1. Ninguém pode festejar. Os conservadores falham a almejada maioria absoluta. Os trabalhistas perdem quase cem lugares. Os liberais-democratas não crescem em número de deputados, ao contrário do que se previa.
2. O cenário de “hung parliament” (parlamento dividido) deixa várias opções em aberto (incluindo a manutenção de Gordon Brown como primeiro-ministro). Politicamente, contudo, parecem existir apenas três cenários lógicos de governação: a) conservadores em minoria; b) conservadores em coligação com liberais-democratas; c) conservadores em coligação com partidos unionistas da Irlanda do Norte/Escócia.
3. O primeiro cenário aponta para um cenário de instabilidade política num país onde não se governa sem maioria parlamentar clara. Os conservadores dificilmente poderiam implementar as medidas mais duras que constam no seu programa e o mais provável era termos eleições antecipadas no próximo ano.
4. O segundo cenário seria eventualmente o mais estável, mas tem contornos anti-natura. É difícil imaginar que tipo de acordo poderá haver entre conservadores e liberais-democratas na “questão europeia” ou na imigração (onde os dois partidos defendem posições antagónicas), ou mesmo noutros temas como a reforma eleitoral ou o peso da administração pública.
5. O terceiro cenário teria um pesado custo político – um mais que provável reforço da autonomia regional, relativamente à qual os conservadores franzem o sobrolho. Já para não falar de que seria uma coligação no fio da navalha, face à dimensão tangencial da mesma (320-325 votos, dependendo da coligação, num parlamento de 650 onde o Sinn Fein – cinco deputados – e o Speaker tradicionalmente não votam).
6. Apesar destas indefinições, há duas certezas gerais: os Trabalhistas caíram em desgraça (a Esquerda europeia passa por dificuldades – sinal de que os cidadãos preferem uma solução conservadora ou liberal para a superação da crise?) e o sistema eleitoral britânico revelou as insuficiências do modelo uninominal quando este não é acompanhado de devidas compensações (os liberais-democratas têm apenas 8,7% dos deputados, apesar de terem somado 23% dos votos, por exemplo).

És uma estrela televisiva. E justifica-se bem.
És um exagerado! Mas como os elogios fazem bem ao ego, ficam os agradecimentos 🙂 Abraço!
Interessante artigo.
Obrigado.
Apesar de JGA, estar sempre onde a esquerda se afunda. Dou-lhe os parabéns pela analise valorosa com que nos presentei-a neste post!
Obrigado, Nuno.
“a Esquerda europeia passa por dificuldades – sinal de que os cidadãos preferem uma solução conservadora ou liberal para a superação da crise?”
Penso que a questao e diferente: nos anos 90 a esquerda europeia teve grande forca as costas da Terceira Via. Isso foi ajudado ainda mais pelo crescimento economico. Com a crise do inicio dos anos 00, a esquerda europeia viu-se confrontada com a fragilidade do modelo adoptado (o qual nunca tinha tido grande sustentacao teorica, sendo apenas uma adopcao de um modelo de governacao pragmatico tentando manter contornos sociais-democratas). Desde essa altura que tem vivido em crise, em parte porque Tony Blair, que era o seu principal rosto, foi demonizado ao estar ao lado dos americanos na invasao do Iraque. Desde entao que se tornou essencialmente impossivel encontrar um caminho para a esquerda europeia, a qual tem sido invisivel (nao considero estes governos de Socrates como de esquerda – Sa Carneiro era-o bem mais). Com a falta de personalidades fortes a nivel europeu que consigam comecar uma reflexao sobre a esquerda, a direita (que foi construindo um edificio teorico bem mais solido) acabou por aproveitar bem o vazio, mesmo em condicoes que nao lhe pareciam favoraveis (a depressao actual comecada com a crise do subprime).
A verdade e que, mesmo numa Europa nao totalmente satisfeita com os seus governantes de direita, a esquerda nao tem nada para apresentar: as bandeiras habituais de aumento de investimento publico foram apropriadas desde logo por todos os governos, os de direita incluidos, e as solucoes para os que ainda tem a crise as portas e a austeridade ao jeito da direita (vide o caso grego onde o governo de centro-esquerda tem que optar por decisoes tipicas de governos liberais). Nao e de estranhar que os nacionalistas (ou patidos com discurso mais nacionalista) tenham ganho terreno um pouco por todo o lado.
Excelente comentário, João. Concordo consigo que os governos europeus têm, de um modo geral, seguido linhas ideológicas “pragmáticas”. Para a direita, isso significa adequar ligeiramente o seu discurso à acção política. Mas para a Esquerda representa um evidente corte “programático”, com difíceis e profundas consequências para a sua identidade…
Abraço e obrigado!
Boa reflexão, José. Na linha da tua impecável prestação televisiva na longa noite eleitoral. Tenho apenas alguma reserva quanto ao ponto 1. Apesar de terem menos cinco deputados, e ficarem aquém das inflacionadas expectativas mediáticas das últimas semanas, os liberais têm bons motivos para sorrir. Ao que tudo indica, farão parte da próxima solução governativa, o que lhes dará a primeira oportunidade de acesso ao poder desde a década de 20. Suponho que, dada a crise actual, não terão dificuldade em matizar o discurso pró-europeu em troca de alterações substanciais no sistema eleitoral britânico. Resta ver se Cameron está disposto a ceder nesta matéria. Mas as alternativas que lhe restam, como sublinhas, são piores.
Obrigado, Pedro! Concordo que o desastre não foi total para os liberais, mas esse “triunfo” de poderem vir a fazer parte do governo era um dado quase-adquirido, e este mau resultado veio torná-lo bem mais complexo. Ou seja, claro que 2010 será recordado positivamente pelos lib-dems, mas com um resultado mais expressivo (e recordo que chegou a falar-se em duplicar os deputados), os lib-dems teriam, não só uma palavra a dizer na composição do governo, mas disporiam de uma inequívoca força política no mesmo – o que talvez não venha a acontecer desta vez.
No resto, concordo que os lib-dems irão preferencialmente jogar tudo na reforma do sistema eleitoral, mais do que fazer exigências na política europeia. Porém, mesmo na questão da reforça eleitoral não estou bem a ver como é que Cameron cede na questão dos círculos uninominais (abrindo as portas a um Partido Liberal-Democrata muito mais forte no futuro…)! Abraço!
Pois. Brown, por seu lado, já se proclama bem mais aberto nessa matéria: vale tudo para se aguentar no poder. Mas os lib-dem bem podem queixar da injustiça do sistema eleitoral. Se em Portugal tivéssemos esta lógica de conversão de votos em mandatos, CDS e Bloco de Esquerda eram riscados do mapa parlamentar.