Emancipações


cadernoelastico,

Descubro pela Lina Santos que a Assunção Cristas está grávida. As minhas dúvidas são precisamente as mesmas. Neste país onde a maternidade é quase que uma condenação (a salários mais baixos e a menos oportunidades), que acontecerá? O meu lado cínico diz-me que eventualmente será substituída, e aguarda pelos comentários chauvinistas. O meu lado de início de ano, cheia de esperança, diz-me que pode ser desta que a sociedade percebe que uma mulher grávida/puérpera não tem capacidades diminuídas.

19 comentários em “Emancipações”

  1. O meu lado cínico diz-me que eventualmente será substituída

    É normal uma mulher grávida ser substituída. Aquando do parto, qualquer trabalhadora tem direito a (salvo erro) quatro meses de “férias” pagas (pela Segurança Social) e, durante esse longo período, é normal que seja substituída no seu trabalho (não necessiamente por uma nova contratação, pode ser pelos outros trabalhadores da empresa). É expetável e normal que Assunção Cristas também o seja, de uma forma ou outra.

  2. Há sempre uma forma de uma mulher se emancipar, que é lançar o seu trabalho doméstico para cima de outra mulher, contratada para esse efeito. Ou seja: contratar uma ama seca, uma criada, ou seja o que fôr, que faça todo o trabalho por si, incluindo dar leitinho (artificial) ao bebé e passear e brincar com ele. Muitas mulheres “emancipadas” são-no na verdade à custa deste truque: emancipam-se à custa da desemancipação de outrem.

    1. Ó Luis Lavoura mas que comentário o seu…
      No meu tempo não havia férias de parto e ao quarto dia do meu filho Miguel nascer eu estava a negociar um acordo que só eu conhecia bem.
      Tive empregadas e tive família que me ajudaram e sinto-me algo ofendida com o seu comentário em que para exercer a minha actividade profissional, desemancipei outra mulher.
      Você esquece que o pai também tem obrigações de dar leitinho artificial ou não – o natural pode ser tomado em biberon, sabia? -, dar banho, mudar fraldas e passear com o filho/a.
      Ou para si a mãe é uma escrava do pai que tem medo de se feminilizar por exercer as funções que lhe competem?
      E, já agora, sabe que também há, hoje, férias de paternidade? Acha que são uma vergonha?!

      1. No meu tempo não havia férias de parto e ao quarto dia do meu filho Miguel nascer eu estava a negociar um acordo que só eu conhecia bem.

        Há pessoas capazes disso, outras não. A minha mulher, nos primeiros dias de amamentação, ficava tão extenuada (o bebé demora imenso tempo em cada mamada, etc) que certamente não teria forças para tal. E ainda me tinha a mim para lhe preparar as refeições.

        É claro que, se se der leite artificial ao bebé, isso descansa muitíssimo a mãe, que então se pode dedicar a outros afazeres. Mas estou a supôr que não é isso que Cristas fará – já não está na moda, entre mães minimamente responsáveis, das leite artificial.

        Tive empregadas e tive família que me ajudaram e sinto-me algo ofendida com o seu comentário em que para exercer a minha actividade profissional, desemancipei outra mulher.

        Lamento que fique ofendida. É o meu entendimento.

        o pai também tem obrigações de dar leitinho artificial ou não – o natural pode ser tomado em biberon, sabia? -, dar banho, mudar fraldas e passear com o filho/a

        O leite natural pode de facto ser tomado em biberão, mas não é muito fácil. Acaba por dar mais trabalho (tem que se esterilizar o biberão, aquecer o leite, etc, e a própria extração nem sempre é fácil; a minha mulher tentou sem sucesso).

        Se é o pai a tratar do bebé, caímos no mesmo problema: emancipa-se a mulher à custa do homem. Em vez de termos a ministra Cristas a sair do lugar quando tem o filho, passamos a ter todos os outros ministros a saírem do lugar quando têm um filho. Passaríamos a ouvir no telejornal sempre que um ministro tivesse um filho, que estava fora do serviço por estar a passear a criança.

        1. Portanto, parece que a solução será
          1. a mulher que tem trabalho não deve ter filhos se
          quiser manter uma vida profissional.
          2. a mãe deve ser escrava da sua função e não
          escravizar nem o pai nem a empregada.
          3. a sua mulher teve azar, o que lamento. Eu dei
          o meu leite aos meus filhos e tirei-o à bomba
          sempre que foi preciso, sem qualquer problema.
          Desinfectar o biberão também o fiz para a água
          que eles bebiam. Sem muito trabalho, confesso,
          porque me bastava mete-los na panela e deixa-los
          ferver. O mesmo para as chupetas.

          Resumindo, a sua posição parece-me uma contribuição muito positiva para a nossa pirâmide etária.

          1. 1. a mulher que tem trabalho não deve ter filhos se
            quiser manter uma vida profissional.
            2. a mãe deve ser escrava da sua função e não
            escravizar nem o pai nem a empregada.

            Eu não disse nada disso. Jamais utilizei nos meus comentários a palavra deve ou outra equivalente. Eu apenas disse que muitas mulheres que têm filhos andam por aí felizes da vida porque lançaram o seu trabalho de cuidar do filho para cima de outrem. E sugeri que a ministra Cristas poderá perfeitamente fazer isso, e se o fizer poderá continuar a exercer as suas funções ministeriais a 100%.

            A título de exemplo, conheço uma médica muito atarefada que, quando teve um filho (mãe solteira), contratou uma ama-seca brasileira para dormir lá em casa e tomar conta da criança a tempo inteiro. A médica continuou a levar a sua vida profissional normal e o bebé raramente via a mãe, a não ser ao fim-de-semana.

      1. Juro que ia responder ao “expetável” também. Mas ia ser um bocadinho menos caridoso nas palavras, por isso, e a pensar em possíveis “espetadores”, abstive-me.

  3. Capacidades diminuídas não as terá certamente, muito pelo contrário. As suas capacidades aumentarão certamente. Agora terá prioridades como toda a gente… ou como diz o outro: ministros há muitos, mãe há só uma.

  4. “uma mulher grávida/puérpera não tem capacidades diminuídas.”

    Um excelente exemplo de uma opinião sobre-civilizados que não têm nada que ver com a realidade.

    Uma mulher grávida tem capacidades diminuídas principalmente a partir de certos meses. Claro mais ou menos dependente da actividade que realiza.
    Depende ainda mulher que é(o parto afecta mais umas que outras).

  5. O mundo não é exactamente assim, Luís Lavoura, e conto-lhe um segredo. Tive uma mulher-a-dias uns anos, mas quando o desemprego me bateu à porta, tive de a dispensar. Ficamos muito amigas e ela continua a ter trabalho. Nesta época festiva, para ela poder ir passar o Natal e o Fim de Ano com a filha, sem prejudicar os seus patrões, iria eu fazer o trabalho dela de mulher-a-dias. Por acaso não foi preciso, mas ao que o Luís chama emancipação à conta de outrém, eu chamo troca – de vantagens, de oportunidades, de interesses e, às vezes, de amizade e gratidão.

  6. Uma mulher grávida não tem faculdades diminuidas. Não sei é se será fácil provar isso a partir de quem tem poucas faculdades à partida.

    1. Não então diga-me se com 8 meses grávida uma mulher pode ser tão eficiente, mover-se com a mesma ligeireza e pensar com a mesma intensidade sobre um assunto , ter a mesma resistência ao esforço como quando não tem uma criança?
      É claro que não.

  7. O que é certo é que a D. Cristas lá arranjou uma saída airosa do governo, que ninguém pode criticar, sob pena de levar com todos os epítetos possíveis e imagináveis.

  8. Ora aqui está um verdadeiro dilema, em que duas situações isoladamenre virtuosas tendem para a incompatibilidade, como de “+” e “+” não desse “+”.
    Nem vale a pena discutir o direito (que até poderia ser um dever) à licensa de maternidade. Fazê-lo, entendo quase como um retrocesso civilizacional (bem sei que nos EUA é muito menos & tal & etc).
    Agora visto do outro lado. Há funções, não muitas, como a de ministro, que não são transferíveis, nem passíveis de suspensão, apenas substituíveis.
    Como conciliar e concatenar isto sem perda de direitos (quase mais necessários do que meramente legítimos) e sem desfuncionalidades políticas (já que organicamente um ministério até poderia funcionar)?

  9. caramba, mas está tudo maluco, mas lêem o que escrevem, as enormidades que aqui escreveram? sinceramente … voltámos à idade medieval e qualquer dia vou ler aqui que as mulheres menstruadas não devem fazer bolos… sinceramente, o país deve ter sido assolado por uma vaga de cretinice!

  10. como mãe de cinco (5) filhos, 50 anos, considero alguns dos comentários aqui postados realmente ofensivos. com cinco gravidezes e cinco partos naturais, nunca me senti diminuída nem antes, nem durante, nem depois. amamentei todos os meus filhos ao peito, a última dos cinco até bem tarde (nem vou dizer até quando porque provavelmente iriam cair carmos e trindades) e nem por isso deixei de trabalhar e muito. as considerações sobre as incumbências da mãe esquecem quase sempre as incumbências do pai. assim como as considerações sobre os períodos de gravidez e pós parto esquecem a protecção que todos, como sociedade, deveríamos dar à família. não é um luxo, é apenas bom senso: o futuro reside nessa possibilidade de criar um filho com condições para o fazer. mas em países como o nosso, em que a educação é o que é, as mulheres alombam com as fatias grossas: a maternidade é para muitas mais um peso e não pequeno na vida. que é como quem diz, a grande diferença entre os homens e as mulheres é que elas é que vão ter os filhos. se assim não fosse outro galo, em muitos muitos poleiros, cantaria…

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