Ao contrário do que para aí se afirma, não me parece que o principal traço que define Portugal e os portugueses seja o dos brandos costumes. O reduto último da portugalidade, se existe, deve procurar-se na circunstância de só conseguirmos ser solventes quando ousamos franquear as nossas fronteiras. Essa incapacidade de nos cumprirmos financeiramente quando nos fechamos no nosso território encontra o reverso da medalha, e a confirmação empírica de quanto afirmo, no período dos descobrimentos, no sucesso dos nossos emigrantes (sempre mais valorizados no estrangeiro do que dentro de portas) nos anos áureos que se sucederam à adesão à então CEE e na prática, arreigada e praticamente ancestral em certos círculos, de aplicar capitais abundantes em contas offshore.

“capitais abundantes em contas offshore”.
Capitais esses “com 30 anos”, embora só tenham começado a ser depositados há cerca de uma década…
Um milagre de São Fripór, não?
A linha do tempo tem reentrâncias quando estamos offline, digo, offshore.
é o da irresponsabilidade
Não sei, Francisco. O certo é que saídos das fronteiras, ficamos logo mais responsáveis. Damos novos mundos ao mundo, os emigrantes tornam-se produtivos e os capitais rendem logo muito mais nas oofshore.
Apenas discordo da referência feita aos Descobrimentos neste contexto. Portugal certamente não era um país insolvente antes deles e certamente que não foi o Império que nos trouxe a solvência. Trouxe-nos antes a riqueza fácil que esteve na base dessa verdadeira essência da “portugalidade” que é viver acima das possibilidades. A pimenta das naus estava hipotecada em Antuérpia antes da chegada das Naus na Carreira da Índia e contam as más-línguas que faltou dinheiro para o enterro do mui Magnânimo Senhor Dom João V, que o ouro do Brasil, esse, estava na “estranja”, donde nos vinha tudo.
É possível que tenha sacrificado o rigor histórico à eficiência da mensagem, Hugo. Mas, tenha em conta que a referência explícita dizia respeito à descoberta das ilhas Caimão que poderá, ao contrário do que possa parecer, ter sido descoberta por portugueses e apenas no século XX.
🙂 grande falha dos livros de história a de não referirem essa grandiosa descoberta!!
espero não ter dados ares de lição de história. A ideia era ironizar sobre o facto de, para mim, a insolvência crónica dos portugueses residir precisamente nessa ideia subjacente à sua reflexão de que só lá fora é que somos bons, porque a estranja é que é. Se quiser, é tão português a insolvência, como a crença de que só lá fora é que seria possível ser de outro modo. (para uma degustação intensa do tema prove-se Maias, um vintage da Quinta d’Eça , amadurecido durante mais de um século, é cá uma pomada…).
E eu concordo consigo, Hugo.