
Depois do rio de lágrimas que é tão típico das despedidas, num dia tão nublado como o nosso estado de espírito, voltámos à Variant para começar mais uma etapa da grande aventura dos cinco, que na realidade éramos seis.
Desta vez, “quitado” com alguns gadgets avant garde que adquirimos na Alemanha e na Holanda, tais como uma capa impermeável adaptável, própria para porta-malas de tejadilho, o trisavô do funcional porta-sogras que substituiu a lona, e uns ganchos “aranha” que se prendiam aos ferros e seguravam malas e outras tralhas no lugar, e que substituíram as cordas tornando o manuseamento da bagagem mais funcional e elegante; já parecíamos então turistas a sério!
Claro que o problema das fraldas do menino foi imperativo durante a viagem de ida, com muitas bandeiras da paz a despontar da janela do pendura durante toda a vigem. Muito mais avançadas, as crianças alemãs, holandesas e francesas já utilizavam fraldas descartáveis, as célebres couches, produto de luxo para nós, mas eficaz e acessível, e que nos proporcionou uma volta muito mais tranquila e turística.
Então, através das maravilhosas autoestradas, partimos de Solingen rumo a Paris, onde chegámos já de noite.
Uns colegas do pai tinham-lhe indicado um “hotelzinho simpático” na Rue de la Paix. Tanta menina bonita e colorida, tanta beijoca e tanta festinha ao bebé. O pai sempre com um caloroso sorriso afivelado. A mãe abanava a cabeça, conformada, mas a tia Eugénia estava possessa. Que raio de hotel foi o pai arranjar? E com crianças na cáfila, caramba. O pai recomendava calma, que o hotel era limpo e que era apenas uma noite. De resto, a arraia-miúda não estava nem aí para tanto sururu, apesar de convir que os múltiplos sons de gritos, risos e constantes águas correntes que atravessavam velozes as paredes acromáticas, eram no mínimo bizarros.
Saímos para comprar mantimentos e voltámos com as compras do rol que a mãe e a tia Eugénia tinham preparado e que, como não podia deixar de ser, continha pão. Comprámos uns curiosos, finos e muito aprumados pães compridos chamados baguettes, que os locais transportavam alegremente debaixo do braço sem qualquer protecção. Talvez o avô do pão com sabores? Nunca o saberei
O pai ficou febril. Como era o único que conduzia, resolveu na manhã seguinte percorrer o máximo de estrada possível antes que alguma gripe que estivesse à espreita o atacasse em força. Saímos bem cedo e, parando sempre que necessário naqueles lugares maravilhosos chamados áreas de serviço, chegámos a Bordeaux à hora de almoço. Nem mesmo os meus dotes linguísticos em francês ajudaram a decifrar o menu do restaurante. Sopa e pezinhos de coentrada. Toca a comer e a tentar gostar, porque depois só pararíamos para jantar, com sorte, em San Sebastián. Então foi um toca a encher, fazer papo e preparar para arrancar. Foi então que serviram os frangos! Dois. E grandes. Mas… mas… mas… estávamos cheios de sopa, porco, batatas e pão! Ninguém conseguiria comer frango, caramba! A tia Eugénia, no seu proverbial pragmatismo, sentenciou logo que as aves ali não ficavam. Então toca de sacar de um saco da sua enorme saca de senhora, ensacou os fragos e zumba, saca com eles sob o olhar reprovador do pai, a quem aquele tipo de situações deixavam grandemente embaraçado.
A verdade é que piquenicámos um supimpa jantar de frango num quartinho arejado e com uma soberba vista para o mar do Golfo da Biscaia, já em San Sebastián, depois de uma breve paragem num Biarritz de brilho embaçado pelas muitas nuvens que corolavam um céu cor de chumbo.
Na manhã seguinte, e com o pai a não apresentar grandes melhoras, a trupe fandanga, já um tanto saturada, assumiu os seus lugar na Variant para regressar à pátria-mãe.
Chegámos a Ciudad Rodrigo pela tarde e preparámo-nos para pernoitar. Dia de “tarde livre” para a tradicional aquisição de caramelos, torrão, chocolates, leques, mantilhas e outras coisas desnecessárias com que nuestros hermanos tanto nos fascinavam. Aprendemos também ali que sopa de judias é apenas feijão verde cozido e que as cañas em nada contribuem para tratar constipações.
No outro dia, de manhãzinha bem cedo, partimos non stop até Lisboa. Como em todas as etapas dos percurso de ida e do percurso de volta, rimos e cantámos de tudo um pouco, mas principalmente as canções da vida do meu pai, constantes no seu LP favorito da Música no Coração.
Chegámos a casa ao final do dia. Cansados mas satisfeitos, com a bagageira cheia de novidades estrangeiras e experiências fabulosas, que contávamos a cinco vozes em todas as reuniões sociais e familiares e que ainda hoje dois de nós recordamos, quase sempre com um olhar demasiado brilhante.

Sobre aventuras, em viagem, tomei conhecimento de uma singular. Nos 60, do século XX, uma família decide fazer uma viagem de formação. Itália, era o destino. A contragosto convenceram a matriarca, sobrante, velha e senhora, que de Trancoso, viera há 5 anos, acabar em Campolide. 80 anos redondos e cheios. Já idos de Mónaco, acontece o badagaio mestre à coitada da senhora. Uma chatice tremenda, pois o carro estava atulhado de material que poderia passar por contrabando. Além do mais, se as autoridades fossem avisadas do óbito, levantar-se-iam “n” problemas judiciais, administrativos, e o diabo a quatro. Decidiram esconder a velha, com a máxima dignidade possível, enrolando-a numas carpetes, finas, compradas em Provença. Apertados pela consciência, incomodados pelo pico do sol, aportaram em Bilbau. Para esticar as pernas, arejar a cabeça, mas sobretudo a viatura , dentro do possível, claro está. Ao regressarem não deram com o carro, nem com a velha. Tinham sido assaltados. D. G está ainda hoje em parte incerta. RIP
Que horror! Isso é quase o fim de semana com o morto, mas em pior! E dá toda uma nova interpretação ao termo “corpo de delito”, caramba!
Essa dos frangos está muito boa…é assim mesmo
Antigamente não era costume pedir as sobras para levar e era boa educação comer o que nos punham à frente, mas os frangos escondidos acabaram por saber muito bem
A história seria bem mais interessante se do carro tivesse desaparecido, mas a morta ter ficado abandonada no lugar do carro.
Vá que a senhora idosa, (pq tratar de velha na parte final?) desapareceu antes de chegar a Vilar Formoso, com o faro apurado da PIDE teriam graves problemas com a explicação do sucedido.
Que ladrões palermas seriam para “descarregar” o carro, caramba!
Mas que pagava para ver a cara dos meliantes perante a descoberta, não tenho dúvidas
Espero que estas viagens sejam sem fim 😍
Desejo-lhe cara MDF um feliz Ano Novo 🍰🥂
Um pequeno “ presente “ cheio de doçura de um duo
que me surpreendeu.
Yvette Horner & Boy George YouTube 🙋♀️
Viva, Kika! Obrigada!


De viagens mil, carros diferentes, muita peripécia.
Até depois do Natal.
Festas Felizes. Beijinhos.
Bela volta, Dulce.
E que bem devem ter sabido aqueles franguinhos sur l’herbe 😉
Aquela fotografia é de Ciudad Rodrigo?
Fez-me lembrar um arco por onde eu passei para ir fotografar o Rio Águeda; mas não juro, há tantos arcos parecidos…
Fico à espera das aventuras no carocha 🙂
🎅🎄🤶
Maria
Viva Maria. É Ciudad Rodrigo sim.

Depois do Natal tentarei começar as publicaçoes de ” Com a casa às costas”. Cinco num carocha com a tenda em cima, por aí fora.
Bom Natal e um grande beijinho.
Sorry, Dulce, eu estava a imaginá-los num quadro de Monet (vestidinhos, claro) a comer os frangos, e agora é que vi que foi num Room with a View para o Golfo da Biscaia.

Maria
Não está nada longe da realidade Maria.
Dulce,
Uma viagem assim, dias a fio a espreitar uma infindável sequência de horizontes, é algo que, nos dias das viagens low cost, está quase fora de moda. Mas efectivamente preenche as memórias de uma verdadeira viagem, e que tão bem retrata. Refiro-me às pessoas com que se cruza em cada paragem, às refeições que se saboreia em cada região, às dormidas que marcam o fim e o início de cada etapa. Visitar cada uma dessas cidades em voos de pouco mais de duas horas é completamente diferente, pois liberta mais tempo para cada destino mas anula a vivência do caminho. É por vezes uma escolha difícil embora a nossa eterna e permanente falta de tempo nos impeça de saborear uma bela e longa viagem de carro.
Obrigado pelo belo relato.
Está planeado para quando puder deixar de trabalhar, revisitar esta viagem, tentando na medida do possível ser fiel à original, Paulo.
É uma ideia que acalento há muito tempo e quero muito conseguir fazê-la. O meuirmão ficou com os itinerários originais que os amigos do ACP fizeram para o meu pai, com etapas, paragens e dormidas. Para mim seria uma espécie de peregrinação pelos caminhos da memória.
Festas Felizes.
Esses itinerários do ACP são uma relíquia com valor apenas para quem se lembra de viajar sem gps.
Festas felizes também
Acabam por ser isso mesmo, GPS em suporte de papel .
