“Should we or shouldn’t we be allowed to modify human DNA in future children?”
É com esta pergunta que a BBC News introduzia um artigo publicado há uns dias no seu site sobre as fronteiras morais e éticas ao exercício da engenharia genética na alteração de embriões humanos. No fundo, estamos a falar da edição do genoma humano para condicionar/alterar o ADN de uma futura criança, o que na prática significa que, pela primeira vez na história da Humanidade, um bebé poderia potencialmente nascer com características genéticas que não fossem fruto do livre arbítrio, mas da vontade dos seus progenitores. Ou seja, estaríamos perante um novo mundo, o tal mundo pós-Humano de que Francis Fukuyama e outros autores falaram, dando-se assim início a uma nova História. Uma história pós-Humana.
Acredito que esta problemática, com as suas diversas implicações éticas, políticas, sociais, morais e religiosas, será uma das questões mais fracturantes num futuro próximo e, por isso, me debrucei sobre o tema no livro “A Política e o Homem Pós-Humano”[1]. O livro acabou por ser a extensão da minha dissertação de mestrado em Ciência Política, coordenada por um dos mais ilustres sociólogos nacionais e internacionais, o já falecido Hermínio Martins (Maputo, 1934 – Oxford, 2015), que durante décadas se dedicou ao pensamento destas matérias. Praticamente um desconhecido em Portugal, gozava de uma reputação de excelência no estrangeiro, ao ponto de o The Independent escrever no seu obituário o seguinte: “The death of the Portuguese-British sociologist Hermínio Martins will be mourned by social scientists internationally, impressed by his extraordinary erudition and the subtlety of his irony.”
Hermínio Martins foi Professor Emérito do St. Anthony’s College, da Universidade de Oxford, onde desenvolveu parte da sua carreira, tendo anteriormente estudado com Karl Popper e Ernest Gellner e mais tarde trabalhado com nomes de referência da sociologia mundial, tais como John Rex, Talcott Parsons, Seymour Martin-Lipset ou David Riesman.
Motivado pelo estímulo intelectual do “mais filósofo dos cientistas sociais portugueses”, como escreveu António Guerreiro no PÚBLICO por altura da sua morte, comecei a compreender em toda a plenitude o alcance das repercussões futuras da bioengenharia e da biotecnologia nas sociedades vindouras. “Da reprodução de órgãos geneticamente iguais à possível criação de um ‘super-homem’, a sociedade encontra-se no centro de um debate que, embora ainda tímido nalguns Estados e até ausente noutros, ganha protagonismo na agenda política”.[2] Percebi também que “quando Francis Fukuyama falou no ‘Fim da História e no Último Homem’, apropriando-se de uma concepção determinista recorrente, admitiu mais tarde que a génese da destruição da sua tese se encontrava precisamente nas novas biotecnologias. A possibilidade de um ‘outro eu’, produto do Homem e não do livre arbítrio, faria emergir um mundo pós-humano, dando-se, assim, início a uma nova História”.[3]
É um possível cenário futuro sobre o qual devemos reflectir e estar atentos, até porque o passado tem demonstrado o princípio da inevitabilidade do progresso científico, não obstante a tentativa de forças conservadores se baterem pela manutenção do status quo em determinados períodos históricos de ruptura nos modelos de pensamento.
A notícia da BBC News aqui citada, que se junta a tantas outras, mas que para já não captam a atenção para os debates mais massificados, vem precisamente reforçar essa ideia, ao citar um estudo divulgado há dias pelo Nuffield Council on Bioethics, uma entidade independente britânica sobre políticas públicas no âmbito das questões éticas em biologia e medicina. Para aquele organismo, não há qualquer razão impeditiva para que a engenharia genética não possa ser aplicada nos embriões humanos, apesar das implicações para a sociedade serem “extensivas, profundas e a longo prazo”. É importante relembrar que no Reino Unido, à semelhança do que acontece noutros países, este tipo de investigação genética só é possível (quando o é) em embriões criados para fertilização in vitro que não foram utilizados, os chamados embriões excedentários. Nesse mesmo texto da BBC News fica evidente o confronto ideológico e ético das várias correntes, com os mais conservadores a criticarem aquilo que chamam de um “abrir portas” aos “designer babies” e os mais progressistas a enaltecerem as virtudes da ciência. É um debate que se tem feito desde há uns anos a esta parte, cada vez com mais intensidade sobretudo nos Estados Unidos.
Poderá não ser para um futuro muito próximo, mas “as novas biotecnologias poderão ainda fazer chegar o dia em que nascerá o primeiro ’homem’ feito à medida da vontade de um seu semelhante. Da cor dos olhos e do cabelo, ao valor do QI, passando pelo sexo da criança ou pelo nível de agressividade das suas emoções, tudo será possível manusear como se fosse uma encomenda por catálogo”.[4]
Uma problemática que há muitos anos Hermínio Martins explorou nos seus estudos e reflexões no âmbito da “civilização tecnológica e condição humana”, antecipando claramente o futuro ao considerar “que “as biotecnológicas não buscam meramente facultar melhoramentos cosméticos e mais próteses para organismos humanos e não humanos, mas criar novas formas de vida. De todas as tecnologias contemporâneas é talvez a biotecnologia a que tem uma vocação mais decisivamente ontológica. O seu horizonte inclui a criação de novas formas de vida orgânica como resultado de modificações genéticas, englobando transferências genéticas entre espécies e potencialmente o derrubar das fronteiras entre espécies biológicas naturais – enquanto a evolução tanto orgânica como inorgânica tinha sido na generalidade adversa a mesoformas e, na verdade, um princípio geral de instabilidade das mesoformas foi enunciado por muitos filósofos naturais tais como Fraser (1982). As formas de vida artificiais iludem as fronteiras naturais e os limites da evolução biológica ‘normal’”.[5]
Pela primeira vez na sua História, o Homem detém tecnologia que poderá ter consequências “na definição e na concepção/adulteração do Homem biológico, tal e qual o conhecemos há milhares de anos, e, consequentemente, na forma de como a Humanidade olhará para ela própria. As novas biotecnologias abrem assim uma imensa porta para admiráveis mundos novos, que permitem vislumbrar sociedades mais próximas da utopia, onde as pessoas podem viver para lá dos 110 anos, auto-regenerando-se com os seus próprios órgãos geneticamente compatíveis, desafiando as leis naturais que têm imperado até hoje: a ausência de qualquer flagelo degenerativo ou a erradicação da dor e da doença. Tal modelo de sociedade será, à primeira vista, o procurado por todas as pessoas de bom senso, sobretudo quando nos dias que correm tantos desafios há a vencer, mas como as utopias positivas e negativas têm revelado através do trabalho intelectual de muitos autores, a busca da perfeição pressupõe quase sempre alterações drásticas de comportamentos sociais e humanos”.[6]
A pergunta com que iniciámos este texto deve merecer uma reflexão séria, porque algo de novo se começa a vislumbrar no percurso da Humanidade, já que estão a ser criadas condições para a ruptura entre os mundos Humano e pós-Humano.
[1] GUERRA, Alexandre – A Política e o Homem Pós-Humano, com prefácio do Viriato Soromenho-Marques e texto de contra capa de José Manuel Durão Barroso (Lisboa: Alêtheia, Novembro de 2016)
[2] Idem. pág. 16
[3] Idem, ibidem
[4] Idem, pág. 174
[5] MARTINS, Hermínio – Experimentum Humanum (Lisboa: Relógio D’Agua, Maio de 2011), pág.28 págs. 165 e 166
[6] Ob. Cit. – A Política e o Homem Pós-Humano, pág. 173
Publicado originalmente no Observador

Nessa altura é que vão ver o que é racismo.
A questão, a meu ver, com a engenharia e manipulação genética prende-se com a ignorância sobre como os genes interagem entre si e como os segmentos não génicos do DNA poderão ter fundamental importância na expressão daqueles mesmo genes. Há ainda outra questão que tem sido reforçada nos últimos anos. E é a interferência entre os estímulos ambientais e a expressão /activação genética – um gene sujeito a estímulos ambientais diferentes terá expressão diversa.
À semelhança do nuclear começamos a mexer sem domínio técnico e científico. Além obviamente das implicações éticas que uma tecnologia desse género acarreta, com a possibilidade do seu patenteamento. Com a possibilidade de a Vida se transformar num bem de consumo regida pelas leis do mercado.
“Com a possibilidade de a Vida se transformar num bem de consumo regida pelas leis do mercado.”
Até dá a ideia de que não o é já!…
Como é que se podem patentear genes com os quais todos nós nascemos? Seria como patentear o Sol. Essas empresas de biotecnologia ao descobrirem a função de um gene tentarão, como já o fizeram no passado, tornar “seu” esse mesmo gene. Ou seja transportaremos matéria genética que não será nossa.
“Como é que se podem patentear genes com os quais todos nós nascemos?”
Em Portugal, chamam-lhe “o NIF”…
Mas não duvido que se caminhe na direcção que alvitra!…
Veja-se com as sementes “deles” que lhe caiam e germinem no seu quintal… Legalmente, a quem pertencem?… Pois!…
Talvez eu seja serôdia e agarrada ao meu tempo que tem muito mais passado que futuro. Mas a hipótese de escolher um filho como se seja qualquer bem de consumo, arrepia-me; a ideia de que toda a gente vai ser bonita, inteligente, dotada, causa-me confusão, gosto da miscelânea; a suposição de um mundo assim, ou muito parecido, destrói a minha confiança na espécie. A ser verdade, trata-se de um ser desconhecido num mundo desconhecido.
Podem emigrar para Mercúrio, Venus, Saturno, Marte, Jupiter…
Temos milhares de anos no Planeta Terra a nossa casa que estes palermas estão a destruir. O ” milagre” da vida e da procriação nunca precisou destes “avançados”. Que nausea isto me dá.
quando se perde os valores cristãos herdados entramos no campo animal…abrem-se as portas para os instintos animais…
https://www.nytimes.com/2017/07/06/books/r eview/behave-robert-m-sapolsky-.html
Este post exibe alguma falta de modéstia. Após amplos elogios ao seu orientador de mestrado (elogios que naturalmente se refletem sobre o mestrando), afirma que “comecei a compreender em toda a plenitude”, ou seja, não compreendeu apenas parcialmente como muitos outros, mas abarcou na totalidade tudo o que havia para compreender.
LOL. Mas nada comparado com um prof que eu tive — que fez a assinatura dele com tinta dourada no capot do Fiat 600.
Mas a procriação medicamente assistida é uma técnica muito cara e altamente ineficiente; por cada embrião que se implanta com sucesso há cerca de cinco (creio eu) que são produzidos mas não vingam. Se ainda por cima se vai tentar manipular geneticamente todos esses embriões, a coisa ainda vai ficar mais cara e ainda mais ineficiente.
Os preços não são estáticos. A tecnologia muda os preços . Por exemplo o petróleo também era caro explorar em mais circunstâncias mas com mudança tecnológica os EUA arriscam-se a serem hoje o maior produtor mundial.
Claro que os preços não são estáticos. Mas, enquanto uma técnica fôr cara e melindrosa, não vale a pena estar a discutir as suas consequências como se ela fosse barata e fácil.
Correcção: antes de se saber se algum embrião “vinga”, há outros aspectos a considerar.
1. No processo in vitro, a mulher é estimulada hormonalmente para gerar o máximo possível de óvulos (em vez de apenas 1 por ciclo menstrual).
2. os médicos extraem dos ovários todos os óvulos que conseguem ver por ultra-som.
3. os médicos tentam fertilizar “in vitro” todos os óvulos para gerarem embriões.
4. dos embriões viáveis, ao fim de 3-7 dias (depende dos protocolos usados), um número mínimo é transferido para o útero da mulher. Habitualmente é apenas 1 embrião. Em certas condições serão 2.
5. Em média, os médicos extraem 8-10 embriões. Isso significa que por cada ciclo de estimulação hormonal há 6-9 embriões por usar. estes são depois congelados.
6. Quando não há gravidez bem sucedida, os médicos vão depois colocando os embriões congelados antes de optar por fazer novo ciclo de estimulação hormonal. Só quando não há mais é que voltam a “produzir” óvulos.
O nível de sucesso cumulativo da fertilização in vitro ao fim de 1 ano é normalmente de 60%. No final é normal que existam 5-10 embriões congelados. Isto depende muito da mulher, das razões da opção por in vitro, e da idade e saúde da mulher.
O custo de cada ciclo in vitro incluíndo estimulação hormonal, extracção de óvulos e sua fertilização e posterior implantação e seguimento do processo é de cerca de 3.500 €/ciclo na Europa ocidental (segundo me recordo de ler).
Tudo isto só para esclarecer o processo completo.
Seja como for, os custos de gerar os embriões estão já pagos. Os restantes são os custos normais de biotecnologia. Não haverá uma enorme percentagem da população a poder pagá-los, mas acabará sempr epor haver muita gente a poder fazê-lo. Mais que isso: quem poderá de facto melhorar geneticamente os seus filhos serão precisamente as pessoas que possuam mais meios e que já poderiam passar tais vantagens aos filhos.
Obrigado por explicar. Mas a explicação confirma o que eu disse: fazem-se dez embriões para que apenas saia um filho. Agora suponha-se que se vai manipular geneticamente um a um todos esses embriões antes de se tentar implantá-los, isso irá acrescentar bastante aos custos e irá também fazer aumentar a probabilidade de erro. Uma mulher que queira, digamos, ter um filho com olhos azuis terá que pagar, não 35 mil euros mas talvez o dobro, e terá uma boa probabilidade de que no fim lhe saia um filho vesgo.
Seja como fôr, será um processo complicado, caro e arriscado. Para a imensa maioria da população o método natural de conceção continuará a ser preferível.
Finalmente um texto sobre futuro num país virado para o hoje da revolução francesa, e um bom post do autor.
“o passado tem demonstrado o princípio da inevitabilidade do progresso científico”
Sim, inevitável apesar da coerção que vai existir.
Como serão os filhos desses humanos desenhados? os pais vão escolher que sejam desenhados também?
Será o desconhecido.
Tal como os projectos de eliminação dos mosquitos.
Vou pedir para manipularem os genes do meu próximo filho para que nasça Suíço.
Não é um estudo académico, mas é sempre interessante revisitar o melhor filme de Andrew Niccol, Gattaca. Já tem 21 anos mas é sempre relevante (e muito bem feito). E demosntra como a ficção científica tem criado desde há muito estudos destes futuros hipotéticos. Este é apenas um caso mas tenho a ideia que o João Campos te poderia citar outros.
E temos ainda, no mesmo género de investigação, em que o propósito é ultrapassar as limitações humanas, uma nova classe de medicamentos, os nootrópicos- Ex: Modafinil.
Isto é o futuro. Mas o futuro da ciência sempre nos demonstrou que esta não é a fonte da felicidade. Portanto, o conceito de felicidade, que tanto atormenta os contemporâneos, deixará de existir.
O que a ciência tentará fazer poderá passar por enxertar um gene desenvolvido laboratorialmente com os genes naturais. Aquilo a que se assistirá é a criação de um híbrido que, para poder vencer as sucessivas deficiências, será submetido a upgrades até nada mais lhe restar, isto é, a questão ontológica desaparecerá. Como as máquinas não questionam nem se questionam, a certeza que fica é que a tecnologia mais recente se sobreporá sempre à anterior.
A ciência não foi nem é a resposta para o Homem, é somente útil. Ela importa enquanto curiosidade e utilidade, depois manipula-se. Ora, o Homem ao ser objecto de manipulação desta acabará como uma coisa.
Concluindo, a vida, melhor, a longevidade não é o objectivo do ser, o seu objectivo é a qualidade, uma qualidade que o satisfaça ao ponto de a morte ser vista como a conclusão natural disto mesmo. Só importa a longevidade para os que perdem alguém; são questões humanas. Quando se atingir tal grau ou degrau, se fosse possível ao Homem ainda ser Homem, isto é, interrogar-se, a longevidade deixava de ser a sua meta.
Não há vida com qualidade que não aquela que se vive em Espírito e Verdade. Em breve resumo, criar-se-á um sarcófago para o que vulgarmente entendemos ser o que nos anima. E, neste âmbito, nada será perpétuo e nada existe.
Bem que a espécie humana precisa de algum melhoramento genético. Porque, com a baixa mortalidade infantil que atualmente se consegue, a humanidade cada vez mais está a vencer a seleção natural e a garantir que crianças geneticamente menos aptas conseguem atingir a idade adulta. Ademais, com a tendência para as mulheres cada vez terem filhos mais tarde, e para terem somente um ou dois filhos, também isso faz com que os filhos saiam cada vez menos perfeitos. Ou seja, o que acontece é que atualmente os seres humanos são cada vez mais débeis geneticamente e fisicamente, por serem mais imperfeitamente “fabricados” pelas suas mães.
Acresce que a procriação medicamente assistida é cara e complicada. Mesmo sabendo que podem melhorar geneticamente o bebé dela resultante, raras pessoas a quererão usar sem antes terem tentado a procriação por métodos naturais. Ou seja, na prática, a PMA continuará a só ser utilizada por mães já deveras idosas – as tais que já têm à partida grande probabilidade de produzirem um filho de menor qualidade física. Ou seja, o melhoramento genético da criança será compensado pela idade excessiva da mãe que o fabrica. No fim do dia, é provável que não vá haver melhoramento nenhum.