentes “outros”. (6) Para que a relação entre países seja civilizada e pacífica devem existem regras de conduta para o trânsito, à entrada e à saída. (7) Os vários “leaks” vieram demonstrar que quando escancaramos as portas, até, ou sobretudo, os estados nossos aliados e amigos não deixam escapar a oportunidade para nos espoliar e para sacarem tudo aquilo de valor (indústria, cultura, ciência) em que conseguem pôr as māos.
Esclarecimento: a superliga entra em futebol, futebol em desporto, desporto em cultura, cultura em sociedade, sociedade em democracia.
Não deixa de ser curioso que o mais liberal dos países tem as ligas profissionais mais regulamentadas
o mais liberal dos países tem as ligas profissionais mais regulamentadas
Exatamente. Tem até um acordo muito estrito de partilha dos lucros das transmissões televisivas dos jogos por entre todos os clubes da Liga de forma mais ou menos igualitária. Coisa que vai totalmente contra o espírito liberal – a Liga inglesa de futebol é mais um cartel do que outra coisa qualquer.
É por isso mesmo, ou seja, para preservar o cartel, que até o primeiro-ministro inglês interveio, de forma certamente (nos bastidores) bastante “forceful”, para impedir o projeto da Superliga de ir àvante.
Tudo isto tem muito pouco de liberalismo, e muito de cartelização e de intervenção estatal.
Caro Luís,
Se entendermos o referido desvio da fé como o abandono dos valores do desporto, há muito que esta epístola se aplica ao mundo do futebol em geral e não a este episódio em particular.
É bem verdade. Mas foi a propósito deste episódio que o texto me veio à memória.
No meio disto tudo, o que me deixa inquieto, é a tomada de posição do nosso PM. Quando lhe perguntam sobro o caso Sócrates, responde: à política o que é da política e à justiça o que é da justiça. Seguindo a mesma linha de conduta deveria dizer que ao futebol o que diz respeito ao futebol, e não tecer qualquer tipo de comentário.
Exactamente. A intromissão dos governos nisto é que é o que verdadeiramente devia preocupar as pessoas.
Além disso, já na semana passada esteve a dar medalhas e condecorar (a que título?) uma atleta do clube dele.
Que gente horrorosa sem princípios.
Muito bem observado.
Deus concedeu-me duas graças: não apreciar (por aí além) marisco e detestar futebol. Com o distanciamento que esse sentimento me permite, veria a Superliga como a supressão da selecção pelo mérito mas, porque não vejo as ligas nacionais, especialmente a inglesa, como entidades moral e socialmente recomendáveis, a escolha teria de também considerar a eficácia relativa. Aí talvez me ocorresse que a Assembleia Geral da ONU não funciona nunca mas que o Conselho de Segurança, em parcas ocasiões, ainda consegue funcionar.
Ainda bem que ninguém me pediu a opinião, …e que detesto futebol.