Afinal, parece que há por aí muito boa gente, incluindo grandes jornalistas e cronistas críticos de Sócrates, que não está nada preocupada com o eventual regresso da Censura. Este fim de semana, a imprensa revelou alguns:
Oito passos em direcção ao fim
“… a liberdade de imprensa não está em perigo em Portugal. Obviamente. Quem o diz, quem organiza petições on line e manifs, nunca antes, quando o perigo real existiu, se fez ouvir. Não há um único grande jornalista português que ande por aí aos gritos em defesa da liberdade pretensamente ameaçada. Não conheço ninguém que não diga e não escreva o que quer e que não tenha uma tribuna para ser escutado.(…)
Convém, pois, não confundir liberdade com irresponsabilidade,não confundir vaidades individuais , desejos de protagonismo e aproveitamentos políticos com a situação real, como um todo”
(Miguel Sousa Tavares, Expresso)
Sobre a liberdade de imprensa e algumas coisas mais
“Quem diz que não há liberdade de Imprensa em Portugal ou é mentalmente indigente ou está a ser o serventuário de uma estratégia política repugnante. Os nossos problemas são outros e muitíssimo mais graves…”
(Baptista Bastos, Jornal de Negócios)
Sócrates no bunker
“…Escutar o telefone do próximo, por muito necessário que seja, é uma ideia que me repugna. E publicar a seguir o que se ouviu, ou foi ouvido, não me parece admirável, mesmo para defesa da democracia ou da limpeza pública”
( Vasco Pulido Valente, Público)
A caixa de Pandora da República
“…Uma coisa são pressões, manobras, lutas de influência, disputas localizadas, outra construir uma imponente teoria de um "crime contra o Estado de Direito", com vista ao controlo da Comunicação Social na sua globalidade. Esta ideia é paradoxal. As mesmas forças que desencadeiam a poderosa campanha de opinião em curso consideram que já não existe liberdade de expressão. Num sistema mediático em que predominam a direita e o centro-direita, as forças dominantes dizem-se "asfixiadas". A suposta "asfixia" exprime-se em uníssono num coro (quase) sem dissonâncias(…)"
( Mário Mesquita, JN)
Brancura virtuosa
“…É sempre bonito ver alguém vestir-se de branco (pois, em atestado de pureza de intenções, elas irão vestidas de branco e eles vestidos de almirante como no poema de Cesariny) para gritar "pelo direito fundamental à liberdade de expressão".
E pode ser um começo e que, um dia, vejamos a mesma gente manifestar-se também por outros direitos fundamentais, como o direito ao trabalho, à segurança no emprego e a uma retribuição condigna ou o direito de todos (a Constituição diz todos) de constituir família e contrair casamento e não ser privado desse direito em razão da sua orientação sexual.(…)”
( Manuel António Pina, JN)
A “bufaria”
“Hoje não se pode estar à vontade num restaurante, porque ao lado pode estar um "bufo" a ouvir a conversa para a ir relatar ao seu tablóide preferido. Até a factura da refeição pode ser útil para o mesmo fim. A privacidade deixou de ter qualquer respeito ou protecção.”
( Marinho Pinto JN)
O sol, o polvo e a conversa de chacha
“…Ontem, comprei o Sol. Li as quatro páginas sobre as escutas que me prometiam relatar o polvo governamental sobre jornais e televisão. Mas não estava lá nada sobre o assunto. Não quero dizer que Sócrates não quis dominar a Imprensa. Não digo que o Governo não coma microfones ao pequeno-almoço. Digo é isto: naquela edição do Sol não estava lá nada sobre o assunto. Então, do que falamos?”
(Ferreira Fernandes, DN)
O jornalismo não é para meninas
“Dizer que a liberdade de expressão está em causa em Portugal, é um insulto para milhares de pessoas que, durante quarenta anos, pagaram com a falta de liberdade as suas opiniões. E é uma contradição: é por não haver falta de liberdade de expressão que se conhecem todas as conspirações, possíveis e imaginárias que o actual poder concebeu(…)”
( Nicolau Santos, Expresso)
Portugal Amordaçado
“A nossa história recente está cheia de exemplos de tentativas de controlo de órgãos de comunicação social. Existirão sempre enquanto a diferença entre a sobrevivência económica de uma estação de televisão, de rádio ou dum jornal estiver na mão de quem detém conjunturalmente o poder executivo, seja directamente, seja através de empresas públicas (ou aparentadas, por exemplo, as em que o Estado tem golden shares, como no caso da PT) ou de empresas privadas que dependem do Estado para a sua actividade (a grande maioria das empresas portuguesas). Enquanto assim for, independentemente de quem esteja no Governo, andaremos sempre a falar da mesma coisa. Estaremos sempre dependentes da capacidade de um líder conviver melhor ou pior com a inevitável diferença de opiniões e da sua capacidade de controlar os comissários políticos que, tão certo como o destino, ocuparão a máquina estatal e as empresas que efectivamente o Estado controla.”
( Pedro Marques Lopes, DN)
Poderia acrescentar mais, mas creio que estas ilustram bem como é manifestamente exagerado o medo do regresso da Censura. Porque a isenção não me tolda o raciocínio, também sou crítico de outras manifs de sinal contrário, igualmente com resquícios de Estado Novo.

Carlos, é claro que essa censura liminar que vigorou no passado é impossível regressar. Mas sofisticou-se. Tu e os por ti citado esquecem que os empregados da opinião, os funcionários da investigação e da notícia que desagradarem os patrões da opinião, da investigação e da notícia por irem por ousadias nunca d’antes devassadas, se esses patrões forem devedores de favores de um Poder Imoral e Imoderado, poderão sofrer as devidas represálias. É disso que nós, os estúpidos exptrapoladores, andamos a falar. De represálias. De respeitinho. De escúpulos. Não confundir as coisas.
Mas a isso, Joshua, eu tenho assistido sempre. E não é só na comnicação social. É também nas empresas, na funçaõ pública, nas sociedades recreativas, nos partidos políticos… não tem nada a ver com liberdade de expressão.
A isso eu chamo outra coisa: cagaço. As pessoas não falam, não discutem as decisões dos chefes, apenas porque têm medo de ser prejudicadas.
Ok. Inteiramente de acordo.
O Carlos Barbosa de Oliveira, socialista evidentemente perturbado com o Tsunami informativo que varre um certo PS manobrista, voluntarista e excessivo, arremedou paletes de citações para provar um ponto óbvio: é impossível que regresse a censura liminar que vigorou no passado salazarento. A censura, hoje, é uma outra coisa. Mais subtil. Sofisticou-se. O Carlos e os por ele citados esquecem que os empregados da opinião, os funcionários da investigação e da notícia que desagradem os respectivos patrões da opinião, patrões da investigação e da notícia, apenas por navegarem por matérias nunca d’antes devassadas, tais funcionários e empregados poderão sofrer represálias, caso tais seus patrões sejam devedores de favores perante um Poder Imoral pois Imoderado. Esse Poder Imoral porque Imoderado não é ficção. Tem sido um facto. É disso que nós, estúpidos extrapoladores, andamos a falar há cinco anos. De assédio à independência. De represálias! De respeitinho! De escrúpulos induzidos! Por que distorce e confunde o Carlos de tal modo as coisas ao ponto caramelo-caricatura?
Pode até não haver censura, mas há terror:
Um post misteriosamente desaparecido do blogue A Regra do Jogo
A rede tentacular dos Abrantes socráticos e a “conversa do descalabro orçamental”
Nota prévia: todo o material citado abaixo está disponível a quem me pedir para o mail do blogue. Adicionalmente, estou totalmente seguro ao escrever isto, porque quando muito passarei por ingénuo, ao ter acreditado que os documentos vinham do PS. Ninguém encontra um único texto meu que faça uso dos documentos abaixo citados. Pode haver quem encare isto com normalidade. Eu recuso-me a aceitar que o que digo abaixo seja a forma normal de fazer política, misturando o partido, o candidato a deputado, assessores, ministros e mais não sei quem num fluxo de desinformação.
O Carlos Guimarães Pinto diz-nos que há assessores governativos anónimos. Que injustiça. O conceito de “Abrantes” é muito mais abrangente do que a Câmara Corporativa. Abarca uma gama de funcionários e avençados que presta assessoria em Gabinetes e produz documentos que antes e depois das eleições circulavam para difusão propagandística. Eram anónimos? Até se saber o nome. Pronto, está bem, não se chamavam Abrantes. Mas tendo o outro dia sido desafiado a revelar quem era o Abrantes, prefiro basear-me num mail que recebi a 6 de Agosto, do actual deputado João Galamba, no tempo do Simplex, forward de um mail que ele tinha recebido de um assessor do então Ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva. Por sua vez reencaminhado do Tiago Antunes, actuamente chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto do Primeiro Ministro, Almeida Ribeiro, que o reencaminhava do assessor económico do Primeiro Ministro Óscar Gaspar, actualmente Secretário de Estado da Saúde. Rede tentacular?
Para que serve o mail? Para informar o candidato a deputado, colocado em lugar elegível, ao que julgo pela quota do Secretário Geral, de que o documento que vinha anexo “Era bom para responder à conversa do descalabro orçamental”. Responder onde? No blogue de apoio ao PS que o candidato a deputado tinha ajudado a criar. Ilícito? Nenhum! Ilícito revelar? De maneira nenhuma, o Galamba enviou-me isto. Mas, talvez menos ético, não sei o blog de apoio a um partido numas eleições ser alimentado por informação do governo, que passa do assessor económico do PM, para outro da hierarquia, até ao do Santos Silva, que o envia a um candidato a deputado. É para isto que pagamos impostos que remuneram assessores governativos? E podem estas coisas suceder sem conhecimento do PM? Ademais, a maior parta dos documentos, noutros mails recebidos pelo jovem deputado, vêm de software licenciado ao Ring (Rede Informática do Governo).
Does it matter? E, por fim, são documentos de um rigor impressionante. No tal documento onde o assessor de Santos Silva diz “Esta é boa para responder à conversa do descalabro orçamental”, reitero, à “conversa”, pode ler-se um trecho que demonstra quão visionário era o assessor económico do PM e actual Secretário de Estado:
” A dívida pública de Portugal não foi especialmente abalada pela crise internacional, como se comprova pela evolução recente dos seus spreads face à dívida alemã, e foi possível repercutir a redução da euribor nas condições de crédito domésticas.”
Isto é um Abrantes que mereceu a promoção. Viu a Euribor a descer e julgou que os bancos não estavam a alargar os spreads. E considera, que a dívida pública portuguesa não foi especialmente abalada: embora tenha passado para cerca de 84% do PIB, se não considerarmos o Sector Empresarial do Estado. Mas ainda assim….não anda o PM a dizer que a culpa é da crise??
E agora, Abrantes? Querem que se diga quem mais enviou informação ao candidato a deputado? Há mais secretários de estado, chefes de gabinete e afins. Mas o que eu gostava mesmo de saber é afinal com quem jantou o Eduardo Pitta
Carlos Santos, 14 de Fevereiro de 2010
O seu post mistura muitas coisas, concordando eu com umas e discordando de outras. Deixo apenas 3 observações:
1. Eu não assinei a petição e não fui à manifestação, mas não creio que Sócrates esteja inocente. Não podemos falar em censura – e aí estou de acordo – porque isso implicaria a existência de uma entidade com o poder de impedir a publicação de algo, mas existiu, tudo indica, uma tentativa de condicionar órgãos de comunicação social. E seria muito interessante ir além da questão da liberdade de imprensa e investigar isto até às últimas consequências. A página 5 da edição do passado sábado do Público é muito interessante e reveladora da promiscuidade que isto atingiu. Cheira-me que ninguém – inclusive o PSD – sairia limpo de todo este lamaçal.
2. Acho que devemos avaliar sobretudo os argumentos, mas é legítimo que tenhamos em conta o historial de quem opina – embora este não deva servir, por si só, para desqualificar a opinião de alguém.
3. Só a título de exemplo: uma pessoa como Miguel de Sousa Tavares, que agora escreve sobre responsabilidade e confusão – e não deixa de ter alguma razão -, cheio de moralismo, falou em fascismo – repito: fascismo – por causa da lei do tabaco. É ou não é sumamente ridículo?
Nunca defendi a inocência de Sócrates. Essa é outra questão.
Quanto à lei antitabágica, uma vez que coarcta as liberdades de alguns, admito que haja quem a considere fascista. Não é essa a minha opinião, se quer saber. Penso apenas que se trata de uma lei estúpida, por equiparar os fumadores a delinquentes.
Além disso, se fossse prpprietário de um restaurante, ou de um bar exigiria que me dessem o direito de ser eu a impôr, na minha casa, as regras em relação ao assunto. Pode crer que há muitos proprietários descontentes e não é por acaso que há cada vez mais sítios onde se pode fumar em Lisboa e no resto do país.
Quem investiu num negócio deve ter o direito de saber qual a melhor medida a tomar, pois o facto de ser permitido fumar, não obriga os não fmadoes a entrarem nesse local.
Mas sobre este assunto já escrevi demasiado quer no meu blog, quer em colunas de opinião. Por isso, fico-me por aqui.
Mas que grande confusão vai nessa cabecinha…
Apenas fui buscar a lei – que me interessa pouco ou nada – como exemplo de que há pessoas, como é o caso de MST, que criticam o uso indevido de certas palavras – no caso, censura – mas também fazem, ou fizeram, um uso indevido delas. Usar indevidamente palavras como censura ou fascismo é uma irresponsabilidade histórica e uma falta de respeito para quem sofreu na pele aquilo que elas efectivamente designam.
É escusada a efabulação. Pode ir ao “A Regra do Jogo” e encontra lá a explicação.
Not quite! O que se passou é que não houve sincronia entre a expressão da minha dúvida e a sua satisfação.
O mistério de que fala deve-se, muito provavelmente, a falta de atenção da sua parte. Está lá muito bem explicado, pelo próprio autor, a razão porque decidiu retirar o post e publicá-lo no seu blog pessoal. Clarinho como água.
Já agora, informo-o de que não é hábito, no DO ecer críticas a blogs de outros. Principalmente, quando se trata de blogs amigos.
Tudo muito certo, caro CBdO, efectivamente o Carlos Santos já saciou as minhas dúvidas. Fê-lo no tempo que considerou adequado. Ainda passei algumas horas a tentar discorrer sobre o que havia passado, horas que talvez não tenham coincidido com essa explicação entretanto fornecida.
Independentemente do motivo por que o Carlos fez transitar o seu post de um blogue colectivo “amigo” do DO e do CBdO para o seu blogue pessoal, cumpre compreender o alcance da sua-dele corajosa denúncia do fenómeno “abrantes”. Em face do que ali é dito, a logística do post é coisa de somenos.
E se há socialista que respeito é o Carlos Santos, o meu amigo Quintino, o meu caro interlocutor CBdO e mais alguns com quem privo em fraterna amizade, gente de longas lutas e militâncias. Outra coisa bem diversa é o socratismo ávido e infrene. Abraços.
Obrigado pelas suas palavras. Quanto ao socratismo, nem precisa de ser “ávido e infrene” para eu o rejeitar. É uma questão de higiene mental.
Abraço
Nada podia divertir-me mais do que esse florilégio de opiniões de gente amesendada – uns de uma maneira, outros de outra. Com excepções que apenas confirmam a regra, como é costume dizer-se.
Estamos bem servidos de “opinion makers”, não haja dúvida.
ou seja, zombaria, histerismo (basta ver o rex acima) e, acima de tudo, a esperança na queda do sócrates que os ressabiados com os resultados das últimas eleições vislumbraram.
Deve ser gente à espera de tacho…
Claro que o Ferreira Fernandes teria de afirmar que não há censura de tipo nenhum, o passado dele assim o exige.
Ferreira Fernandes é um grande jornalista, como já por aqui foi referido várias vezes, por diversas pessoas.
Grande jornalista? Mais de 2 metros, é? Tantos como o autor no post, não?
É Carnaval, ninguém leva a mal.
Carlos
Não se zangue, mas a minha pouca inteligência não se deixa impressionar por esses nomes sonantes.
E desde quando o Carlos precisa de recorrer a esses ilustres para dizer que acha que a liberdade de imprensa não está ameaçada no nosso país?
Todos eles falham no alvo, no essencial.
O Miguel sousa Tavares (tão distante do Miguel da “Grande Reportagem” dos anos 90…) queixa-se das vozes que querem tribuna, protagonismo, etc. Talvez gostasse de ficar sozinho no palco…
O Baptista-Bastos chama-nos mentalmente indigentes ou oportunistas politicamente. É um argumento simplex, mas tudo bem, está na moda.
O Vasco Pulido Valente queixa-se das escutas porque as deve ter lido e achou repugnante. Eu preferi não as ler e esperar que me resumam o conteúdo.
O Mário Mesquita diz que a direita o centro-direita prevalece no sistema mediático. Onde? Que sistema mediático? Exemplos…?
O Manuel António Pina deve estar equivocado, confundiu as manifs, estive lá e não ouvi gritaria nenhuma. Mas pelos vistos as manifs também deviam ser “censuradas”.
O Marinho Pinto, e logo ele que anda sempre calado, queixa-se de quem nos ouve no restaurante…
Ferreira Fernandes também leu as escutas…
Nicolau Santos invoca os resistentes anti-fascistas para argumentar que agora está tudo bem na imprensa nacional.
Uf!, e Pedro Marques Lopes, relativiza tudo no tempo e propõe que se acabe com as “golden share” da PT. Mas pareceu-me que achou que o maior ou menor controle da informação depende do líder do governo. Ou percebi mal?
Enfim, só se devem ouvir as vozes sonantes, não há manifs para ninguém, as escutas são repugnantes e não o seu conteúdo, a direita domina nos media, os bufos também devem ser da direita, os resistentes anti-fascistas gostariam da nossa imprensa actual, e tudo depende do líder ser controlador, a não ser que acabem com as tentações.
Não sei se percebi bem. Estes senhores apreciam mesmo a liberdade… dá mesmo gosto ver como a defendem… para si e para os outros, os que não pensam como eles…
Ana (de fraca inteligência, fraquinha mesmo…)
Quem foi jornalista nos tempos da Censura sabe bem do que está a falar. Trouxe estes nomes, porque além de representarem várias correntes de opinião, desde a direita à esquerda, são pessoas com memória. Alguns são grandes jornalistas, com méritos reconhecidos por todos os jornalistas, independentemente das sua opções ideológicas.
É fácil gritar “vem aí a censura” ou ver censura neste caso das escutas, para quem nunca soube o que isso era.
Se a Ana soubesse o que era ter de falar num café, num cinema, ou noutros locais públicos em surdina, com medo da PIDE, ou ter de escrever nas entrelinhas para não ser cortado pelo lápis azul, não falaria assim.
Infelizmente há quem queira apagar a História do Estado Novo e mesmo quem a aprecie, mas há sempre quem tenha memória…
Carlos
Só cá faltava mesmo esse argumento, a falta de memória ou a saudade do Estado Novo… Já tinha 16 anos em 74. Sei muito bem avaliar as diferenças. Sei o que foi Salazar, a primavera marcelista, o Prec, e o caminho progressivo para uma democracia de qualidade.
Tenho procurado manter viva a memória, nos textos que edito no meu cantinho. Neles se pode ler que me lembro muito bem como era no Estado Novo; que este actual governo tem tiques de Estado Novo, mas mais modernaço.
E tive agora a ousadia de estar presente na primeira iniciativa do cidadão comum pela liberdade! Na manif onde não se gritaram slogans e onde se verificou o encontro entre pessoas de diversas opiniões, que se respeitam mutuamente porque respeitam precisamente a liberdade.
Liberdade, esse valor que as pessoas pensam adquirido só porque os ilustres dizem que está garantido. A liberdade nunca está garantida, precisamente porque não vivemos num mundo ideal, em que as pessoas respeitam o seu semelhante e a sua liberdade.
Ainda hoje o filósofo José Gil deu sinais de vida e disse-o finalmente, que há uma passividade que herdámos do tempo do Estado Novo, o medo de represálias. Mas que também há um ténue sinal, a querer emergir da sociedade civil, de quem preza a liberdade e a quer defender.
Ana (a que tem boa memória…)
Ana, tenho de registar uma vez mais uma total sintonia consigo. Talvez porque tenhamos exactamente a mesma idade e as mesmas memórias desses tempos (que não queremos apagar porque nos formaram e nos transformaram naquilo que somos, evidentemente). E não deixo de me espantar com um facto curioso: tantos inflexíveis defensores da liberdade a criticarem uma manifestação que foi precisamente, ela própria, uma demonstração do direito à liberdade. Porque a consquistámos, todos nós, e porque ela não tem donos. E porque, como diz e eu concordo totalmente, o facto de ter sido conquistada em 74 não significa que seja eternamente garantida,
Ana
Só agora vi o seu comentário. A Ana tem a minha idade? A sério? Imagino-os sempre mais novinhos do que eu…
Obrigada pelas suas palavras tão amáveis e pela possibilidade de me sentir acompanhada num ideal que começa a emergir nalgumas consciências que não se conformam com o caminho em que meteram a nossa vida colectiva…
Sim, se estes ilustres respeitassem mesmo a liberdade não teriam criticado a manifestação e a petição pela liberdade. E não teriam utilizado argumentos que menorizam ou neutralizam quem deles discorda. E se estes não são tiques salazarentos, o que são?
Dá que pensar, não dá?
Daqui, um sorriso desta idealista incorrigível.
E obrigada uma vez mais, Ana.
Dá que pensar, sim. Será que os que se consideram donos da liberdade não percebem até que ponto estão perto dos que se consideram donos da verdade?
Um beijo igualmente idealista.
🙂
O meu aplauso, Ana!
Fui “jornalista nos tempos da Censura” (como diz o autor do post) e depois… Sempre no lado certo, felizmente.
Posso garantir-lhe que os opinantes em causa estão redondamente equivocados. Mas isto vai passar mais depressa do que eles pensam. Só espero que tenham tempo de se envergonhar do que andam a escrever agora.
Ana
Peço desculpa por só hoje lhe responder , mas só agora li este comentário.
Folgo em saber que tem memória e está familiarizada com o que se passava no Estado Novo. Saberá, então, certamente, que nesse tempo quem escrevesse algo contra o governo, ou fosse ouvido por um “bufo” a dizer mal do regime, tinha fortes possibilidades de ser chamado à PIDE e corria o sério risco de ser mimoseado com umas meiguices dos simpáticos inspectores, ser privado da liberdade, ou mesmo deportado. ( Claro que também havia os jornalistas do regime, alguns dos quais eram devidamente recompensados por cantarem a gesta do Estado Novo). Não lhe será difícil concluir, portanto, que estamos muito longe desses tempos.
Posto isto, quero dizer-lhe que o meu post nada tem a ver com a manif da semana passada. Para mim isso é assunto arrumado. Exprimi a minha opinião uma vez e se alguém ficou ofendido, lamento, mas tenho direito a ela.
Este post tem a ver, apenas, com a histeria que se instalou, em alguns sectores, gritando “ Vem aí a Censura”
A razão porque fui repescar estas opiniões , lidas durante o fim de semana,, deve-se ao simples facto de o DO ser um espaço de opinião plural e, como já aqui tinham sido trazidos testemunhos de jornalistas que também comungam a sua opinião, resolvi trazer um conjunto de opiniões de jornalistas reconhecidos, em toda a classe, como GRANDES JORNALISTAS, que têm opinião contrária. Nenhum deles defende Sócrates ( bem pelo contrário..) mas todos são unânimes em rebater a ideia do perigo de Censura.
Serei aquilo a que Júlio Cortázar chamou um “cronópio”, mas tenho um terrível hábito: se o Criador me deu dois olhos e dois ouvidos, foi para usar ambos e não apenas um.
Não sou a aranha no meio da teia, nem a mosca que se mata com o vinagre das palavras.
Era só isso que gostava que percebesse. O tempo do “quem não é por nós é contra nós”, felizmente já passou.
Uma opinião é uma opinião, nada mais do que isso. E, felizmente, ao contrário do que acontecia no tempo da Censura no Estado Novo, todos as podemos exprimir livremente.
Não consigo descortinar a tal Censura, só porque um boy interpôs uma providência cautelar a que um juiz deu provimento.
Quem pensa que as providências cautelares são uma aberração, certamente não percebeu as injustiças que elas podem evitar ( não estou a falar deste caso do Sol, como é evidente…)
Creio ter esclarecido a minha posição. Se não consegui, peço desculpa. Será, provavelmente, problema meu. Tentarei, numa próxima oportunidade ser mais claro. Com isto, a discussão sobre este post está para mim encerrada.
“Com isto, a discussão sobre este post está para mim encerrada”.
Ora toma lá que é democrático.