Eleições britânicas, take dois


josegomesandre,

Como tinha antecipado neste texto, teremos um governo britânico chefiado por David Cameron, com os liberais-democratas (provavelmente) no barco, de modo a conferir solidez a esta nova etapa em terras de Sua Majestade. Curiosamente, nos últimos dois dias li nalguma imprensa e blogues sugestões de que a demissão de Gordon Brown pressagiava um novo governo formado por trabalhistas e liberais-democratas.

 

Pareceu-me desde logo uma solução descabida: os dois partidos juntos têm 315 deputados, dez a menos de uma maioria absoluta inequívoca. Ora, se a ideia de um governo labour/lib-dem era o de evitar uma maioria conservadora relativa, então seria necessário alargar a primeira coligação a pelo menos dois outros partidos (unionistas da Irlanda do Norte + trabalhistas da Irlanda do Norte ou unionistas escoceses), resultando daqui uma verdadeira salada russa num país ansioso por uma solução de governo clara e estável.

 

Por outro lado, não deixei de achar curiosa tal sugestão, particularmente quando advogada pela intelligentzia socialista da blogosfera nacional, ansiosa pela constituição de um governo de Esquerda, mesmo se a eleição foi ganha pelo Partido Conservador com 36% dos votos (e maioria de 306 deputados) contra 29% (258) dos trabalhistas. Assim de repente, lembrei-me de alguns textos redigidos em Setembro passado, descrevendo como injusta, calamitosa e despótica a possibilidade de Manuela Ferreira Leite vir a formar governo (com o CDS), depois de ter perdido a eleição (com 29%) para o PS (com 36%). Pelos vistos, tal situação só seria escandalosa se envolvesse um governo de Direita. Se tal trafulhice ocorresse à Esquerda, já não tinha problema nenhum!

Um comentário em “Eleições britânicas, take dois”

  1. Dizes bem, José. Na opinião de alguns, o que parecia (e era) impensável em Setembro em Portugal (o PSD formar governo, com apenas 29%, contra os 36% do PS), já parecia valer agora para o Reino Unido (Brown, com 29%, poder formar governo, em vez de Cameron, com 36%).
    Como é óbvio, esta mirabolante tese não resistia a dois segundos de reflexão. Tal como outra, igualmente disparatada, que apontava para um governo trabalhista sem Brown. Como se fosse admissível, em termos democráticos, que o Labour tivesse um segundo primeiro-ministro consecutivo oriundo de arranjos políticos e não do voto popular. Já bastou a transmissão de poderes de Blair para Brown, em Julho de 2007.

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