A loja estava praticamente vazia. “- Bolas! “ Pensei “ já deve estar tudo muito escolhido… saí mais cedo, nem almocei e garantidamente não vou encontrar nada de jeito.”
Dirigi-me à funcionária com um look gótico, literalmente pintada de negro desde o cabelo até às botas de tacão, passando por dezenas de piercings em crescente, que num cômputo geral lhe conferiam um aspecto natalício. “- Perdão, pode dizer-me onde posso encontrar peles?” Sem levantar os olhos do smartphone, respondeu em tom monocórdico “-Ao fundo, à esquerda.” Dirigi-me rapidamente para onde me indicou, passando por um penteadinho, magro e nervoso, com cheiro a vencido da vida, que se dirigia aos provadores com uma pele de galã de telenovela. Não pude deixar de sorrir.
Ali estavam, bem na minha frente, dispostas em prateleiras por tamanhos e referências. Como eu receava, estava tudo muito escolhido e nada daquilo que eu tinha em mente estava disponível no meu tamanho. Depois de remexer um pouco por todo o lado, como toda a mulher que se preza, peguei numa pele de primeiro ministro. Era peça única. Resolvi experimentar. Só no provador reparei no sarro. Por fora não estava mal de todo mas por dentro tinha borra, tantos nós a tentar atar pontas soltas e tanto engodo, que a deixavam muito enxovalhada. Nem parecia nova, caramba, tinha aspecto de coisa de adelo de 5ª categoria. Desisti dela.
Dentro do meu número, peguei noutra pele, desta feita de líder da oposição. Era confeccionada com aquelas lantejoulas reversíveis que mudam de cor conforme se passa a mão. Ou tinham um brilho apagado, ou eram estridentes como uma feira popular. Pensei experimentar, mas verifiquei que por dentro era forrada de renda de bilros. Buracos a mais para o meu gosto. Coisa apagada apesar das promessas implícitas naquela mutação de tons. Desisti dela.
Sem me querer dar por vencida, lá voltei a remexer tudo e saí para o provador com uma pele de dirigente de partido de coligação. Para além do valor do saldo, tinha ainda uma promoção de 0,648% e ofereciam um kit BDSM, com coleira, algemas, tapa olhos e uma cassete de fita. Ainda vesti, mas fazia cócegas. O forro foi-se, mas nem tinha grande espiga se o pano não fosse de uma seca incomodativa. Além disso, ficava esgarçado no pescoço naquela zona por onde os sapos costumam descer. Era uma daquelas peles mal curtidas que não resistiram bem à passagem do tempo. Mais uma que ficou para trás.
Ir aos saldos é um aborrecimento principalmente quando se tem uma ideia definida daquilo que se quer comprar. Decidi que teria seguramente que esperar mais um ano. E teria que ser madrugadora e expedita, como na história do pássaro e da minhoca gorda, se queria conseguir a pele que tanto ambicionava. Garanto que no próximo ano vai ser minha uma fantástica pele XL, com bolsinhos, e muitas contas, como compete a qualquer humilde e bom presidente de um grande clube de futebol. Superstar me.
Em saldo
Maria Dulce Fernandes,

Isto aqui demonstra que vale a pena ler nesta vida…
Há momentos deliciosos apesar das politiquices deste País.
Que mimo de crónica
É um makeover de um escrito com um par de anos, mas parece que nunca passa de moda. Que bom que gostou jpt.
Como dizia o outro: peles há muitas, ó coiso.
Particularmente defendo a posição de que nada melhor do que a nossa. Para melhor ou pior, sabemos sempre que podemos contar com ela.
Muitas há, mas como as opiniões e resto, cada um tem a sua.
Ora para o que havia de lhe dar a escrita.Maneirismo para estafermos coreáceos.
Pedia-se abrasivo,moca ou varapau.
Não deixei de sorrir,apreciar-lhes os entrefolhos e forro.
Mas,excelente dona Dulce,gastou tanta cera com tão ruins moribundos.
Gosto muito de a ler,não se melindre vexa por estas enormidades.
Tiudolito barroquinha.
Por aqui, nada à flor da pele
Mto bom
Quem quer ser lobo …
Bom post
Mas adiantará ir novamente a estes saldos daqui a um ano? Aguardemos…
Já pensei jisso, Cristina. Se continuar a haver tão pouca escolha e a qualidade deixar tanto a desejar, será apenas uma perda de tempo ou um incentivo a não desistir da procura?
BFS! 😀