Attlee com a mulher, Violet, logo após a vitória eleitoral dos trabalhistas em 1945
Clement Richard Attlee (1883-1967) era um homem destituído de carisma. Um esforçado militante de esquerda que, superando inúmeras crises nas suas hostes, alcançou em 1935 a liderança do Partido Trabalhista britânico.
Estavam então no poder os conservadores — primeiro liderados por Stanley Baldwin, depois por Neville Chamberlain. Quando ocorreu a guerra — a mais devastadora de todas as guerras — outro conservador, Winston Churchill, ascendeu à chefia do Governo londrino.
Attlee podia ter-se refugiado na trincheira partidária. Mas não: assumiu uma atitude patriótica, aceitando integrar o executivo liderado por Churchill. Sempre na segunda linha, inicialmente apenas como ministro, depois como vice-primeiro-ministro — posto até aí inexistente, criado especialmente para ele.
Foi de uma lealdade inquebrantável a Churchill durante os cinco penosos anos de guerra. O governo de unidade nacional — que integrava ainda os liberais, além dos conservadores e dos trabalhistas — funcionou sempre como um bloco. Sem que a liderança de Churchill fosse alguma vez discutida, sem que a lealdade de Attlee fosse alguma vez posta em causa.
Vencida a guerra, em Maio de 1945, a coligação dissolveu-se e realizaram-se eleições. E os mesmos britânicos que aplaudiram a gestão de Churchill durante o conflito que deixou o Reino Unido depauperado, tanto em vidas humanas como nas finanças públicas, disseram nas urnas que era tempo de confiar a outro político os destinos do país.
Ganhou Attlee, com 47,7%, contra 36% de percentagem atribuída aos conservadores: pela primeira vez o Partido Trabalhista dispunha de uma larga maioria na Câmara dos Comuns. E nos anos seguintes, sob a sua liderança, a esquerda britânica assumiu o poder. Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.
Depois de enterrar os mortos, chegara o tempo de cuidar dos vivos — como ensinou o nosso Marquês de Pombal. Attlee soube cuidar dos vivos: lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde britânico, de base universal e gratuita, alargou a segurança social e delinelou um ambicioso programa de habitação pública — marcos modelares daquilo a que por estes dias chamamos “Estado Social”. De tal maneira modelares que Churchill manteve-os inalterados quando regressou ao poder, em Outubro de 1951.
Attlee, o político sem carisma, é hoje recordado como um dos melhores primeiros-ministros britânicos de todos os tempos. Quando morreu, em Outubro de 1967, o Guardian acertou em cheio ao prever que a passagem do tempo só engrandeceria a sua figura. Assim aconteceu. Uma sondagem realizada pelo Times em 2010 considerou-o o mais qualificado de todos quantos governaram no século XX.
Porquê?
Porque soube agir em dois tempos, conforme as circunstâncias exigiam: baixou bandeiras partidárias quando era esse o seu dever patriótico no momento em que a soberania britânica estava em risco e foi recompensado por isso com dois mandatos sucessivos que lhe permitiram enfim aplicar o seu programa de vastas reformas sociais. Deixando o país numa situação de pleno emprego e a crescer ao ritmo de 3% ao ano.
Por vezes lembro-me de Attlee ao analisar o percurso de certos políticos contemporâneos. E concluo sempre que o seu exemplo ganharia em ser seguido por todos quantos, manifestamente equivocados, ambicionam o máximo para o momento seguinte. Como se não houvesse amanhã. Como se o decurso do tempo funcionasse como adversário e não como aliado. Como se a política não fosse sobretudo um exercício inteligente e laborioso de persuasão e persistência. Como se os livros de História pesassem menos do que as manchetes da manhã seguinte.



os nossos holandinhos e laranjinhas o ouçam.
A muitos deles falta saber um pouco mais de História, meu caro. E a outros falta saber tirar as devidas lições dos acontecimentos históricos.
Excelente ter aqui recordado este político e estes factos. Mas o tempo do pós-guerra dispensava o carisma, tendo em conta que, apesar de tudo, a auto estima estava em alta. Não é o nosso caso. O líder da oposição de certa forma vai actuando num low profile semelhante: por falta de carisma mas também por patriotismo, e arrisca-se a enterrar o PS e isso não é bom para ninguém. E tenho dúvidas que terá as competências necessárias ao exercício do cargo.
Meu caro, Attlee nunca teria passado no crivo da “análise política” da TV e das “redes sociais”, onde a mensagem que circula com aplauso é aquela que todos querem ouvir de antemão. Mas também nunca teria conquistado um lugar na História submetendo-se às opiniões dominantes em cada momento, começando pelas que soavam dentro do próprio Partido Trabalhista.
Agiu de acordo com a consciência e com a noção que tinha do interesse nacional. O tempo deu-lhe razão.
“Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.”
hehe!
Só possível dizer por quem não vê o caminho de decadência da Inglaterra no pós Segunda Grande Guerra.
20 anos depois a Inglaterra estava depauperada e países como a França, Alemanha bem mais destruídos pela Guerra já a tinham ultrapassado.
A Inglaterra do pós guerra é um belo manual de asneiras.
Só foi batida pelo bloco de Leste.
Mas esses pelo menos tinham a desculpa do Comunismo.
A decadência Inglesa do pós Segunda Guerra lembra a França do pós Primeira Guerra.
Touché
Tens toda a razão, Pedro. O único problema foi todo o seu esforço ter sido destruído por Margaret Tatcher, primeiro, e depois pelo “blairismo”.
Foram tempos diferentes, Sérgio. No tempo de Attlee 20% do PIB britânico provinha de empresas nacionalizadas, algo impensável no mundo globalizado dos nossos dias em que a City londrina é uma das praças-fortes do sector financeiro a nível mundial.
O Estado britânico como motor da economia tornou-se largamente ineficiente, o que esteve na origem da vaga de privatizações iniciada na década de 80, com Thatcher, e prosseguida pelo ‘neotrabalhismo’ de Blair. Mitterrand, aliás, não fez algo muito diferente em França: o programa de “renacionalização” da economia, que marcou o período 1981/83 com o governo de Pierre Maurois, foi prontamente abandonado nos anos seguintes e provou ser um anacronismo.
Mas o essencial do ‘Estado Social’ lançado por Attlee entre 1946 e 1948 manteve-se – e, desde logo, o sistema de saúde britânico, universal e gratuito, que aliás serviu de modelo ao nosso.
Não foi seguramente esse o entendimento de Tony Judt (vd. em especial “O Chalet da Memória” e o “Tratado sobre os nossos actuais descontentamentos”).
Tanto quanto me recordo, Sérgio, Tony Judt foi precisamente um dos grandes defensores do “magistério moral” de Attlee e do seu legado social-democrata no pós-guerra. Estou de acordo no essencial com ele: nem de outro modo escreveria o texto que escrevi. Limitei-me a sublinhar que há uma relação directa entre o Attlee dos anos da guerra, em que formou uma parceria inabalável com o seu opositor Churchill, atendendo às circunstâncias excepcionais daquele período, e o Attlee que venceu as legislativas de 1945 podendo enfim aplicar o seu amplo programa reformista.
Poucos se lembram hoje disso, mas antes de vencer essa eleição Attlee sujeitou-se a inúmeras críticas internas por ter aceitado integrar o executivo liderado por Churchill, como vice-primeiro-ministro. Para mim, pelo contrário, há uma absoluta linha de coerência entre um período e outro. Algo hoje quase impossível de acontecer pois a vida política processa-se a um ritmo muito mais acelerado e todos exigem tudo (e o seu contrário) para o momento seguinte.
“A diferença entre um político e um estadista é que o primeiro pensa nas próximas eleições e o segundo na próxima geração”, dizia Churchill. Podia ter pensado no seu sucessor ao dizer isto. Porque Attlee era um estadista também.
A diferença é que o Churchill lutou contra os nazis, o Passos Coelho é colaboracionista.
Posto isto, o seu texto, enquanto paralelismo, que pretende, entre Attlee e Seguro é – como dizer – estapafúrdio?
Falo em tese geral a partir de casos concretos. A História só se torna útil se soubermos aprender as lições que nos transmite.
Este texto, como vários outros que tenho escrito neste blogue nos últimos cinco anos, destaca a importância de não circunscrevermos a política ao prazo imediato: nada há tão enganador como isso.
Há que saber ver longe.
Não sei o que possa haver de “estapafúrdio” nisto. A menos que tenha um exemplo melhor a contrapor como tese contrária – ou seja, que a conduta de um político deve pautar-se pelos bitaites dos comentadores nocturnos e pelas manchetes de cada manhã.
Quem colabora com colaboracionistas, colaboracionista é. e, portanto, não tem futuro.
Exemplos, sobejam aos magotes.
Pela sua lógica, Hollande – com o seu recém-anunciado “pacto de responsabilidade” – também é “colaboracionista”…
Não gosto de ver termos que estiveram ligados a um passado de ignomínia transpostos para a linguagem comum. Genocídio, holocausto, nazi, colaboracionista: tudo isto se vulgariza, no debate político actual, como quem diz que amanhã estará de chuva. Estes rótulos vão-se banalizando ao ponto de perderem por completo o significado e a sua precisão histórica.
Seria muito interessante se a maioria de nossos políticos tivessem a convicção deste cidadão inglês de grande valor. Só o legado deixado com a saúde gratuita, plena e universal para aquele povo, o que de fato serviu de referencia para o resto da Europa e Canadá, o coloca no panteão da história.
De facto, bastou isso para se tornar numa referência.
Prezado Pedro
acaba de sair um artigo no NYT (02/01/2018) na direção seguida aqui por vc. Caso não tenha visto, fica a dica:
https://www.newyorker.com/news/daily-com ment/never-mind-churchill-clement-attlee-i s-a-model-for-these-times?mbid=nl_Daily%2 0010318%20Nonsubs&CNDID=37928981&spMailingID=12678061&spUserID=MTMzMTg0MDAwODA3S0&spJobID=1320243017&spReportId=MTMyMDI0MzAxNwS2
Muito obrigado, Vinícius. Ainda não tinha visto.
Bom ano!