Em Fão, no “Rita Fangueira”


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(A Norte do Trancão [4])

Domingo já basto percorrido, eu feito andarilho desde a quase alvorada, entre passadiços, dunas e marés vivas, fui transportado até ao que me foi afiançado ser “referência” local, em plena Fão. A instituição em causa era o “Rita Fangueira”, há pouco transitado para novas instalações, sito agora face a uma pequena praceta ribeirinha, um recanto encantador mas o qual, por si só, não suspenderia o afã crítico de amador, até porque seguia eu já esfaimado.

Começámos bem, pois apesar da hora tardia a que aportámos para almoçar a recepção foi afável, numa gentileza sorridente, mas felizmente sem pinga daquelas irritantes popularuchas familiaridades nem quaisquer ademanes altaneiros, esses que até antecipara dado que acabara de cruzar a vizinha Ofir, a qual presumi ser ainda refúgio dos descendentes daquele “dinheiro novo” do Estado Novo portuense.

Não tendo eu, nem a minha cicerone, quaisquer prosápias de analistas gastronómicos e ainda menos tendências glutonas, não procedemos a demorada análise do cardápio. E assim, amáveis clientes, acolhemos os conselhos de quem ali trabalha. Para encetar aconcheguei-me com um copo de tinto da casa, um Douro de 2019 (Fronteira) de qualidade muito mais do que aceitável para este iletrado vinícola. Desconhecedor dos costumes locais, mas de sensibilidade etnógrafa, muito notei que a taça chegou à mesa acompanhada da garrafa por encetar e de um “sirva-se, por favor”, que bem entendi como um “vá-se o senhor servindo a seu gosto”, modo que veio a ter o inesperado efeito de, duas horas depois, o vasilhame estar prestes a ser escorropichado, dado o alento que entretanto viera eu, a solo para aquele propósito, a receber por via dos víveres apresentados. 

O referido vinho foi inicialmente acompanhado por uma muito civilizada cobertura, saudavelmente apartada das pantagruélicas “entradas” que constam da mitografia nortenha: um par de croquetes, esquecíveis, e um outro de pastéis de bacalhau que, ao invés, justificaram a atenção. Mas o relevante foi a concisa cesta de pão, decerto que proveniente de decente padaria: algumas fatias de regueifa, na textura e sabor adequados, outras de broa e ainda outras de broa de carne, ambas assinaláveis. E tudo potenciado pelo seu acompanhamento, a extraordinária manteiga de Marinhas, um produto local digno dos maiores encómios. Ou seja, a bem dizer-se estava eu já almoçado, e bem, e ainda não haviam chegado os pratos, ali e assim verdadeiramente presigos.

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A nossa recatada opção recaíra sobre o prato do dia, um porco assado com castanhas, e o fígado de bovino de cebolada (“iscas”, como dizemos nos Olivais e vizinhança). A minha atenção inicial incidiu sobre estas últimas – as quais estavam literalmente de “chorar por mais”, e de tal forma que quase monopolizaram as minhas disponibilidades. Alguns entendidos nestas matérias propagandeiam um ideário que consagra haver uma graduação na dificuldade da confecção de alimentos e na execução das respectivas receitas. Não sei se nessas visões escolásticas as “iscas” estarão no topo mas confesso a minha surpresa, esta de perceber como um prato tão corrente – e nisso dito pouco “nobre”, quiçá até “fácil” – pode ser apresentado de forma tão rara de excelsa.  Ao porco, e suas amásias castanhas, enfrentei-o já em dificuldades, até algo notórias, mas ainda assim pude constatar – e num “prato de dia” – que nos chegava exactamente como os mandamentos o ditam, sem inovações nem derrapagens. Ou seja, ambos os manjares ali estavam no estrito respeito pelos valores devidos, mas – e o que é ainda mais notável – sem quaisquer ribombos folcloristas.

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Após isto impôs-se um breve intervalo, à esplanada na fruição de um rolo de Amber Leaf, enquanto o eficiente “colaborador” recolhia o vasto remanescente das duas opíparas “meias doses” (?), destinado a recompensar o imaginário canídeo da clientela em questão. Regressei para enfrentar a recomendada sobremesa, uma parelha advinda da confeitaria local, um excelente folhado de ovos moles de Fão, que justifica sobressair no imenso rol de artigos aparentados que a tradição conventual legou à nossa “doce pátria”, e uma “Clarinha”, um esplêndido pastel de gila (ou chila) também típico daquela Fão assim dulcíssima.

E desta suculenta forma terminou o repasto, que senti e recebi como excepcional. O preço desta para sempre memória? Num restaurante que me dizem renomado junto à zona de veraneio das elites económico-culturais nortenhas? Mais barato do que uma qualquer patetice italiana ou fancaria indiana na capital… 17 euros por pessoa! Algo está mal na república. E não é, garanto, em Fão.

16 comentários em “Em Fão, no “Rita Fangueira””

  1. Gabo-lhe o gosto gastronómico, desculpe-se-me a aliteração.
    Análogo encómio vai para a prosa que, mesmo sem o prato, fez crescer água na boca.

  2. Em Fão sempre foi bão.
    E com a barriga cheia por 17 paus, deu para nos deliciar com palavras de 500/1000 paus, mesmo não sabendo se o tinto aceitável era do bom tintol.
    Sem ser o caso, diz-se não presta, mesmo sem nunca ter provado antes. Não será como o Albino com o tinto da Pacheca, que comparado com o tintol intragável da galega vendido ao copo, era um não deve ser grande coisa.
    Julgo que para esses lados, já passaram anos sem ir a Fão, por ter havido muita emigração para a Venezuela teriam, agora, regressado para se estabelecer na indústria hoteleira.

    1. Quero esclarecer: o vinho era-me bom, foi-me bom, e isso é-me suficiente. Apenas quis realçar que não sou conhecedor o suficiente – num país e numa era em que abundam, e felizmente, os conhecedores e os menos dotados “connaisseurs”, quase enólogos. Aprendi algo na minha juventude, abonada e festiva. Depois vivi duas décadas fora, sem grande contacto com o vinho (português e não só), época em que o vinho português muito mudou (e para melhor). Regressei cinquentão, frugal e também desabonado. Bebo algum vinho, com moderação e prisioneiro dos preços. Ou seja, percebo se gosto do que bebo ou se não gosto. E chega-me. Neste caso gostei. Sei que tal também se deve ao local, ao momento e, acima de tudo, à companhia. Mas, mesmo assim, tenho a certeza de que este vinho tinto não ofenderá o bebedor vulgar de Lineu, qual eu.

  3. Esqueci-me
    Fangueira por ser natural de Fão, no distrito de Braga.
    E causa estranheza no boletim meteorológico de Braga haver notícias do estado do mar.
    Mas em Braga não há mar dizem alguns, mas outros respondem ‘nõe há mar, num há, tal foi a borracheira em Fão que num biste o mar’.

    1. Bela expressão essa última, que refere.
      Quanto ao “fangueira porque é de Fão”: pois, também recebi remoque de pessoa amiga, dizendo ser o título redundante. Mas, e como lhe respondi, estou certo que neste Sul do Trancão no qual vegeto, e também a Norte dessa fronteira nacional, muitos dos leitores do DO (e alguns do meu esconso Nenhures) não farão a imediata associação entre “fangueira” e Fão. Por isso cuidei do pleonasmo no título.

  4. Eu também não tinha chegado à relação entre “fangueira” e Fão. Mas, caramba, tenho que ir lá. Aqui tão perto e tão baratinho… É verdade que conheço tais iguarias, mas a descrição do jpt faz mesmo crescer água na boca. Penso que a “fangueira” lhe deve um almoço grátis…

    1. Avante, JAB, espero que lhe venha a ser agradável. Quanto ao que me diz, não boto em busca de recompensas materiais – mas, se lá voltar (se o ditador Acaso o permitir), aceitarei de bom grado a recompensa de um digestivo.

  5. Passei muitos verões da minha juventude no Parque de campismo de Fão e eu, que nem gosto especialmente de pão, comia e (ainda como, quando lá vou) com todo o gosto o pão da padaria mesmo à beirinha da Rita Fangueira, para mim o melhor de Portugal. Devia ser de lá a regueifa que comeu. Quanto aos folhadinhos de Fão e as Clarinhas (os tais bolos de chila), são mesmo de comer e chorar por mais. Por acaso, acho que em todo o concelho de Esposende, é em Fão que se come melhor. Boa escolha.

  6. Residindo eu no concelho de Esposende, muito grata fico pela referência à Rita Fangueira, um dos poucos restaurantes que me acompanham desde a infância.
    Numa próxima oportunidade, sugiro o arroz de polvo com filetes do mesmo. É delicioso.
    Os folhadinhos, quando estão quentes, a sair do forno, são dos melhores doces que conheço.
    Já quanto às “Clarinhas”, peço-lhe um favor, diga que são de chila e não gila, sob pena de terem uma manifestação em Belém, encabeçada por mim, claro, a pedir “tigelinhas de creme” em vez de pastéis!

    1. Obrigado pelo conselho… E caso o Acaso me permita (e conduza) até essas paragens, onde se acoitam tão belas e gentis gentes, irei experimentar o tal arroz de povo que me recomenda – e se calhar até se poderia lá fazer um encontro de “delituosos” sitos a Norte…
      Quanto à “chila” ou “gila” limito-me a respeitar as diversidades locais, como é de bom tom nesta era avessa a ditatoriais opções.

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